ENVOLVER OU DES-ENVOLVER?


(1/1/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

A palavra desenvolvimento foi tão usada pela economia e pela sociologia, que acabou contaminada. Entretanto, sua origem etimológica é evidente: desenvolver é o oposto de envolver. Quem se des-envolve, livra-se de envolvimentos e matrizes. O desenvolvimento da criança, do adolescente e da pessoa humana evoca esse processo, oposto às prisões psicológicas, aos rótulos esterilizantes e aos envolvimentos ilusórios.

Cada indivíduo – normal ou deficiente – deve buscar o seu verdadeiro lugar na vida, rompendo com os envolvimentos, que limitam e confundem. Esse é um dos significados do chamado religioso: ir além das aparências, ir além dos limites estabelecidos pelos outros, acolher a diferença e recusar a rejeição e a alienação. Esse sentido da acolhida ao outro, que deve ser amado como a nós mesmos, é a mensagem central do Cristianismo. Aceitar e acolher o outro, numa perspectiva de crescimento e liberdade.

Isso é particularmente importante para os portadores da Síndrome de Down (SD) e deveria orientar seus familiares. Para libertar-se do primeiro envelope, o ventre materno, as forças naturais bastam. Mas para livrar-se dos envelopes verbais, psicológicos e imaginários, tecidos pelos pais, familiares e sociedade, as forças sobrenaturais – simbólicas, espirituais e religiosas- são necessárias. Infelizmente, algumas perspectivas religiosas, aparentemente consoladoras para os pais, podem tornar-se razão de acomodação, justificativa e até de culpabilização do próprio portador da SD por sua condição, barrando as perspectivas de seu desenvolvimento pessoal.

Ao longo de toda a Bíblia, o chamado religioso é sempre uma proposta à diferenciação pessoal. Deus nunca impõe, Ele propõe. Os indivíduos são convidados pelo divino a descobrir sua identidade pessoal, única e intransferível, a serem sujeitos do seu próprio ser. No Cristianismo, em particular, a relação com Deus é nominal e absolutamente pessoal. Um mesmo chamado divino percorre a Bíblia do princípio ao fim: descubra, reconheça e preserve sua identidade profunda. Entre na posse plena do seu ser, do seu Eu. O Reino de Deus está em nós! Rompa com os envolvimentos e envelopes esterilizantes! Ninguém vem ao mundo para pagar dívidas, nem para realizar os projetos alheios por mais legítimos que sejam, mas para ter vida plena!

O primeiro envelope a romper é sempre o do ventre materno. Essencial e necessário por nove meses, esse envelope material se torna prisão e limite, no final da gravidez. O desenvolvimento progressivo do embrião, do feto e do bebe levam-no ao abandono do envelope e ao nascimento. No tempo certo, mas de forma inevitável, a criança – normal ou excepcional – nasce, rompendo a matriz uterina. Esse processo inclusive, segundo as teorias de S. Grof sobre as matrizes perinatais, não é sem consequências sobre a psique e o destino do recém-nascido. Mas, ao sair-se de um envelope, entra-se em outro: do corpo da mãe passa-se ao organismo familiar.

Só esse fantástico e misterioso passo do nascimento já deveria bastar para o reconhecimento, por parte dos pais, do quanto a criança pertence a si mesma, ao milagre da Vida e não a eles. Mas estes se apegam aos filhos como propriedades, lhes desenham nome, futuro e destino, antes mesmo de seus nascimentos.

O primogênito, em hebraico é textualmente chamado de rompedor de matriz. Ele pertencia a Deus. “Javé falou a Moisés: Consagre a mim todos os primogênitos, todo aquele que por primeiro sai do útero materno entre os filhos de Israel, tanto dos homens como dos animais: ele pertencerá a mim” (Ex 13,1-2) e ainda “você reservará para Javé todos os primogênitos do útero materno; e a Javé pertencerá todo primogênito de sexo masculino, também dos animais que você possuir.” (Ex 13,12).

Se a criança não fosse deixada ao serviço de Deus no templo, devia ser resgatada pelos pais, através de um sacrifício. “Os primogênitos humanos, porém, você os resgatará sempre. Amanhã quando seu filho lhe perguntar: Que significa isso? Você lhe responderá: Com a mão forte Javé nos tirou do Egito, da casa da servidão. O faraó se obstinou e não queria deixar-nos partir; por isso, Javé matou todos os primogênitos do Egito, desde o primogênito do homem até o primogênito dos animais. É por isso que eu sacrifico a Javé todo primogênito macho dos animais e resgato todo primogênito de meus filhos (Ex 13,13-14).

Nesses rituais ricos de simbolismos, presentes em muitas culturas, os filhos machos são circuncizados. Na cerimônia da circun-cisão, um anel de carne é retirado do prepúcio do pênis. Eis que o sexo sai também do envelope que o envolvia. Simbolicamente o prepúcio tem um caráter feminino; dentro dele o pênis se move.

Presente em muitas outras culturas, além do judaísmo e do islamismo, a prática da circuncisão torna alegoricamente o homem-mulher em homem. Torna-o carente de um anel feminino. Esse pênis agora descoberto poderá ser recoberto pela mulher, pelo feminino que lhe falta. Deus escolhe para marcar o homem seu sexo, seu lugar de união íntima com a mulher. Trata-se realmente de uma cisão e não somente de uma marca. Essa cisão é diferenciadora sexual (diferenciação terciária) e paradigmática da união sexual com a mulher, e não de uma circun-separação. Essa cisão cria a marca da união, a busca da aliança, desse anel símbolo do casamento.

A Jesus correspondia plenamente a lei judaica: era macho e primogênito de Maria e José. Pertencia a Deus e seus pais têm que re-comprá-lo, resgatá-lo no Templo. Lá, o velho Simeão o toma nos braços, louva a Deus, maravilha o pai e a mãe de Jesus com suas palavras, mas diz a Maria: “Ele será um sinal de contradição. Quanto a você, uma espada há de atravessar-lhe a alma.” (Lc 2,27-33) Fora da tradição islâmica e judaica, os pais em geral não tem a oportunidade de refletir e agir simbolicamente sobre os filhos como algo que não lhes pertencem.

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