FEMINISTA FAMOSA VISITA CAMPINAS

(30/8/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

De três a seis de outubro de 2007 uma feminista famosa visitará Campinas. Centenas de livros já foram escritos sobre essa mulher. Desde a adolescência, ela foi um poço de desejos. Desejava ser professora e ensinar crianças. Queria ser enfermeira e cuidar dos que sofrem. Sonhava alistar-se no exército, partir para guerra e morrer em campo de batalha, defendendo seu país, como Joana d’Arc. Como se fosse pouco, desejou ser missionária, partir e morrer na África. Ainda sonhou viver numa casa de prostitutas, conhecer as dificuldades e ajudar todas as Madalenas. E desejou família, viver em prisões, amparar sentenciados à morte etc. Diante do infinito do desejo, tão absoluto nos jovens, a vida exigia uma opção. Cobrava uma escolha. Como pais, escola e sociedade cobram dos jovens: você vai ser o quê? Sua decisão foi paradoxal: “Eu decidi ser tudo!” Tornou-se monja contemplativa e entrou num convento.

Esse gosto do paradoxo a levará a afirmar “Viver de Amor é abolir qualquer temor”. Conhecida de muita gente, mas reconhecida por poucos, quem chega à nossa cidade é também uma doutora da Igreja: Santa Teresinha do Menino Jesus. Aquela da cantiga infantil, que de uma queda foi ao chão e a quem “acudiu” três cavalheiros, chapéu na mão. Onde está a feminista? Basta “acudir” um pouco à curta existência dessa santinha através de seus escritos, peças de teatro, poesias, pinturas ou à opinião de pessoas que podem ser acusadas de tudo, menos de serem religiosas.

Catherine Baker, do movimento feminista na França, jornalista do Libération é atéia, fundadora das Edições das Mulheres, vive com outra mulher e, paradoxalmente, escreveu um livro sobre religiosas contemplativas. Para Baker, as monjas, mulheres entre elas, escolheram sair do jogo, contestá-lo. São rebeldes, insubmissas. A busca espiritual das monjas contemplativas não coincide inteiramente com a do movimento feminista. Mas após entrevistar centenas de monjas, em setenta monastérios, Baker encontrou muita identidade, um no man’s land entre mulheres que renunciaram ao mundo e as que não querem saber deste mundo.

Comunidades femininas religiosas, desde o começo do Cristianismo- como mais tarde as bruxas – foram a perene afirmação da luta das mulheres por uma outra palavra, com todos percalços que isso pode representar. As verdadeiras tradições religiosas possuem a opção da vida monástica: o sufismo no Islã; os monges no Budismo etc., mas para homens. Só os protestantes não possuem nada significativo, nem para homens ou mulheres. Mas uma profusão de monastérios femininos sempre floresceu e perfumou a Igreja católica.

Apesar das conquistas femininas, a linguagem dominante ainda é a dos homens. A mulher sempre teve que aceitar regras masculinas para não ficar fora do jogo. Mas as religiosas contemplativas escolheram outra regra. Uma palavra diferente da dos homens machos. Quem conhece a espiritualidade carmelita sabe o quanto essas “mulheres entre elas” estão longe da imagem de um feminino alienado, sem voz, que teria renunciado ao corpo e à identidade para viver uma ausência de autonomia econômica e política. O que é loucura aos olhos dos homens, é sabedoria aos olhos de Deus, diz S. Paulo.

Para ajudar a conhecer a vida de Santa Teresinha foi lançada uma home page com muitas informações, fotos, artigos, estudos, devoções, além da programação da visita das relíquias a Campinas. Reportagens sobre a visita já foram publicadas no Correio Popular de 29 de julho e 28 de Setembro. A visita da santa vai mobilizar multidões, na cidade e região. Razões e oportunidades para conhecê-la melhor não faltarão. Teresinha é tão querida dos brasileiros a ponto de ser a santa com mais igrejas no país. Só perde para Nossa Senhora, hors concours nessa e em muitas matérias. Teresinha é também o nome de muitas mulheres. Agora as homônimas da santa poderão saber melhor porque foram assim chamadas. Ela não nos visita em carne e osso, mas através da materialidade de suas relíquias. Muitos terão a graça de meditar em silêncio junto à moça cuja vida foi afirmar que Deus não nos ama porque somos bons, mas para que nos tornemos bons.

 

Publicado em: MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Feminista famosa visita Campinas. A Notícia É, Orlândia – SP, p. 2, 1998.

 

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