FESTA DA IMACULADA


(5/12/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Campinas, manchada pelo desemprego, violência, pobreza e poluição, festeja a Imaculada, e a si mesma, no dia 8 de dezembro. A festa do município, feriado profano e religioso, lembra a palavra do arcanjo Gabriel a Maria, no momento da anunciação: Ave Maria, cheia de graça!

No Oriente, a solenidade remonta pelo menos ao século VIII. No Ocidente, tem-se notícia da festa desde o século IX, na França e Inglaterra. A Imaculada Conceição, epíteto com que se designa a Virgem Maria, isenta da mácula do pecado original, foi proclamada por Pio IX, em 1854. Em Campinas, Nossa Senhora da Imaculada Conceição dá nome a muitos jardins, bairros, paróquias, comunidades e até ao cemitério dos Amarais.

Na sagrada escritura, Maria foi sempre a virgem “cheia de graça” (Lc 1,28). O texto diz exatamente “cumulada de graça”, kekharithomené em grego. Cheio de graça será privilégio do Verbo que se fez carne, “cheio de graça e verdade” (Jn 1,14). Essa graça não é uma coisa, mas uma qualidade da sua relação com Deus. É fruto de um dom gratuito, recebido da parte de Deus.

Foi sob o exemplo de Maria que a cidade decidiu se colocar. Talvez nunca em sua história, a cidade tenha precisado tanto dessa imaculização. Nunca a cidade esteve tão estigmatizada pelos seus filhos e entre seus filhos. As nódoas, as manchas, as marcas – que estão esculpindo um novo rosto para a cidade – não merecem destaque. Elas são apresentadas diariamente nas ruas e na mídia em geral. Mais do que impurezas e opacidades, o dia 8 de dezembro lembra o desafio da imaculização. Cada um deveria ser capaz de conceber seus planos e projetos de forma imaculada. Cada um deveria concretizar seus sonhos e aspirações de forma imaculada. Mas é tão difícil. Porque?

Maria foi criatura, mulher e filha de Israel. Participou plenamente do mundo e não pode ser confundida com uma deusa. Dessas que eram objeto de culto na Antiguidade e reaparecem hoje em dia. Maria não está fora, nem acima da humanidade. Ela pertence toda inteira a essa humanidade, com quem Deus quiz coroar sua criação. É como mulher, em primeiro lugar, que Maria deve ser considerada. Uma mulher entre as mulheres (Bendita és tu entre as mulheres…). Como as mulheres de nossos dias, de nossa cidade, ela conheceu a condição de esposa e mãe. Maria é sobretudo aquela mulher a quem os pobres de Campinas se dirigem na busca de reconforto e consolo. Porque?

Essa proximidade materna e humana, esse rosto de ternura e compaixão, fazem com que nos lembremos dela, na tristeza e alegria. Uma imagem, imaginada, é muito comum nos carros que disputam as ruas da cidade. Ontem e hoje, os homens e mulheres do município percebem em Nossa Senhora uma mulher “da gente”, uma criatura de Deus, uma pobre de Israel, cujo rosto tão humano segue habitando a fé e a esperança dos humildes. Por que?

Por que Nossa Senhora, diante do mistério da encarnação, confirmado pela Santa Isabel, cantou um dos mais belos manifestos em defesa dos pobres e pequeninos: o cântico chamado Magnificat (Lc 1,46-55). A Argentina também lembra neste dia Alícia Domon e Leonila Duquet. Elas são uma espécie de padroeiras das Mães da Plaza de Mayo. Religiosas, viviam no meio dos pobres, participando com jejum e orações do drama dos desaparecidos. Morreram, imaculadas, assassinadas, em 8 de dezembro de 1977, tornando-se um símbolo dos que lutam pela vida e justiça, lá e aqui.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Campinas na Festa da Imaculada. Correio Popular, Campinas – SP, p. 03, 1998.

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