EXPERIÊNCIA PESSOAL DE DEUS


(19/9/1994)

Evaristo Eduardo de Miranda

O amor não se cansa, nem cansa.

S. João da Cruz

Os físicos, cujos modelos teóricos alimentam tantas ciências, são perscrutadores do universo e do infinito. Nenhuma ciência envolve um escopo tão amplo: desde o infinitamente grande – dimensionam a idade, o volume, a composição e a massa do Universo – ao infinitamente pequeno – desmontam as partículas sub-atômicas. Como Einstein, Prigogine ou Fritjo Capra, eles se interrogam sobre os mistérios das origens, razões e finalidades do Universo.

E Deus, existe? Alguns consideram como pertinente a ideia de Deus, enquanto a maioria considera essa preocupação inútil e desnecessária. Outros ainda, baseados nos últimos desenvolvimentos da própria física, acreditam poder provar a necessária existência de Deus! Essas possíveis provas da existência de Deus são importantes para algumas pessoas. Interrogadas sobre se acreditam ou não em Deus, muitas respondem invariavelmente por raciocínios ligados as evidências de sua possível existência.

Felizmente, a imensa maioria dos crentes não crê porque viram ou porque tiveram provas científicas. Não precisaram tocar em Deus como Tomé. Pelo contrário. Foram tocados por Deus, de forma pessoal e inesquecível. Um dia na infância, certa vez na adolescência, ou ainda em alguma ou em múltiplas passagens na vida, Deus os tocou. Esse chamado sutil e suave, penetrando a alma inteira, deixa uma marca indelével. Esse chamado pessoal é intransferível, tenha ou não resposta.

Por isso, o essencial da mensagem da Igreja é anunciar a todos os homens a possibilidade de viver uma experiência pessoal de Deus. Nesse encontro pessoal com Deus, a Igreja representa para o cristão um lugar privilegiado de vivência. Ela permite, pelos sacramentos, um misterioso e profundo contato com a Graça de Deus. Se a experiência de Deus pode levar a um engajamento público, o contrário está longe de ser verdadeiro. A dimensão religiosa se estabelece muito além de qualquer comportamento ético, político ou moral.

A experiência de Deus nasce da vida, brota da vida. No Brasil de hoje, não se pode aceitar a corrupção, a ignorância, a marginalização, a injustiça e a morte. A experiência pessoal de Deus leva obrigatoriamente ao amor, mas ultrapassa todo o amor. Leva à humanidade, mas ultrapassa toda humanidade. Leva à política, mas ultrapassa toda a política. Leva à ética, mas ultrapassa toda ética. Leva à religião, mas ultrapassa toda religião.

Tocados pelo amor de Deus nos posicionamos sobre a situação de nossos irmãos, sobre as estruturas sociais, entendidas até‚ como a cristalização histórica de relações de força ou de classe em torno da apropriação da produção e riqueza. Mas, posicionar-se sobre a situação do Brasil não leva obrigatoriamente a uma experiência de Deus. Existem infinitos mecanismos para as pessoas se conscientizarem e se posicionarem diante do quadro econômico, sociopolítico do país, sobretudo sindicais e partidários. Eles não levam a descobrir e a viver a fé em Jesus Cristo Ressuscitado. Bem aventurados os que se aventuram, assumindo plenamente sua natureza humana e fazendo a experiência de Deus na vida.

Ao contrário, o engajamento político e social levou muitos a perderem a fé nos anos 60/70. Já os que pelo engajamento político chegaram a uma experiência de Deus são um epifenômeno. A Igreja pode ser mais um mecanismo de conscientização política, ética e social, mais um com todos. A mística que move o cristão deveria mirar muito além desses fatos e situações presentes. A fé encarnada na história não pode ser prisioneira da mesma. Ao lavar nossos pés, Jesus reconheceu o divino que está em nós. E nós o reconhecemos?

A experiência de Deus se vive na comunidade e na sociedade, mas também de forma profundamente pessoal. O amor de Deus deve ser provado. Deus não repete ninguém. Cada ser humano é irrepetível. Tem um nome. Esse nome é o primeiro presente que se ganha ao nascer.

Os caminhos da fé levam muitos a retirar-se. Às vezes, saber retirar-se é mais difícil que estar presente. Na fogueira das vaidades políticas, deixar crescer seus discípulos, amigos, filhos ou rebanho, significa saber retirar-se. Como São José o fez. Ele é o paradigma do pai que soube retirar-se face ao crescimento do filho. Não negou, mas assegurou o seu espaço individual e social. Às vezes ocupamos todos os espaços. Além do de Deus em nossas vidas, tentamos ocupar um lugar na vida dos outros. Acreditamos no absoluto da superioridade de nossa análise política e sociológica. Haja onipotência.

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