EUTANÁSIA E BOA MORTE


(14/10/2013)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os católicos não aceitam a eutanásia, mas não apoiam a chamada obstinação terapêutica. Para a Igreja é essencial distinguir entre a eutanásia e a interrupção de tratamentos médicos e intensivos desproporcionais, para prolongar artificialmente a vida do paciente. O essencial é não abandonar os cuidados para atender o conforto e as necessidades do doente terminal: higiene, alimentação, hidratação, alívio de sofrimentos, contato humano, afeto e apoio psicológico e espiritual.

Estar conectado a uma máquina, sob cuidados intensivos, é justificado quando serve para o doente sobreviver a um grave problema de saúde, auxiliado temporariamente em alguma função vital deficiente. A utilidade desse artifício é discutível se seu único objetivo for o de prolongar a vida de um doente em fase terminal. Os católicos questionam a validade desse recurso, são contra a obstinação terapêutica e pela interrupção de tratamentos desproporcionais, sem diminuição dos cuidados necessários para diminuir o sofrimento.

Defensores da eutanásia argumentam que ela é um direito para morrer-se com dignidade. Para os católicos, a dignidade é o estatuto incondicional do ser humano. Cada pessoa tem dignidade porque é única e insubstituível. Todo ser humano é digno, independentemente de sua condição: jovem ou idoso, deficiente ou não, consciente ou inconsciente, doente ou saudável. Morrer com dignidade implica em ser respeitado e não submetido à eutanásia.

Os católicos tomam a própria morte em mãos, como parte de sua vida. Muita gente deseja morrer de forma inconsciente, sem saber. As pessoas não enfrentam a própria morte e preferem ser surpreendidos por ela. A morte é considerada mais como uma injustiça, um acidente, do que um processo natural do viver. Isso dificulta que as pessoas possam morrer em casa, cercados pelo afeto de seus amigos e pelo amor da família.

Pouco se sabe sobre os graus de inconsciência. Pessoas que voltam de um coma relatam que ouviam e compreendiam o que se passava ao redor, mas não conseguiam comunicar-se com o mundo exterior. Pouco se sabe sobre a vida interior de alguém aparentemente inconsciente, mas com funções vitais preservadas. Pouco se sabe sobre os últimos instantes da vida humana. Quem pode julgar esses últimos momentos como inúteis? Ninguém tem o direito de roubá-los de um paciente. Talvez sejam os momentos mais importantes de sua vida.

Defensores da eutanásia evocam os sofrimentos insuportáveis para determinados doentes. Tratamentos paliativos bem conduzidos aliviam a maioria desses sofrimentos. Isso pressupõe equipes formadas no tratamento da dor e dos sofrimentos para acompanhar o fim da vida, com esforços de imaginação, solidariedade e amor. Para os católicos, deve-se apoiar a formação dessas equipes médicas e paramédicas, e não a eutanásia. A solicitação da eutanásia de algum paciente pode ser um pedido de socorro. Não significa que queira morrer. O paciente pode estar confuso e o pedido vinculado a um sofrimento físico e a uma angústia que se pode minorar. O fim da vida é um tempo marcante da vida. Ninguém pode roubar esse momento íntimo e único de cada pessoa e se apropriar de sua morte.

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