FENO DE LUZ


(23/10/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Nos finados celebra-se a memória de todos os que findaram, os nossos irmãos finados. Eles chegaram ao fim do seu tempo. Por isso finados é um dia solene, consagrado à lembrança dos antepassados, dos ascendentes e de todos os nossos mortos. Este feriado é amplamente celebrado em todo o mundo. Os feriados são dias consagrados pelas sociedades à memória de algum evento, personalidade ou feito histórico. A consagração os faz sagrados, os coloca à parte. Nesses dias não se trabalha. O país se consagra a meditar, a lembrar.

Muitas pessoas não respeitam este feriado porque não lhes diz absolutamente nada ou porque, por exemplo, não corresponde a um evento ou personagem de sua religião ou de seu interesse. Os profanadores desta data esquecem que tiveram ascendentes e antepassados. Perdem a memória e, sem querer, profanam a si mesmos. O pecado é uma queda em nossa existência. A gente se esquece do Céu, do Cosmos e do amor do Pai. Muita gente ignora que teve pai, mãe, avô, avó… Imagina-se só, começando em si mesmo, filho do nada, do vazio. Ora, os filhos do nada são sementes do caos. Se o pecado é um esquecimento, a Graça de Deus é sempre a luz da nossa consciência.

O finar evoca o findar e o morrer. Os finados foram ceifados no seu tempo. O feno é a erva ceifada e seca que serve de alimento aos animais em períodos difíceis de inverno ou seca. Na Bíblia, o homem é comparado à erva do campo. Finar e fenar são palavras com a mesma origem. Feno vem do grego phaíno e quer dizer brilhar, aparecer. Por isso a epifania evoca o Cristo como luz do alto que nos veio visitar. A reluzente lâmina da morte não apaga os finados, apenas os igualiza diante das leis da natureza.

A foice simboliza os ciclos das colheitas e da renovação. A colheita só se obtém cortando o caule, que, como um cordão umbilical, liga o fruto à dependência da terra alimentadora. A colheita é o grão condenado à morte para servir de alimento, sustentando a vida, ou para germinar como semente. Os mortos não se apagam. Sobretudo quando, durante a vida, cortaram com a foice da consciência as ilusões do mundo e seus próprios egoísmos. Seus exemplos os fazem brilhar, na lembrança dos que amaram e os amaram. A claridade de seus exemplos brilha como estrelas e pode ajudar os vivos a atravessar períodos desfavoráveis, alimentando-os de sua luz. Neles, a luz trêmula da vela do batismo brilhou com toda a sua hesitação e beleza. Eles não viveram apagados, fizeram um trabalho de luz. Sua memória é um facho, um feixe de luz. Finados é dia de acender velas e de harmonia. A harmonia é um encontro de luzes vencendo as trevas e a escuridão.

No dia de finados é bom visitar os cemitérios, limpar e ajeitar os túmulos, acender uma vela na igreja ou em casa, pronunciar uma oração, fazer um minuto de silêncio, meditar… As crianças órfãs crescem com a memória viva de seus pais, mortos. Os adultos, com o passar dos anos, do tempo, vão colecionando os seus mortos. A partir de certa idade, todos passam a ter seus mortos. Na velhice, todos se tornam órfãos. A ritualização da lembrança dos mortos é terapêutica. Os mortos são a presença de uma ausência e não ausência de uma presença. A prática desses ritos profanos e sagrados dão uma outra perspectiva ao tempo. Existe um tempo para tudo.

Os mortos no seio da Igreja saem da comunidade eclesial e entram na comunidade celestial. Saem de nossas mãos para serem acolhidos pelas mãos misericordiosas do Pai e dos santos de Deus. Estão entregues em melhores mãos. São acolhidos e levados pelos anjos ao paraíso, de onde o homem havia sido expulso um dia, por esses mesmos anjos, mas onde agora retorna graças ao Cristo Salvador. Na morte e no sepultamento o cristão compartilha a páscoa do Cristo. Ao velar e enterrar seus mortos, os cristãos revivem a sexta feira e o sábado santo enquanto aguardam, com esperança, a glória do domingo da ressurreição.

Existe uma distância enorme entre nossa vida humana e nossa condição de filhos de Deus. Morremos como seres pecadores, mas na esperança de receber o perdão definitivo pelo amor do Pai. Por isso a Igreja reza, encomenda e intercede pela alma dos seus defuntos. Ao celebrar os finados, Ela também anuncia a todos a vida eterna, sua fé na ressurreição e na misericórdia infinita de Deus. Os ritos cristãos das exéquias, o respeito pelos cemitérios e seus símbolos ilustram a veneração dos cristãos pelo corpo, como expressão de sua esperança na ressurreição. Nisso os funerais cristãos são muito diferentes dos ritos profanos ou pagãos.

A sabedoria popular afirma o óbvio: uma das únicas certezas absolutas de nossa vida é a de morrermos. Só não morre quem não nasceu. Mas para o cristão, a eternidade começa aqui e agora, desabrocha na terna idade, através do batismo. Nossa vida não é uma antesala da morte. O passar dos anos anuncia o prometido a todos e para sempre: a evolução pessoal a cada ano novo, o reinício perpétuo, a morte e o renascimento nesta vida, sob a ação da Graça de Deus. Isso pode realizar-se em cada um, em nossos familiares e amigos. Para aquele que crê, o tempo pode ser um tempo de salvação, um tempo da Graça (kairós). Nele, Deus age para salvar os homens. Não se trata mais de viver somente a inevitável passagem do tempo (chronos), as idades e o envelhecimento. Em Deus nós podemos viver um tempo novo e em Cristo um tempo definitivo!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Feno de Luz. Jornal Todo Dia, Americana – SP, p. 03, 1996.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Feno de Luz. Jornal da Cidade, Holambra – SP, p. 02, 1996.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O Feno de Luz. Correio Popular, Campinas – SP, p. 03, 1998.

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