FALAR AO CORAÇÃO


(4/2/2006)

Evaristo E. de Miranda

Em todo o texto bíblico não há nenhuma menção as borboletas e mariposas. E olha que não faltam borboletas na Terra Santa. Porque nunca inspiraram profetas, salmistas e escribas com sua graça e beleza? Talvez devido à prática da meditação. A palavra hebraica para meditar significa textualmente: falar ao coração. Quem medita abandona as alturas pensantes e falantes da cabeça e desce ao silêncio do coração. Meditar, na tradição judaica e cristã, eqüivale a falar ao coração. Para Santo Inácio de Antioquia, se não pudermos compreender o silêncio de Cristo, nunca poderemos compreender as suas palavras.

Não é fácil silenciar. O jejum das palavras é bem mais difícil que o das calorias. Silenciar implica numa busca da interioridade. Quando cala-se a boca, falam os pensamentos. A mente não pára de falar e atrapalha a meditação. A tradição monástica da Igreja começou no século IV com os chamados padres do deserto. Naquele tempo, quem queria meditar, aproximar-se de Deus e viver uma dimensão mística não ia para a Índia ou ao Tibete. Os buscadores iam para o deserto do alto Egito. Um dos fundadores desse movimento monástico foi Santo Antão, um Padre do Deserto, um pai dos mosteiros cristãos.

Esses monges ficavam impressionados como a mente continuava perturbando aqueles que desejavam silenciar todo o seu ser, para entrar em contato com o divino. Para superar essas dificuldades, inventaram várias técnicas de postura corporal e de atitude mental: as fórmulas. A fórmula era como um mantra, uma palavra que era repetida lentamente, de forma ininterrupta, até chegar-se à pobreza de espírito, tão necessária para quem deseja descansar em Deus e atingir os céus.

A mística ébria de Deus, São Teresa de Jesus dizia: Pensar que entraremos nos céus sem entrar em nós mesmo… é desatino. Essa mestra da meditação, comparava o papel perturbador da memória e da imaginação para quem está meditando, às mariposas noturnas, inofensivas mas inoportunas: Como o intelecto (imaginação) em nada ajuda a memória, esta não pára em nada, andando de um lado para o outro, assemelhando-se a essas mariposinhas noturnas, importunas e irrequietas. Essa comparação me parece extremamente adequada, porque, ainda que não possam fazer mal, essas mariposinhas incomodam (Livro da Vida, cap. 17). Estaria aí, uma das explicações para a ausência das borboletas e mariposas do texto bíblico?

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Falar ao coração. A Tribuna, Campinas – SP, v. 97, p. 11, 2006.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Infanticídio Materno. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 7, p. 5, 2006.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Falar ao coração. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 7, p. 2, 2006.

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