ESPERANÇA NA RESSURREIÇÃO


(27/8/2008)

Evaristo Eduardo de Miranda

A esperança é a última que morre, segundo a voz do povo. E o povo tem toda razão. Hoje, você veio ao cemitério para relembrar seus familiares e amigos falecidos. O sentimento dos cristãos, ao visitar os túmulos e participar das missas e orações, não é somente de saudades mas de esperança. A esperança é a de nos encontrarmos um dia, na casa do Pai. A esperança da ressurreição nos traz aqui. E ela segue conosco, o tempo todo. Essa esperança nunca morre.

Jesus Cristo nos antecedeu na morte e na ressurreição. A esperança da ressurreição nos leva, ainda mais, ao encontro e ao respeito dos outros homens e de suas existências. A separação pela morte é passageira, não será definitiva: se vivermos no amor, um dia nos encontraremos todos, no seio amoroso de Deus. Jesus Cristo é a nossa esperança, diz Paulo na sua carta aos Colossenses (Col 1,27). Por isso, as missas e orações nos cemitérios nos Finados são celebrações da esperança e não das saudades ou dos mortos. Nóas cremos na vida eterna.

A tradição cristã dá muito valor a três virtudes que nos vêm de Deus: a fé, a esperança e a caridade. A esperança é a segunda virtude teologal. O seu símbolo é uma âncora. Desde os primeiros séculos, os cristãos desenhavam e esculpiam âncoras nos túmulos, manifestando sua esperança na ressurreição do falecido. Os cristãos assimilavam a forma da cruz com a da âncora, como uma espécie de cruz invertida.

A âncora evoca essa pesada massa de ferro, capaz de reter o barco diante das inconstâncias do mar e da deriva. Essa é a função da esperança em nossa vida. Símbolo de firmeza, a âncora evoca a solidez, a segurança, a tranqüilidade e a fidelidade. No meio da mobilidade do mar, a âncora é estável, imóvel, fixa e constante. A âncora lembra, em cada um de nós, a capacidade de manter a calma, a lucidez e a firmeza diante de turbilhões dos sentimentos e atos da vida. A correnteza e as marés não arrastam os barcos quando estão bem ancorados. O mesmo ocorre com quem tem esperança.

A última garantia dos marinheiros nas tempestades é a âncora e, por isso, ela está associada fortemente com a esperança. Sobre a esperança cristã, diz a Bíblia: “Esta é, para nós, como âncora da alma, fixada com muita firmeza, que penetra para além do véu, ali onde Jesus entrou como precursor em nosso lugar…” (Hb 6, 19-20).bAo ancorarmos nossa alma em Jesus Cristo, evitamos o naufrágio espiritual e nos preparamos para o encontro com o próprio Deus, na hora de nossa hora, na ressurreição dos justos, para “além do véu”.

“Minha âncora e minha cruz”, diziam os místicos cristãos. Não desejamos e nem devemos nos abandonar às correntezas da natureza e do mundo, pois nos fixamos na fonte de toda graça que é Jesus Cristo.

Quando o moribundo dá seu último suspiro, para os cristãos, ele acabou de nascer. Começou a nascer no batismo e agora completa o seu nascimento. É o verdadeiro dia do nascimento, o vere dies natalis, tão evocado pela Igreja ao longo dos séculos. Pela morte, o cristão entra na Vida em Plenitude. Nisso se ancora a nossa esperança. Esse nascimento cósmico está associado à idéia da morte como um segundo parto, banhado de esperança. Como dizia o padre Antonio Vieira, “a mais fiel de todas as companheiras da alma é a esperança”.

No princípio do Cristianismo, os pagãos designavam os cristãos como “aqueles que não temem a morte”. A esperança da ressurreição nos mantém em comunhão entre irmãos, no seio da Igreja, mas também com os Santos e Santas de Deus que já deixaram esta vida. Somos uma congregação peregrina e não em desagregação. O mistério da morte e a esperança da ressurreição são um dos mais fortes cimentos de uma vida em comunidade, em Igreja. Uma Igreja feita de homens e mulheres, amorosos, esperançosos e não desesperados, em harmonia entre si. Alimentados no amor e pela esperança da vida eterna. Em qualquer lugar. Em qualquer hora. Em qualquer situação. E especialmente aqui, nos cemitérios, nas celebrações dos finados.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Esperança na ressurreição. A Tribuna, Campinas – SP, p. 13, 2008.

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