ÉTICA OU RELIGIÃO?


(13/5/2003)

Evaristo Eduardo de Miranda

Em junho, a Igreja festeja o nascimento de São João Batista. Um dos raros santos, festejado no dia do seu nascimento e não de sua morte. Iohanan o Imersor, é um dos maiores defensores da ética em todo o texto bíblico. Já seu primo Jesus, é uma fantástica superação da ética e da moral.

O precursor do Cristo anunciava aos homens o castigo que estava para vir. “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (Lc 3,7) Promovia um batismo de penitência. Os homens deviam endireitar seus caminhos e refazer suas vidas! João via a chegada do Messias como um julgamento decisivo: “Já está posto o machado a raiz das árvores; toda a árvore que não produz bom fruto será lançada ao fogo” (Lc 3,9) ou “A sua pá ele a tem na mão para limpar completamente a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; porém queimará a palha em fogo inextinguível” (Lc 3,17). Ele sinalizava catástrofes eminentes, como forma de ajudar os homens a rever sua conduta, por medo do que lhes poderia acontecer. Essa pregação ética e moral mostrava a liberdade e a responsabilidade irredutíveis em cada um.

O que fazer? A resposta de João era simples: ninguém tenha mais do necessário. “Quem tiver duas túnicas, divida uma com o irmão que não tem (Lc 3,10)”. Aos publicanos, recomendava nada cobrar além do estipulado (Lc 3,12). Se não é possível por fim à desumanidade social, que ninguém a amplie para seu lucro e proveito. O mundo seria muito melhor, se os homens tivessem essa conduta ética: não maltratar ninguém. João não pede aos publicanos: deixem de cobrar impostos! Nem aos soldados: abandonem o uniforme! Diz apenas: limitem-se a uma conduta ética!

Em suas mensagens de conduta ética e moral, seitas pentecostais ensinam a seus fiéis como viver. Estabelecem leis e regras de conduta para as pessoas: desde não cortar os cabelos, ao comprimento da saia etc. João ensinava como se deve viver. Jesus anunciou do que se pode viver. Para Jesus não se tratava mais da problemática ética da vida, mas sim da sua dimensão religiosa. Um abismo de conversão e chamado separa essas duas mensagens. Para João, o homem pode redimir-se por seus atos (autorredenção). A parábola de Jesus sobre o credor impiedoso (Mt 18,23-35) mostra o contrário: todos devedores diante de Deus. A mensagem de Jesus, a verdadeira Redenção, não se acomoda com o otimismo ético de João.

Deus é muito mais do que justo e ético. Acompanha com incomparável paciência e longanimidade a história humana, sem novos dilúvios ou machados nas raízes. Palavra viva de perdão e bondade, na mão, Jesus não trouxe a pá para separar a palha, mas estendeu-a aberta num gesto de misericórdia (Mc 2,17), acima de lei, ética ou moral. Para Jesus, o princípio da moral parece se destruir dele mesmo. A concepção moral coloca o indivíduo a seu serviço. A transgressão exige justo castigo. Isso só gera injustiças pois limita-se ao comportamento exterior das pessoas. E ignora o entrelaçamento entre bem e mal, inventa uma repartição abstrata entre pretensos bons e maus, exige do indivíduo subordinação à lei geral, violenta sua complexa psicologia interior, gera neuroses e psicopatias. Deus nos quer inteiros. Nos ama como somos. “Jesus se compraz em apontar-me o único caminho (…) o abandono da criancinha que adormece sem temor nos braços de seu pai…” dizia Santa Teresinha.

Jesus une demanda e oferta até na oração: “Perdoa nossas dívidas assim como perdoamos nossos devedores” (Mt 6,12; Lc 11,4). Deus não deseja, nem exige sacrifícios. Ele quer que vivamos uma vida de felicidade, oração, capacidade de encontro, compreensão de todos, sem fundamentos em interesses de poder, dinheiro, egoísmos de indivíduos ou grupos. E, quanto a obediência, tão exigida em comportamentos éticos e morais, ficará para sempre a que Pedro aprendeu através do desastre da sexta-feira santa: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5,29).

Jesus deseja a alegria em volta de si e não a penitência, a mortificação ou a negação de si próprio. “Porque jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas os teus não jejuam? Respondeu Jesus: Podem porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles?” (Mc 2,18-19). João chegou a duvidar que se tratasse do Messias (Mt 11,1-19).

O parentesco e a proximidade de João e Jesus, que tiveram morte análoga, são de uma riqueza de ensinamentos nas semelhanças e diferenças. Eles foram necessários um ao outro. O Batista é a lei. O Cristo é o perdão e a bondade. João é a ética. Jesus é a religião. Jesus vem como médico para os doentes (Mc 2,7) e se preocupa mais da ovelha perdida do que das noventa e nove que não necessitam de conversão (Lc 15,7). A ética é sempre uma religião da lei, por melhor que ela seja. Talvez, o que os moralistas chamaram de mal nada mais é do que a realidade das coisas. Na Igreja católica, o povo de Deus não é chamado para ser escravo de regras e leis, por mais éticas e morais que pareçam, mas para viver a Vida plena da Verdadeira religião.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Ética ou Religião? A Tribuna, Campinas – SP, v. 94, p. 10 – 11, 2003.

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