GLOBALIZAÇÃO: BABEL OU PENTECOSTES?


(4/2/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

A terra inteira utilizava a mesma língua e as mesmas palavras.

Gênesis 11,1

Cada um os ouvia falar em sua própria língua.

Atos dos Apóstolos 2,6-7

Globalização é hoje uma das palavras mais presentes nas análises sociais, econômicas e políticas. Ela urge como a explicação dos problemas, mudanças e conquistas atuais da humanidade. Sob o tema globalização encontra-se toda sorte de considerações e posições: desde os mais fortes defensores até os mais obstinados oponentes. Mas esta “novidade” é mais antiga do que imagina-se.

Há milênios, a tradição judaica e cristã debate a globalização e posiciona-se, em bases muito radicais. Nem os críticos, nem os defensores do processo atual, ainda não se deram dessa contribuição da tradição judaica-cristã. Alguns cristãos tendem a adotar um posicionamento tendencioso e político, ao invés de trazer sua contribuição, sua alteridade, seu sal, independentemente de sua opção partidária. O desafio é transformar Babel em Pentecostes.

Para muitos, a globalização é um processo típico da segunda metade do século XX que conduz a crescente integração das economias e sociedades dos vários países, especialmente da produção de mercadorias e serviços, mercados financeiros e difusão de informações. Outros discordam, no mínimo, com a data. A globalização já começou com os portugueses, no século XVI.

O processo de globalização nos remete – com razão – às caravelas e aos descobrimentos lusitanos. Foram os portugueses que acabaram com a “insularidade” da Europa, Ásia, Polinésia, África e América. A partir do gigantesco feito de Vasco da Gama, os portugueses colocaram em diálogo econômico e cultural, progressivamente, civilizações e continentes. Foram os portugueses que apresentaram ao “nosso mundo” as Molucas, a Índia, a China e o Japão. Na obra Os Lusíadas, Camões eleva aos patamares do universo mítico os feitos lusitanos, cingindo-se das regras aristotélicas, tomando por modelo Virgílio e Homero e comparando Vasco da Gama a Ulisses e Enéias. No paradoxo do relato mítico é como se portugueses se dispersassem pela terra, deslocando-se para o Oriente, para poder descobrir e unir os povos.

Os relatos míticos do início do livro do Gênese, concluem-se com a parábola da torre de Babel. O episódio começa evocando uma humanidade uniforme e não unificada, idêntica mas sem identidade, sem alteridade. “A terra inteira utilizava a mesma língua e as mesmas palavras. Ora, deslocando-se para o oriente, os homens descobriram…” (Gn 11,1-2). Parece que as descobertas estão mesmo no Oriente, de onde a velha asserção: Ab Oriente lux ou a luz vem do Oriente. Orientar-se. À qual agregou-se um corolário: Ab Occidente progressus ou seja, o progresso vem do Ocidente.

Babel, é um episódio conhecido mas se o leitor esqueceu, vale reler e meditar. É uma daquelas raras e estranhas situações em que Deus aparece falando no plural. Diante de um mundo singular, uniforme, Deus se apresenta plural: “Vamos, desçamos e confundamos a língua deles, que não se entendam mais entre si! Dali o Senhor os dispersou sobre toda a superfície da terra e eles cessaram de construir a cidade. Por isso, foi dado a ela o nome de Babel, pois foi ali que o Senhor confundiu a língua de toda a terra, e foi dali que o Senhor dispersou os homens sobre toda a terra.” (Gn 11,7-9).

Esse episódio tem uma enorme riqueza de significados, quando penetra-se na raiz hebraica das palavras: tijolo, palha, argamassa pedra e betume mas aqui importa destacar um significado político: esta parábola traduz a tentação que o homem experimenta de garantir a unidade da humanidade por um imperialismo político neopagão. Ele é exemplificado aqui, de forma anacrônica, pela Babilônia. Poderia ser aplicado a muitas cidades, ao longo da história da humanidade, de Roma a Nova Iorque, passando por Pequim.

A globalização, como dominação universal, deve ser rejeitada. Ela anula identidades, escraviza mentes e corpos e leva à fusão e a confusão. É também praticada, em outra escala, por seitas e pretensas igrejas. Nisso reside uma das maiores idolatrias de nossos dias: as seitas que vendem – pela televisão – uma torre para conquistar Deus, os céus e a riqueza material. Elas constróem e vendem esse ídolo: a imagem mecanicista de um Deus comerciante. Apresentam o sacrifício a Deus como sinônimo da entrega de dinheiro para os cofres da seita. São pastores que vivem da gordura de suas magras ovelhas. “Ai dos pastores que apascentam a si mesmos! Não é o rebanho que eles devem apascentar? Comeis as partes gordas, vos vestis com a lã, sacrificando os animais cevados, mas o rebanho, não o apascentais!” (Ez 34,2-3). Cabe também como perene exortação aos donos do poder, dirigentes de organismos internacionais, do FMI à ONU, e a qualquer autoridade.

Essas divisões, como a Babel dos Fóruns Internacionais – de Nova Iorque e Porto Alegre – não podem ser superadas pela uniformidade, nem pela força. Uma via está no livro dos Atos dos Apóstolos, principalmente em sua primeira parte (do 1 ao 12). Desde o ano 200, os Atos já eram considerados uma obra apostólica por excelência. Em sua primeira parte, os elementos são justapostos, quase sem cronologia, numa língua grega de tendência semitizante e com cores míticas: “Ora, em Jerusalém, residiam judeus piedosos, vindos de todas as nações que existem sob o céu. Ao rumor que se propagava, a multidão se reuniu e ficou toda confusa, pois cada um os ouvia falar em sua própria língua. Perplexos e maravilhados eles diziam: Todos esses que falam não são galileus? Como é que cada um de nós os ouve em sua língua materna?” (At 2,5-8).

Foi no dia da Quinquagésima, de Pentecostes, da festa judaica de Shavuot (semanas), no início do verão, face ao dom das colheitas. Quarenta e nove dias após Páscoa (7 x 7), num sinal de plenitude, jubileu e de outro mundo. O dom de Deus, do Santo Espírito, se exprime como uma explosão de linguagem!

O dom do Espírito restabelece a unidade lingüística e não sua uniformidade: todos se entendiam, cada um em sua própria língua! Verdadeira humanidade, verdadeira fraternidade. Esta globalização, este universalismo, esta catolicidade, preserva e exalta a identidade, a separação, a diferenciação e a alteridade. Num todo (holos), num catolicismo (katholikós = universal) que é mais que a soma das partes e a transcende. A Igreja católica deve prefigurar essa unidade na diversidade. Essa é a dimensão universal da inculturação e da missão apostólica dos cristãos, bem além de qualquer proselitismo. Esse é o espírito da globalização que precisamos, queremos e defendemos.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Globalização: Babel ou Pentecostes? A Tribuna, Campinas – SP, v. 92, p. 10 – 11, 2002.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Globalização: Babel ou Pentecostes? Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 3, p. 1 – 3, 2002.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *