FECUNDIDADE E UTILIDADE

(27/04/2009)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Jesus foi essencialmente fiel ao que ele deveria ser. Homem de grande espiritualidade, Marcel Legaut dizia que Jesus é aquele que, quando acolhido em nossas vidas, nos faz descobrir progressivamente, através de nossas exigências íntimas e interiores, um caminho que é verdadeiramente um caminho de fecundidade. Esse caminho não pode ser confundido com o da utilidade e muito menos com o do utilitarismo, tão freqüente em propostas de espiritualidade engajada.

A diferença entre fecundidade e utilidade é importantíssima, em dias que a Igreja vive fortes pressões utilitaristas. Ela é também essencial para a realidade dos idosos, dos deficientes e dos pobres. Alguém pode ser totalmente inútil e fecundo. Foi assim com Charles de Foucault, é assim com as irmãs carmelitas do Carmelo de Santa Teresinha em Barão Geraldo e com grandes vidas espirituais.

A grande ideia de Charles de Foucault, por exemplo, era a de fundar uma congregação. Ele chegou até a construir células para monges que nunca vieram. Ora, ele foi fecundo, mesmo se parte dessa fecundidade ele perdeu ao tentar ser útil à França como oficial do exército. Charles de Foucault começou com uma vida brilhante, mundana, depois se tornou trapista e partiu para Tamanrasset no deserto do Saara, onde morreu assassinado.

A fecundidade não é consequência da utilidade, mas da fidelidade de cada um para encontrar sua via, pouco a pouco, mesmo se isso possa dar aos outros, e a si mesmo, a aparência de um ser instável. Foucault foi fiel em cada instante em sua busca, pois a fidelidade não corresponde sempre a estabilidade. Ninguém entre nós pode dizer ao outro o que ele deve fazer. O essencial, para cada um, é de encontrar o sentido de sua via, a partir de uma vida que, em si, pode não ter sentido.

Na chegada da velhice, todos são acuados pelas limitações e diminuições que nos despojam progressivamente de todas as facilidades. Esses recursos corporais, mentais e espirituais nos haviam ajudado a ser fiéis à tomada de consciência em profundidade da linha fundamental do que nós vivêramos até o presente, declinam. Mas o vivido fica mesmo se nossa vida é radicalmente inútil, mesmo se nós somos um peso para os que estão em volta de nós, obrigados a nos apoiar, cuidar e tratar na velhice.

Jean Vanier, criador do movimento da Arca, interrogado sobre sua vida de idoso, declarou: “Agora que sou mais lento e me canso mais fácil, eu tenho mais tempo para parar, olhar e me alegrar da beleza da criação… Eu descubro cada vez mais que os que são pobres e vulneráveis são a presença de Deus. Eles me transformam. Agora, que me torno fraco, eu descubro no mais profundo de mim mesmo o quanto eu sou precioso para Deus. Não pelo que eu faço ou fiz, mas pelo que eu sou: um filho de Deus.”

 

 

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