GEOGRAFIA ESPIRITUAL NO EVANGELHO DE MARCOS – À BEIRA MAR

 

(17/12/2000)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

fluctuat, nec mergitur

 

No evangelho de Marcos, o espaço geográfico das manifestações do Espírito não é algo desordenado. Para Marcos, determinados eventos espirituais só podem ocorrer no mar, enquanto outros somente na montanha ou na casa. Essa geografia espiritual tem uma dimensão de mistério e uma marca arquetípica. E o primeiro lugar da geografia espiritual de Marcos é o mar.

No início do evangelho de Marcos, Jesus vem de Nazaré e é batizado por João. Após ter sido posto à prova no deserto, não retorna a Nazaré, mas instala-se em Cafarnaum, na beira do mar da Galiléia. Para um contador de palavras, Marcos aparece como alguém que gostava do mar. São 14 citações da palavra mar, contra 3 em Lucas e 6 em João.

O mar surge em Marcos, logo no capítulo primeiro. É o contexto onde Jesus começa a proclamar o evangelho e encontrar seus discípulos e a multidão. A evangelização tem início com o chamamento dos discípulos, e isso ocorre ao longo do mar. “Caminhando junto ao mar da Galiléia…” ou ainda “Passando ao longo do mar da Galiléia…” (Mc 1,16), Jesus avista e convoca seus primeiros quatro discípulos, homens pecadores e pescadores.

No segundo capítulo de Marcos, já acompanhado por seus discípulos, “Jesus saiu de novo para a beira do mar. Toda a multidão vinha a ele, e ele os ensinava.” (2, 13). No capítulo terceiro encontramos um texto quase idêntico: “Jesus retirou-se com seus discípulos para a beira do mar. Uma grande multidão vinda da Galiléia o seguiu.” (3,7). No quarto capítulo, outro texto análogo: “Novamente, Jesus põe-se a ensinar à beira do mar. Uma multidão se junta perto dele…” (4, 1). Nesse capítulo temos ainda Jesus repreendendo o vento e falando ao mar (4,39), para espanto dos discípulos que se surpreendem de ver que até o vento e mar lhe obedecem (4,41). O quinto capítulo também começa no mar: “Chegaram até a outra margem do mar” (5,1). E o mar segue presente, em outros capítulos do evangelho de Marcos.

O mar é símbolo da origem e dinâmica da vida. Tudo sai do mar e volta para ele. Esse imenso receptáculo, imagem do inconsciente, é uma matriz da vida. Seu simbolismo encontra o da água e do oceano. Como um corpo materno, o mar é lugar propício para nascimentos, transformações e renascimentos. É junto ao mar, é do mar, que Jesus fala com as multidões. Se em Lucas, Jesus desce a um plano (Lc 6,17) para pregar o “sermão da montanha” de Mateus (Mt 5,1), em Marcos certamente o fez a beira mar.

O balançar das águas do mar, suas ondas em movimento, evocam os estados transitórios entre realidades possíveis, ainda informais, e as realidades formais, que aprisionam, imobilizam e mumificam. O mar é fonte de correntes que podem ser mortais ou vivificantes. Nos sonhos e filmes, os naufrágios, afogamentos, perigos e monstros surgem das profundezas do mar, como outros monstros surgem das do nosso inconsciente. Nesse contexto de ambivalência, incerteza, dúvida, indecisão pode-se transformar mal em bem, trevas em luz. É nesse contexto que, no evangelho de Marcos, Jesus dirige-se ao povo e às multidões. Vamos pescar um desses ensinamentos.

Uma vez questionaram Santa Teresinha do Menino Jesus, porque ela nunca pedia coisas, favores, graças etc. para Deus. Achavam que a noviça era gente de pouca fé. Ela respondeu: Jesus veio dormir no meu barco, eu não vou acordá-lo! Nesse episódio evangélico evocado pela santinha, sobre a tempestade no lago de Genezaré. Marcos (4,35-41) relata como o convite de Jesus, para que passassem à outra margem, se transformou num pesadelo. Em meio à tempestade, Jesus dormia sobre a almofada. Foi despertado por homens angustiados. Como recomendam comerciantes da fé em programas de televisão e no púlpito de seus templos: peçam bens, automóveis, saúde, trabalho, dinheiro… Peçam com fé que Deus atende. Os discípulos pediam por suas vidas e Jesus tratou essa atitude como falta de fé!

Quando o barulho cessa, a multidão vai embora e ficamos , na casa vazia, quando enfim a calma se instala, é aí que a “tempestade” começa no coração. Temos medo de nós mesmos, não nos encontramos em nós, gostaríamos de achar um abrigo… Forças ocultas da alma, experiências que havíamos negado, escondido no inconsciente, emergem, ressurgem e ameaçam nos engolir. Confrontados a nós mesmos, como não se afogar?

Esse mar infinito pode nos engolir e pode também nos transportar. Ele é nosso coração, nosso inconsciente, o impenetrável, o sem fronteiras. Não há como escapar ao risco dessa água, mas importa saber como viver. Marcos convida a não se contentar de voltar-se para Deus na hora da dificuldade, implorando para que nos salve. Marcos convida a adotar a atitude que Jesus encarna: dormir, não fazer nada. Algo de um enorme alcance espiritual.

Saibamos, no mais profundo de nós mesmos: não há nada a temer, nem do exterior, nem das forças profundas que se agitam em nós. Nosso único problema é reencontrar a paz, como Jesus dormindo no barco. Como dizia Santa Teresinha, Ele veio dormir em nosso barco. Nada nos pode ameaçar. Nada nos falta. Imediatamente as ondas cessam e o vento se aquieta.

Pouco adianta buscar socorro, implorar conselho. O que fazer? O evangelho diz que não há nada a “fazer”. Quem passa todo seu tempo fazendo o bem, não acha tempo para ser bom, dizem os místicos. Não reserva tempo a contemplação. É pura ação. Ser capaz de encontrar a paz interior no meio do furacão, eis o que importa na vida! Ancorar o barco na profundidade interior, na terra firme, bem abaixo das fúrias do mar, mais profundamente que o mais fundo dos abismos, abaixo da zona da angústia psíquica. O que decide os sentimentos é saber, sim ou não, se tal lugar existe, sob o abismo.

Nisso fé e psicanálise encontram-se. O conselho do terapeuta se junta à atitude de Jesus: dormir, “esquecer” a angústia e buscar na profundidade do eu interior, da linguagem dos sonhos e das imagens do sono, uma fortaleza, uma firmeza renovada. Encarnar a atitude de Jesus. A fé é precisamente o que é suscetível de nos fazer entrever, perceber, – até em sonhos – que o humano pode viver de uma forma diferente o real, a realidade, se ele acredita que existe uma “outra margem”, além do mar do inconsciente. É em função da falta de fé e do medo que se amplificam o ruído do mar e a força das ondas. A única força capaz de parar esse vento é nossa confiança em Deus.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. À beira mar. A Tribuna, Campinas – SP, v. 91, p. 6 – 7, 2000.

 

 

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