FICAR DOENTE É NORMAL


(3/3/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Para os católicos, a doença não é, nem nunca foi, castigo de Deus ou provação divina. A vida é frágil. A doença faz parte da condição humana, como a saúde, a tristeza e a alegria. O desejo humano é o de ser saudável e feliz, mas a vida traz enfermidades, limites e desafios. Faz parte. A grande questão é como tratar ou viver a enfermidade. A doença é uma escola. Muita gente aprende com ela, cresce como pessoa humana, em autoconhecimento e em superação. Já outros são vitimados. Incapazes de elaborar sua situação, eles acabam abatidos pela doença.

Em 1983, ao falar em Lourdes aos doentes, o papa João Paulo II – já bastante enfermo nessa ocasião – desejou deixar “na memória e no coração” dos doentes três pequenas luzes que lhe pareciam preciosas. Elas são mesmo três preciosas luzinhas para os católicos que sofrem com enfermidades crônicas ou agudas. As palavras do Papa foram sobre consciência, aceitação e oblação, e foram dirigidas aos enfermos no Santuário de Nossa Senhora de Lourdes:

“Em primeiro lugar, qualquer que seja o vosso sofrimento, físico ou moral, pessoal ou familiar, apostólico ou eclesial, é importante que vocês tomem lucidamente consciência, sem minimizá-lo ou aumentá-lo, e com todas as turbulências que ele gera na vossa sensibilidade humana: fracasso, inutilidade de vossa vida… Em seguida, é indispensável avançar na via da aceitação. Sim, aceitar que seja assim, não por resignação, mais ou menos cega, mas porque a fé nos assegura que o Senhor pode e quer produzir o bem a partir do mal. Enfim, falta fazer o mais belo gesto: a oblação. A oferenda, efetuada pelo amor do Senhor e de nossos irmãos, permite de atingir um grau, às vezes elevadíssimo, de caridade teologal, ou seja, perder-se no amor do Cristo e da santíssima Trindade, pela humanidade. Essas três etapas vividas por cada um que sofre, segundo seu ritmo e sua graça, lhe trará uma libertação interior impressionante. Não é esse o ensinamento paradoxal trazido pelos Evangelhos: “Aquele que perde sua vida por minha causa, a encontrará”?

Todos nascem extremamente frágeis e carentes. Durante a vida continuam frágeis. Ninguém vive num refúgio onde não possa ocorrer uma enfermidade, um acidente ou simplesmente um cansaço. O envelhecer é como uma nova escola. Como diz S. Paulo: “De boa vontade me gloriarei de minhas fraquezas para que em mim habite o poder de Cristo” (2Cor 12,9).

Negar a presença da fragilidade na vida humana é negar a realidade da morte. As fraquezas sempre lembram a última despossessão: a morte. A fraqueza não ilude. A ilusão está no desejo de ser forte e poderoso, ao rejeitar as realidades da fragilidade na vida de cada um.

Para os católicos, ser humano, viver sua humanidade, equivale a aceitar a coabitação em cada um da força e da fraqueza, da saúde e da doença, da perfeição e da imperfeição, da vida e da morte. “O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza (…). Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte”, disse o bom e velho apóstolo S. Paulo (2Cor 12,-10).

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