GEOGRAFIA ESPIRITUAL NO EVANGELHO DE MARCOS – A MONTANHA

 

(13/8/2000)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

No evangelho de Marcos, Jesus prega para a multidão à beira mar, mas reserva a elevação das montanhas para revelar seus mistérios a uma minoria de iniciados e escolhidos. O espaço geográfico das manifestações do Espírito nunca é desordenado. Mar, montanha e casa representam três espaços da manifestação do sagrado. Em artigo anterior evocou-se o mar, lugar onde Jesus encontra as multidões. Este examinará a montanha, cujo simbolismo é múltiplo como lugar da elevação. Alta e levada, a montanha aproxima dos céus, evoca a ascensão e o encontro íntimo e místico da terra com os céus, do imanente com a Transcendência.

Em Marcos, a montanha é sagrada. Evoca a vida religiosa, a vocação monástica. Nela, mudanças e mutações inacreditáveis podem processar-se para os iniciados, os que são chamados “em particular”. S. João da Cruz descreve todas as etapas da vida mística como a ascensão do monte Carmelo ou ainda, por Santa Teresa d’Ávila, como as moradas da alma ou o castelo interior. Não se trata de um lugar aberto as multidões, mas destinado somente àqueles que Jesus convida para uma experiência pessoal e especial de Deus, num lugar que evoca a presença e a proximidade da Transcendência.

A expressão montanha/monte é empregada 16 vezes em Mateus, 11 em Marcos e Lucas e 5 em João. Logo no início do evangelho, Jesus sobe a montanha e chama para si os que ele quis (3,13). A sós, com os doze eleitos, lhes revela seus verdadeiros nomes, lhes confere poder para sua missão e os inicia numa nova vida. Começa por Pedro, o primeiro, o primaz, e termina por Judas, o homem de Hariot (Ish Hariot), o último, “o que o entregou” (3,19).

Após a multiplicação dos pães, Jesus despede a multidão e sobe na montanha para orar (6,46). A ascensão da montanha indica o conhecimento interior, a busca de uma espiritualidade centrada no íntimo da pessoa. O que se passa sobre a montanha, no alto dos montes, conduz ao conhecimento de si e de Deus. O Sinai do nosso ser é um lugar de revelação. Ele pede para ser percorrido como busca de uma verdade profunda, como Deus revelando-se a Elias no monte Horeb (1Rs 19,9). As altas montanhas são um símbolo bíblico de fortalezas e nesse sentido de espaços de segurança para o homem (Sl 30,8), montanhas de Deus (Sl 36,7 e 48; Is 14,12 e Ez 28,11-19). Verdadeiros pontos centrais ou umbigos da terra – o monte Garizim também é chamado de umbigo da terra (Jz 9,37). A Tabor e umbigo tem a mesma raiz hebraica. Jesus transfigura-se com razão na montanha do umbigo e não na do coração ou da cabeça. Marca indelével de nosso primeiro ferimento formal, uma depressão no centro do corpo, o umbigo é a memória de nosso vínculo com a placenta e o útero que nos matriciou. No Tabor, Jesus entra em contato especial com Quem o matriciou. Após o parto, o umbigo eleva-se como um mamilo, como que buscando ainda o alimento da fonte materna. Depois, inverte-se e aponta para o alimento que está no interior e na profundeza central do nosso ser.

No sentido escatológico, duas passagens proféticas da Primeira Aliança (Is 2,2 e Mq 4,1) evocam um futuro onde o monte do templo de Deus será estabelecido no alto das montanhas. A transfiguração de Jesus, em Marcos, retoma essa profecia. Jesus “levou-os a sós, em particular, a um alto monte (9,2). No auge da ascensão, transfigurou-se diante deles. Revelou-se o enviado do Pai, encarregado do projeto de uma nova humanidade, para além da lei e dos profetas. A liturgia bizantina afirma que Jesus não se transfigurou. Foram as escamas que caíram dos olhos de Pedro, Tiago e João. Eles viram, enfim, diante de quem estavam. Jesus era sempre Jesus. Mas ao descer da montanha, eles retomaram sua capa de argila e as escamas voltaram sobre seus olhos. Essas escamas estão destinadas a cair, definitivamente, na hora de nossa morte, na festa de nossa Páscoa, da nossa passagem para os braços amorosos de Deus. “E descendo eles do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, até que o Filho do homem ressuscitasse dos mortos”(9,9).

No alto das montanhas sagradas, símbolos da elevação suprema, operam-se revelações inesperadas. Do Carmelo ao Sinai, do Monte das Oliveiras ao Gólgota, brilha sempre reluzente o farol que aponta o rumo da eternidade. Como no belíssimo cântico catalão Virolai, que celebra a presença da mística fonte da água da vida no cimo da montanha sagrada de Montserrat (perto de Barcelona, na Catalunha), cortada com serra de ouro pelos anjos para fazer um palácio à virgem (Amb serra d’or els angelets serraren eixos turons per fer-vos un palau). Maria, cujo útero cresceu como uma montanha sagrada e transformou-se na mais extraordinária das catedrais:

Rosa d’abril, Morena de la serra,

de Montserrat estel;

il lumineu la catalana terra,

guieu-nos cap al Cel.

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A montanha. A Tribuna, Campinas – SP, v. 91, p. 6 – 7, 2000.

 

 

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