FRAGILIDADE E GRANDEZA


O testemunho de Teresinha

(5/4/1994)

Evaristo Eduardo de Miranda

ONTEM. Século dezenove. Nas escaldantes e calcinadas caatingas do sertão baiano, um vaqueiro persegue uma rês em disparada. Galhos, espinhos e garranchos não desviam seus olhos daquele alvo ligeiro e quase selvagem. Banhada de luz e suor, a rês comanda o cavaleiro em suas manobras e esquivas. De repente, o animal desaparece. Lançado em toda velocidade, o espanto do vaqueiro diante da desaparição só é maior quando o chão, sob seu cavalo, também desaparece. Ele se precipita num profundo e escuro grotão. Seu único grito é um clamor: – Valei-me Nosso Senhor Jesus Cristo! Na queda morrem os animais, rês e cavalo. Sobrevive o cavaleiro. Atônito, ele observa o feixe de luz, de origem distante, proveniente do alto do teto da caverna. Impossível galgar as paredes íngremes. E para onde seguir naquele cheol, naquelas trevas silenciosas, eliminadoras de toda e qualquer diferença? Surpresa maior, na sucessão de assombros, é ver um homem atrás dele, indicando-lhe um caminho: – Há uma saída por ali. O vaqueiro dá alguns passos e perscruta a direção indicada. Volta-se para infinitas indagações e confirmações. O homem desapareceu. Friagem escura e contato com o chão. Seu único referencial era o de uma visão que o convidou a entrar nas trevas e buscar a saída. O vaqueiro abandona animais, sela, arreios. Põe-se a caminho. Na escuridão abaixa-se ainda mais, fica de joelhos, gatinha. O chão é macio. O único ruído é o da sua vida: um coração batendo e marcando o tempo. Quando a coluna de luz do precipício onde caíra vai desaparecendo, deixando-o em aparente trevas totais, ele hesita em prosseguir. Pensa em voltar atrás. Mas toma coragem e, mesmo sem direção, avança. Imediatamente esgueira-se adiante uma tênue claridade. Ele avança rápido em direção à nova luz, filha do mesmo sol. O útero da terra o devolve. A saída é ampla como uma catedral. A subida é suave e enfeitada por pássaros e vegetação. O vaqueiro fica em pé e abre os braços. De braços abertos em cruz, reza de joelhos, invocando mais uma vez Nosso Bom Senhor, Jesus Cristo.

Assim reza a história da descoberta da linda gruta de Ituaçú na Bahia. Ainda hoje, pessoas vivem a uterina experiência de penetrar nas trevas, no silêncio do ventre da montanha calcária, para sair quase quatro quilômetros depois. Mas a maioria dos romeiros limita-se a algumas centenas de metros, numa caminhada invertida em relação à do vaqueiro. Diante do buraco no teto da caverna, todos param para rezar junto à cruz. Ela marca o lugar da queda do vaqueiro. Todos em silêncio, iluminados por um frágil feixe descendente de luz.

HOJE. Iluminados, mas sem luz, ao invés de capturarmos nossos objetivos, deixamos que eles nos capturem. Cegam-nos e nos lançam em desabaladas carreiras, profissionais e afetivas. Diante da cegueira das paixões caímos, vítimas de nós mesmos. Caímos no buraco cavado por nós mesmos com nossas ganâncias, iras, friezas e indiferenças. No caminho da Vida, muitos são vítimas da sociedade. Outros são vítimas de grupos. Outros ainda são vítimas de uma pessoa. Mas o pior é aquele que é vítima de si mesmo. Do inferno pessoal, como realizar o difícil resgate? Quantas vezes já caímos? Quantas vezes fomos ao chão? Quantas vezes nos quebramos em pedaços? Assim Ele trata seus amigos, diz uma velha história carmelita. Saulo também foi derrubado por Deus de seu cavalo, quando seguia em vôo cego e onipotente. A cegueira do humano pode ser revelada pelo divino. Revelar é tirar o véu. Tornar visível o invisível. As quedas sofridas, por maiores que sejam, são momentos excepcionais para dar início a mudanças transformadoras. São possibilidades de visão.

“Teresinha de Jesus, numa queda foi ao chão, acudiram três cavalheiros, todos de chapéu na mão. O primeiro foi seu pai (Édipo). O segundo, seu irmão (incesto). O terceiro foi aquele, que Teresa deu a mão.” Como na tradicional cantiga de crianças, “Teresinha de Jesus”, quantas vezes de uma queda vamos ao chão. As quedas pessoais e ontológicas são muitas ao longo da vida. O vaso do ser quebra-se em pedaços. Algumas pessoas conseguem – pela dedicação, pela auto-análise e até pela via da psicanálise – recuperar e colar cada pedacinho de seu vaso. Determinadas terapias permitem buscar cacos muito distantes no tempo. Esse caminho de integração é válido e fantástico. A pessoa cresce em consciência de si e em maturidade. Mas a via da Graça de Deus, indicada por Teresinha, é outra. O testemunho de sua vida mostra o poder renovador da Graça de Deus. Um vaso restaurado – olhado de perto – mantém cicatrizes e marcas das rupturas. A consciência de si, momento essencial da verdade, avisa da fragilidade de certas emendas. Elas não devem ser submetidas a tensões ou tentações, sob o risco de romperem-se de novo. Porém a Graça de Deus não somente nos limpa, mas perdoa e acolhe. Ela nos recria, sem destruir nossa natureza, ajudando-nos a sublimar e superar. Transforma-nos num vaso novo. O batismo coloca os cristãos em contato com a profusão do amor de Deus. A força recriadora da Graça nos transforma em novas criaturas. Superando passados ainda presentes, por mais distantes e esgarçantes que tenham sido.

Para Teresinha, a Graça de Deus não conserta, nem restaura. Ela recria. Insere-nos plenamente no hoje e nos prepara para o amanhã. Mais do que apesar de nossas fraquezas, Deus opera graças às nossas fraquezas e nossas quedas. Sem desprezar o valor do livre arbítrio e o respeito de Deus pela liberdade humana, para os cristãos existem muitas vias de ascensão. Teresinha ensina a da entrega confiante no amor absoluto do Pai.

SEMPRE. Esse poder sobrenatural, ao longo da história, permitiu a tantos indivíduos superarem completamente – neles mesmos – o que parecia impossível. Não voltar atrás. Aceitar a mão estendida, mas não qualquer ajuda. Como Teresa. Essa maravilhosa e doce Teresinha do Menino Jesus, uma das santas mais veneradas no Brasil. No início de sua vida, ela queria ser santa, mas as quedas eram tantas! Ela não achava em si nem as virtudes, nem a saúde para viver todas as peripécias da longa e difícil caminhada dos santos. Um dia descobriu – como ela dizia – um elevadorzinho para ir mais rápido para o céu: o caminho das pequenas coisas, a pequena via. A ascensão pelos degraus da consciência é um lento caminho feito de pequenas coisas e pequenas descobertas. Muitas vezes, quando pensamos estar avançando, vem uma queda. Descobrimos que não havíamos saído do lugar. Outras vezes, quando pensávamos estar parados, descobrimos que avançávamos a grandes passos. As quedas nos ajudam a vencer as ilusões. Mais importante do que as quedas é o levantar-se para continuar. Crescemos no caminho da consciência, superando apegos, rejeições e indiferenças. O pecado é uma queda na existência. É a dificuldade de ficar em relação. A gente se esquece do Céu, do Cosmos e do Pai. Ignora o passado imemorial. Imagina-se só, começando em si mesmo, filho do nada, do vazio. Os filhos do nada são sementes do caos. Os filhos de Deus são sementes de luz. Por isso, se o pecado é sempre uma amnésia, a Graça é sempre a luz da consciência.

Não parece, mas ao simplificarmos nossa vida pela Graça e pela entrega, podemos seguir o exemplo de Teresinha, descobrindo muitos elevadorezinhos para chegar a Deus. Ontem, como hoje e sempre, o fundamental é a descoberta evocada por Santa Teresinha do Menino Jesus: “Senti que a única coisa necessária era unir-me sempre mais intimamente a Jesus, o resto me seria dado por acréscimo”. Com efeito, minha esperança nunca se iludiu.” (MA C 22).

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