FRATERNIDADE OU SOLIDARIEDADE?


(26/1/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

Perguntaram a um rabino: – Por que os homens são todos diferentes? Por que não existem duas pessoas iguais? O rabino respondeu sem hesitar: – Porque são todos imagem e semelhança de Deus. O Batismo nós declara irmãos, filhos do mesmo Deus e nesse sentido, iguais a todos. Parece um paradoxo falar de alteridade dos semelhantes. Ninguém é inteiramente semelhante a nós. Ninguém é radicalmente estranho ou diferente de nós. Há sempre uma dose de identidade e de diferença. Todos os homens são filhos de um único Deus (Gn 5,1).

Numerosos ensinamentos bíblicos começam com a expressão “Se o teu irmão…”. A fraternidade é sempre apresentada como um fundamento do dever de justiça com relação a todos. Essa fraternidade original está no começo e realiza-se plenamente no final. “Que o teu irmão viva com você…” (Lv 25,36). Que ele viva ao teu lado, na mesma casa, na mesma classe, no mesmo trabalho, na mesma sociedade, no mesmo planeta.

Os deveres com relação ao próximo, nosso irmão, têm esse objetivo de fraternidade: que ele viva conosco. Aceito e não rejeitado, acolhido e não discriminado, ajudado e não explorado, amado e não esquecido. O termo fraternidade anda pouco utilizado na sociedade contemporânea. Fala-se mais de direitos, igualdade, respeito ou liberdade e menos de fraternidade. A palavra da moda é solidariedade. Nesta Quaresma, uma Campanha da Solidariedade seria mais eficiente do que a da Fraternidade?

A fraternidade da tradição judaica e cristã é como uma imposição da consangüinidade. Ninguém pode ou tem como escapar. A solidariedade não se impõe como um fato da natureza, mas vêm de uma atitude pessoal, de uma iniciativa pessoal. Mesmo se em contato com muitos, o solidário é solitário. A solidariedade depende da boa ou da má vontade de cada um, diante de uma opção de atitude solidária. A solidariedade é no máximo uma obrigação moral relativa.

A exclusão é uma impossibilidade teórica quando a fraternidade define os vínculos entre os homens. O Batismo nos insere numa igualdade que brota da fraternidade. Em 2010, no Dia Mundial da Paz, o papa Bento XVI publicou a mensagem “Se queres a paz, cuida da criação”. Esse texto merece ser lido e refletido na Quaresma, durante a Campanha da Fraternidade. Para a Santa Sé devemos fomentar uma tomada de consciência do “forte elo que existe no nosso mundo globalizado e interconectado entre salvaguarda da criação e cultivo do bem da paz”, “se a família humana não souber fazer frente a estes novos desafios com um renovado sentido de justiça e de equidade social e de solidariedade internacional, corre-se o risco de semear a violência entre os povos e entre as gerações presentes e futuras”. Esta Campanha da Fraternidade nos convida a refletir sobre o desafio de vivermos como irmãos, cuidando da Criação, no mesmo planeta, sob o mesmo teto e o mesmo céu.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Fraternidade ou Solidariedade. A Tribuna, Campinas – SP, p. 13 – 13, 2011.

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