FILHOS DO COSMOS E DO CAOS


(1/7/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

O jogador Edmundo só reconheceu sua condição de pai diante de um juiz e da prova irrefutável de um exame de DNA. Mesmo assim, fez a mãe da criança chorar ao se negar a ver e conhecer o filho. Nos mesmos dias, os filhos de Paulo César Farias, recém chegados para passar suas férias ao lado do pai em Alagoas, assistem ao seu assassinato e à todo o drama e confusão envolvendo esse trágico episódio. O grande jogador Pelé recusa reconhecer uma de suas filhas. Qual o destino desses filhos, face aos exemplos da vida e da atitude de seus pais?

Na sociedade moderna as famílias estão cada vez mais divididas e desintegradas. As formas e características das famílias atuais distanciam-se do modelo patriarcal. São vários casamentos na vida de cada cônjuge. São filhos de vários casamentos. Meio irmãos, mães solteiras, crianças abandonadas, filhos adotivos… Cada vez mais freqüentes em nossa sociedade, os filhos de várias uniões são educados em meio a modelos familiares mal definidos e em crise. Vítimas da irresponsabilidade social ou de quem vive “sem medo de ser feliz”, essas crianças devem enfrentar uma difícil caminhada para assumir sua própria identidade. A figura do pai e da mãe, ou de quem cumpre esse papel, são fundamentais no desenvolvimento psíquico, afetivo e espiritual das crianças. Mas na sua ausência, mirar-se em quem?

Geradas e criadas em contextos caóticos, as crianças inconscientemente crescem como se fossem profanadores de linhagens. Os profanadores esquecem que tiveram ascendentes e antepassados. Perdem a memória e, sem querer, profanam a si mesmos. Sua dificuldade de inserção no mundo será um mero reflexo de sua impossibilidade de inserir-se em si mesmos. Eles tendem a imaginar-se sós, começando em si mesmos, filhos do nada, do vazio. Mas os filhos do nada são sementes do caos. Gerarão outros filhos, da mesma extirpe. Essa alienação, pecaminosa no pleno sentido do termo, pode ser vencida e exorcizada. O pecado é sempre uma amnésia, uma queda na existência, uma dificuldade de estar em relação. A graça é sempre a luz da consciência. É a chance de descobrir, mais uma vez e sempre, que não estamos sós, nem nunca estivemos.

Mesmo quando as portas são estreitas e quase fechadas. Não estamos sós. Mesmo quando morre alguém aparentemente indispensável e insubstituível em nossas vidas. Não estamos sós. Mesmo quando a progenitura simplesmente não existiu. Não estamos sós! Somos filhos do Cosmos, sementes estrelar. Todos os cristãos receberam no batismo uma filiação celeste. Foram inscritos no livro da Vida. A nós de comunicar e buscar o diálogo íntimo com a pessoa de Deus, com o Outro.

Nascer de pais violentos ou ausentes. Ser marcado pela tirania de suas palavras ou pela crueldade de seus mutismos e abandonos. Nascer de pais com taras mentais ou biológicas, de alcoólatras ou drogados. E encontrar sua liberdade. Vencer o seu nascimento. Tornar-se um ser extraordinário, graças a outra filiação, a filiação celeste. Como nos romances de Emile Zola, tantas pessoas de nosso povo vivem essa ventura. Pessoas que, apesar de terem tido pais fracassados, apesar do mutismo da progenitura, foram capazes de beber da água viva da árvore da cruz. Sabiam e quiseram virar as páginas pois estavam inscritos no livro da Vida. A potência da Palavra os curou, inspirou e libertou. Redescobriram o que já sabiam. Eram semente estrelar, herdeiros do cosmos, filhos e filhas do Deus da Palavra. Essas crianças, vítimas de seus pais e da sociedade, são mais do que o mero resultado de uma aventura sexual. São mais do que uma obra de um acidente biológico. A inserção de suas pessoas na árvore da vida, na videira verdadeira, as diferencia, as insere numa outra genealogia e as ajudará a vencer a morte.

As crianças não vêm ao mundo para pagar dívidas impagáveis. Não vêm ao mundo para realizar sonhos, projetos ou desejos de seus pais, mas para ter vida plena. Quem se situa em sua filiação pode ir além dessa mesma filiação. E a quem perguntar, como numa acusação: – você é o filho do PC? ou ainda: – você é “aquele” filho do Edmundo? Caberá uma resposta definitiva, a ser ensinada e lembrada a essas crianças: – Eu sou filho de Deus!

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