ESTAR NO SEU NOME


(15/6/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Durante sua vida, muitas vezes Jesus disse aos seus discípulos: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, lá estarei no meio deles” (Mt 18,20). O que implica a expressão “em meu nome”? Basta fazer o sinal da cruz ou dizer “no nome de Jesus”, para que Ele esteja no meio de duas ou três pessoas? Não é verdade. Estar no nome de Jesus, não é algo para ser dito da boca para fora.

Estar no Seu nome tem um alcance espiritual preciso e profundo dentro da tradição judeo-cristã. Está no nome de Jesus, quem já caminhou bastante em sua estrada espiritual, como um verdadeiro discípulo. Não é o caso de quem somente freqüentou igrejas ou estudou doutrinas. Está no “Seu santo nome” aquele que, no caminho do Senhor, descobre, manifesta e amadurece a presença do seu Reino, numa compreensão inteligente de sua própria vida, em comunhão e solidariedade com os irmãos e a natureza. Quando dois ou três – com essa experiência de vida – se reúnem, Deus está no meio deles. Fazei isso em memória de mim! (Ex 12,14; 13,9; Dt 16,3 Lc 22,19).

No Pirkei Avot, Ética dos Pais, tratado da tradição judaica com o pensamento de sábios fariseus de antes e depois de Jesus, essa passagem evangélica tem uma explicitação. No capítulo 3, Mishná 3, Rabi Chananiá ben Teradion diz: Quando dois homens sentam juntos ou reúnem-se e não há entre eles palavras da Torá, eis uma reunião de frívolos, pois foi dito: “Bem aventurado o homem que não se assenta numa roda de frívolos” (Sl 1,1). Mas quando dois homens sentam juntos e pronunciam palavras da Torá, a Providência Divina (Shechiná) pousa entre eles, pois foi dito: “Então os que temem ao Eterno falavam uns aos outros e o Eterno atentava e ouvia, e havia um memorial escrito diante d´Ele para os que temem o Eterno e honrem o Seu Nome” (Ml 3,16). Isso no caso de dois, porém de onde podemos concluir que, mesmo quando um só estiver sentado ocupando-se com a Torá, terá também recompensa do Santíssimo, bendito seja (Ex 20,24). Do versículo: “Embora sente sozinho e medite em silêncio, ele receberá recompensa” (Lm 3,28).

Rabi Chanania ben Teradion viveu durante as perseguições do imperador Adriano, após a morte de Bar Kochbá, em 135 d.C., quando Roma proibiu o estudo da Torá sob pena de morte. Ele tinha uma academia, ieshivá, em Sichnin. Ao longo dos anos, cresceu em importância e em autoridade. Lá arrecadou e distribuiu escrupulosamente dinheiro para fins de caridade (tzedaká). Doava integralmente todo o arrecadado aos pobres. “Ninguém” – disse Rabi Elazar ben Yaacov posteriormente – “contribuiria para caridade se seu administrador não fosse alguém como Rabi Chanania ben Teradion”.

Segundo a tradição judaica, ele e esposa foram sentenciados à morte e sua filha condenada à escravidão. Envolveram-no em um rolo da Torá e atearam fogo a ambos. Foi quando disse suas imortais palavras, em meio à sua dor horrível: “Vejo arder o pergaminho (do rolo da Torá), mas todas as letras ascendem ao céu!”

Nestes dias, durante os congressos eucarísticos, milhares de cristãos revivem as palavras de Jesus e dão graças, reunidos em Seu nome. Ao retornar aos seus estados e cidades, paróquias e comunidades de base, movimentos e pastorais, cultivam melhor a qualidade dessa comunhão espiritual: como fermento, dois ou três, perdidos na massa, em trabalho de aprofundamento pessoal. Os cristãos não devem somente reunir-se, levados por solidariedade diante do mesmo destino ou dos desafios na defesa da vida humana e da natureza, mas também para unir-se em Seu nome, em torno de Sua lembrança.

Eucaristia não é um rito mágico que precipita Jesus sobre a Terra. Não se trata de uma presença que se possa ter à mão, manter à nossa disposição numa caixinha ou colocar no bolso. Se fosse assim, nós a reduziríamos a um ídolo. A presença real não é presença local, fisicamente acessível, mas sacramental. Como dizia São Tomás de Aquino, a comunhão é um encontro entre duas presenças e uma abertura para toda a humanidade. É em comunhão, uns com os outros e com a natureza, que nós comungamos com Ele. Participar da eucaristia é aceitar as exigências evangélicas, sentir-se responsável pela construção de um mundo de irmãos, preservando a Vida e toda a Criação.

Eu estarei no meio de vocês! Por essa promessa, inscrita na tradição judaica, Jesus assegurou a seus discípulos, que fazendo isso em sua memória, eles reencontrariam o contato com o Absoluto e renovariam sua fé. Esse contato direto e íntimo, eles haviam conhecido junto de Jesus. Naquelas horas benditas em que Ele estava, não somente diante deles, mas neles. Quando a Sua palavra, diretamente saída dele mesmo, os penetrava, transformava, preenchia e fazia ser. A tradição, na Igreja católica, significa: atualizar no presente o que recebemos no passado. Além de seus primeiros discípulos, o mesmo chamado e a mesma promessa de Jesus dirige-se a todos aqueles que os sucederam na fé.

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