EUCARISTIA SEM PÃO E SEM VINHO?


(17/5/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Aconteceu durante a última celebração de Finados em Campinas. O público presente no cemitério da Saudades superou as expectativas. No momento da eucaristia, o “pão” acabou, por mais que os ministrantes tivessem dividido as hóstias em frações. O povo aguardava a comunhão. Os ministros ficaram parados, sem saber muito o que fazer. Nesse momento, o bispo D. Guedes reuniu os aparentemente excluídos e ofereceu-lhes o cálice com o vinho. Em fila, todos participaram plenamente do banquete do Senhor, através do vinho “derramado”. O vinho da nova e eterna aliança. Para alguns, aquilo foi algo inédito, mesmo se com freqüência junto a enfermos graves e terminais, a participação eucarística se faça exclusivamente pelo vinho.

Esse episódio de Finados, presenciado por alguns, é emblemático no entendimento do significado espiritual da eucaristia. A benção, a sagração e santificação das ofertas, do pão e do vinho, cumprem um papel simbólico e real de lembrança e conexão efetiva com a última ceia de Jesus com seus discípulos, antes de sua páscoa. Isso é uma dimensão fundamental da eucaristia. Pão e vinho, elementos dessa ação de graças, tomam sua origem na ceia pascal judaica. Outros elementos da ceia judaica não foram incorporados ou mantidos definitivamente na eucaristia pelas primeiras igrejas cristãs da Palestina, Síria, Roma ou Ásia Menor, mesmo se em certas comunidades, perduraram provavelmente até o século II.

A Igreja e a tradição católica, com sabedoria e realismo, adaptaram o alcance universal da celebração às circunstâncias práticas e ao contexto local e cultural das igrejas particulares, principalmente diante da distribuição planetária dos católicos. O pão ázimo foi substituído por hóstias, ou mesmo por pão fermentado. No caso do vinho, muitos missionários em regiões remotas tiveram de adaptar-se. Em países onde não existem plantios de uva e nem sequer a cultura de beber bebidas alcoólicas e por conseqüência o vinho, como celebrar? Muitas vezes os missionários produziam uma bebida a partir da imersão de uvas passas num pouco de água, muito distante do vinho. O tema de celebrar com chá e um “pão” derivado do arroz foi objeto de reflexões impulsionadas pelos jesuítas, desde a expansão da comunidade cristã pela China e Extremo Oriente.

É óbvio: a Igreja celebra e deve celebrar com pão e vinho, sempre que possível. O fato de eliminar sistematicamente o vinho da participação eucarística dos fiéis, por exemplo, levou a distorções que o Concílio Vaticano II empenhou-se em superar. A participação eucarística deve ser sempre em duas espécies? É claro que não. A eucaristia não deve assumir reflexos de um ato de canibalismo sagrado. Um pouco como certas tribos onde guerreiros e inimigos mortos são devorados, como homenagem totêmica e como uma forma de “absorver” suas virtudes e qualidades.

A eucaristia não é um banquete totêmico. Jesus em carne e osso, com sangue correndo nas veias, não disse na última ceia: “Depois que eu morrer e ressuscitar, quando eu não estiver mais aqui, isto será o meu corpo e isto será o meu sangue.” Não. Ele disse: “Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue.” Naquele momento, em sua presença humana e corporal, pão e vinho já eram essa realidade sacramental.

Nesse tema, como em alguns outros, certas comunidades comportam-se como parte dos fariseus piedosos do tempo de Jesus. Ao buscar cumprir de forma estrita uma observância da Lei escrita e oral, terminavam por colocar em segundo plano os próprios fundamentos espirituais inspiradores daquela prescrição. A Palavra divina sucumbia à doutrina religiosa. A eucaristia está as vezes tão codificada mentalmente em alguns, que o seu sentido pascal – revivendo o que Jesus realizou na última ceia – pode naufragar na estreiteza de raciocínio, no absolutismo doutrinal e na falta de abertura ao extra-ordinário.

Alguns deixam-se capturar por uma imagem, por uma materialidade das ofertas consagradas, esquecendo o essencial. Por mais santificadas, essas imagens estão aquém da riqueza desse sacramento e de tudo que ele encerra. Alguns fazem disso um tipo de idolatria, ao construir e adorar uma imagem de Deus e de sua presença, ao invés de buscar o contato com a verdadeira realidade sacramental em comunhão com os irmãos e o mistério pascal.

Em uma de suas viagens à França, o papa João Paulo II deu um grande exemplo de sabedoria. Durante uma de suas celebrações, após a consagração, ele percebeu que não havia vinho no cálice! Coisas de missa papal! Impassível, ele levantou o cálice e fez o gesto de beber. Imagine-se o tumulto e o que aconteceria se ele voltasse para trás, solicitasse vinho, retomasse a celebração num ponto anterior etc. Essa foi a sábia atitude do papa! Mas pode haver alguém por aí, capaz de achar que o papa errou!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Eucaristia sem pão e sem vinho. A Tribuna, Campinas – SP, 2001.

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