ESPORTE NACIONAL


(25/4/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

A morte e a sucessão de João Paulo II mobilizou a opinião de jornalistas e formadores de opinião ateus, gnósticos, judeus e protestantes. Todos deram seu ponto de vista sobre quem foi esse Papa, como deveria ser o seu sucessor, o seu programa de governo, quase sempre criticando a Igreja nos mais diversos aspectos, desde os teológico e espirituais até os mais profanos. Apesar de declararem ou esconderem sua ignorância em matéria eclesial, nada os impediu de falar, escrever e associar seu pensamento aos destinos da Igreja. Os católicos ficaram felizes tanta sugestão, crítica e opinião, vinda de quem vive em outras searas, em outro mundo. Mas existem paradoxos nesse caso.

O primeiro: uma parte desses colaboradores externos da Igreja católica não admite que ela opine sobre assuntos e matérias que julgam competência exclusiva do Estado como casamento, controle de natalidade, aborto, pesquisa com embriões, eutanásia etc. Eles evocam a república laica (e não democrática). E manifestam críticas, sistemáticas e vigorosas, a qualquer posicionamento discordante dos seus nessas matérias por parte da Igreja.

O segundo: a unilateralidade do politicamente correto. Quem hoje ousa escrever criticando os costumes dos índios? Boa parte das mães das crianças indígenas, que morrem de inanição e enfermidades no Mato Grosso, foi estuprada. Quem aborda na mídia o tema do estupro em comunidades indígenas? Algumas minorias exigem um respeito obsessivo de seus direitos, situando-se acima de qualquer possibilidade de crítica. E são objeto de cega admiração em boa parte da mídia. A exaltação e a exposição sistemática do homossexualismo nos meios de comunicação, principalmente nas novelas, é um exemplo. No campo religioso é inimaginável qualquer crítica aos fundamentos ou às práticas do judaísmo, sob pena de acusação de antissemitismo. O mesmo ocorre com a umbanda e o candomblé. Uma crítica aos seus rituais e sacrifícios, por exemplo, poderia ser tratada como racismo em relação aos afrodescendentes etc. E assim por diante.

Para a Igreja católica, essa mesma regra parece não valer. Criticar e “bater” na Igreja tornou-se um verdadeiro “esporte nacional”. A mídia, salvo honrosas exceções, em versões simplistas e dogmáticas, critica tudo e todos na Igreja: doutrina, organização, moral, espiritualidade, ética religiosa, ações pastorais, movimentos leigos, celibato do clero, iniciativas de evangelização, hierarquia etc. Se uma parcela dessa crítica fosse aplicada a outras minorias religiosas ou sociais, causaria uma grande revolta. É algo impensável, politicamente incorreto. No caso da Igreja católica não é. Pelo contrário, parece até politicamente correto, critica-la de forma sistemática e desmedida. Falar mal da Igreja “pega bem”, como me disse um editorialista.

Um exemplo emblemático foi a eleição do novo Papa. Os não católicos formularam um programa, o programa ideal de governo do futuro Papa, para o bem da Igreja e do planeta. Com a designação do cardeal Josef Ratzinger, imediatamente foram e seguem traçados cenários sombrios para a Igreja. Na missa de coroação, Bento XVI disse: “Queridos amigos. Neste momento não necessito apresentar um programa de governo. (…) Meu verdadeiro programa de governo é não fazer minha vontade, não seguir minhas próprias idéias, mas de me colocar, junto a toda a Igreja, à escuta da palavra e da vontade do Senhor e me deixar dirigir por Ele”. E não pelo mundo.

A primeira das bem-aventuranças anunciadas por Jesus também é um paradoxo: felizes os infelizes (Mt 5,3-11). É uma beatitude de compaixão. O cristão não age para reconciliar-se com o mundo, mas para por o reino dos céus neste mundo. O discípulo em marcha não é consolado por esse mundo, mas pela inteligência do reino de Deus. A Igreja não existe para nos distrair ou ajustar ao mundo, como faz às vezes a psicologia, mas para nos subtrair. O verdadeiro cristão faz o luto do mundo e se abre a inteligência do reino dos céus. Caminhar para o reino de Deus é inventá-lo, acolhendo as críticas justas e injustas. Somos todos irmãos. O ecumenismo é um chamado para viver-se sob o mesmo teto, na mesma casa (oikos). É nossa liberdade e nossa responsabilidade. Aí está o cerne do mistério pascal do cristianismo: quando o coração chora o que perdeu, o espírito já sorri do que encontrou.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Esporte nacional. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 6, p. 1, 2005.

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