GEOGRAFIA ESPIRITUAL NO EVANGELHO DE MARCOS – A CASA

 

(1/10/2000)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Era uma vez uma casa no alto de uma montanha, lá na serra da Mantiqueira. De longe, a partir do tortuoso caminho do vale, parecia uma ruína: madeira e pedras caiadas, abandonadas entre as nuvens. Caminhando em sua direção, descobria-se uma singela casinha branca, coberta de sapé e envolvida no frescor do ar puro da serra. Chegando ao seu terreiro percebia-se uma acolhedora e florida varanda, perfumada por baunilhas e manacás. Dali contemplava-se o nascer do sol na imensidão do distante mar azul.

A maioria das pessoas não vive em casas bonitas, brancas ou perfumadas. Muitas das montanhas são desertas, desabitadas e inóspitas, e existe muita gente que nunca viu ou pôs os pés no mar. Entretanto, essas imagens mexem com o espírito e fazem sonhar. O mar, a montanha e a casa são imagens gravadas, impressas, no fundo da alma. Elas fazem parte da identidade dos humanos há milênios. Gravadas na profundidade de nossas mentes, elas fazem parte do que os psicólogos chamam de arquétipo. A palavra vem do grego arké (primeiro, princípio, origem, começo). Encontra-se o termo arké em outras palavras portuguesas como arqueologia, arquivo, arcaico e na filosofia aristotélica designava princípio, fonte ou causa.

O conceito de arquétipo traduz a idéia do padrão, do modelo primordial dos seres criados. Para a psicologia junguiana, os arquétipos correspondem a imagens psíquicas do inconsciente coletivo, que são patrimônio comum a toda a humanidade: Os arquétipos são a base dos comportamentos especificamente humanos. Para Jung existem tantos arquétipos quantas situações típicas na vida das pessoas. Os quatro evangelhos, e toda a Bíblia, estão repletos de imagens arquetípicas. E se hoje se usa e abusa do termo arquétipo e arquetípico, a psicologia analítica sempre observa os arquétipos e suas manifestações na prática clínica, com uma atitude científica e fenomenológica cuidadosa. No sentido espiritual, o arquétipo pode ser entendido como selo, marca de Deus na cera do humano.

Ao falar de mar, montanha e casa, o evangelho de Marcos evoca mais do que uma circunstância espacial ou uma localização geográfica onde os eventos da vida de Jesus aconteceram, como ocorre com os outros evangelistas. O esmero em descrever situações concretas, com detalhes omitidos por Mateus e Lucas, faz com que Marcos trate o tempo e o espaço de uma forma muito especial: o tempo é novo e o espaço é outro.

O tempo novo, o novo tempo, chega com Jesus. Uma das marcas dessa nova temporalidade em Marcos é o uso repetido e constante do termo logo, no sentido de imediatamente, instantâneo, sem hesitação:

“deixam logo as redes (1,18);

logo os chamou (1,20),

logo no dia de sábado (1,21);

logo ao sair da sinagoga (1,29);

logo falaram da sogra de Pedro (1,30)…”

A palavra logo (euthus em grego, bekarov em hebraico) realça ao mesmo tempo, a força e o inesperado da inspiração que comanda o agir, a conversão, nos dizeres de André Chouraqui, acima de raciocínios, reflexões ou deduções. As pessoas aderem a Jesus, convertem-se, seguem-no, independentemente de caminhos psicológicos complexos, raciocínios elaborados, testemunhos e milagres, pregações ou discursos. Mas essa presença do Espírito no tempo cumprido (Mc 1,15) e na proximidade do Reinado de Deus também se manifesta no evangelho de Marcos, no espaço.

Existe uma geografia espiritual em Marcos, cuja descoberta não exige sacrifícios ou erudição exegética particular. Marcos não localiza somente, no sentido territorial, a missão e a manifestação de Jesus como em Cafarnaum, Galiléia, Betsaida, Jerusalém ou alhures. É claro que essa territorialidade não é neutra e possui um determinado conteúdo espiritual. O convite ao leitor é no sentido de seguir a geografia espiritual de Marcos, em três dos principais lugares onde ele situou (até em contradição com os outros evangelistas), as manifestações de Jesus: o mar, a montanha e a casa.

Uma simples comparação dos textos revela que o que parecia um simples, brota de outra inspiração, outra geografia, profundamente arquetípica e espiritual. O espaço geográfico das manifestações do Espírito não é algo desordenado, em pedaços ou ruínas, ao sabor do texto ou materiais que serviram ao relato de Marcos. É fácil perceber que para Marcos, determinados eventos espirituais só podem ocorrer no mar, enquanto outros somente na montanha ou na casa. Essa geografia espiritual tem dimensão de mistério e marca arquetípica. O significado psicológico e espiritual desses contextos espaciais, rico e coerente, é também misterioso no evangelho de Marcos.

A iniciação nos mistérios da Igreja é lenta. Dura toda a existência. As portas dos mistérios (mysterion, de myo, manter fechado) da Igreja começam a abrir-se para o cristão no ritual iniciático do batismo. Elas continuam abrindo-se, na vivência da fé, aos que escolheram a casa certa e a porta de entrada verdadeira: “Eu sou a porta; se alguém entra por mim, será salvo, sairá e voltará e achará com que se alimentar (Jo 10,9)”. Para viajantes perdidos pelo costume. A estrada é conhecida. O caminho é fácil. A paisagem costumeira. Mas tudo que vira reflexo dispensa o ato consciente e reflexivo. As pistas nestes artigos sobre a geografia espiritual do evangelho de Marcos vêm para que o caminho se perca, a paisagem fique perturbadora e portadora de novas possibilidades. O que parecia conhecido revela-se desconhecido. E no desconhecido descortinam-se novos lugares e agradáveis descobertas. Um pouco como na música de Beto Guedes, esses novos lugares reservam surpresas luminosas e perfumadas, ocultas aos olhos de muitos, mas reveladas aos iniciados.

“Eu moro numa casinha de palha

que fica detrás da muralha

daquela serra acolá.

De longe, ela vos parece arruinada

mas de perto ela é juncada

de baunilha e manacá”.

 

 

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