ENVELOPES


(4/9/1994)

Evaristo Eduardo de Miranda

A palavra desenvolvimento foi tão usada pela economia e pela sociologia que acabou contaminada. Entretanto sua origem etimológica é evidente: desenvolver é o oposto de envolver. Quem se des-envolve, livra-se de envolvimentos e matrizes. O desenvolvimento da criança, do adolescente e da pessoa humana evoca esse processo, oposto as prisões, aos envolvimentos ilusórios e esterilizantes. Cada indivíduo deve buscar o seu verdadeiro lugar na vida, rompendo com os envolvimentos que limitam e confundem. Para se libertar do primeiro envelope, o ventre materno, as forças naturais bastam. Para se livrar dos envelopes verbais e imaginários, tecidos em torno de nós pelos pais, familiares e sociedade, as forças sobrenaturais – simbólicas e espirituais – são necessárias.

Em nossa vida o primeiro envelope, o do ventre materno é essencial e necessário por nove meses. Mas esse envelope material no final da gravidez se torna prisão e limite. O desenvolvimento progressivo do embrião, do feto e do bebe levam ao abandono do envelope uterino e ao nascimento. No tempo certo, mas de forma inevitável, a criança nasce, rompendo a matriz ventral da mãe. As condições do parto não são sem conseqüências sobre a psique e o destino do recém-nascido. Ao sair de um envelope, entra-se em outro: o organismo familiar, uma nova matriz abdominal. Só o fantástico e misterioso passo do nascimento deveria ser suficiente para o reconhecimento, por parte dos pais, do quanto a criança pertence a si mesma, ao milagre da Vida e não a eles. Mas estes apegam-se aos filhos como propriedades, desenham-lhes nome, futuro e destino. Dificultam suas vidas.

Uma primeira marca ilusória de destino é dada pelos pais na escolha de um nome. Marca impositiva, consciente ou inconsciente, das vontades paternas, maternas e familiares, o nome e o sobrenome será objeto de orgulho, de recusa, de incômodo mas raramente de indiferença. Um dos primeiros re-conhecimentos do indivíduo será sua identificação com seu nome. Com o tempo esse envelope também poderá ser abandonado. Muitos assumem outros nomes ao longo de suas vidas.

Mais tarde, existe um dia – na juventude ou na idade adulta – em que filhos, netos ou irmãos deixam os familiares, abandonam os entes queridos, afastam-se das práticas religiosas e de seus valores, recusam o convívio e o afeto que sempre compartilharam. É como se a pessoa se tornasse cega, muda e surda ao mundo que sempre a envolveu. Ela passa a ouvir seu coração, seu sexo e sua espécie. O doloroso abandono do lar, familiares e amigos é vivido no conflito, na solidão, na ameaça e até na chantagem. Vive-se um incompreensível e absurdo esgarçamento do tecido familiar. As famílias vivenciam o momento de separação com dificuldade e lastimam a aparente perda de um ente querido como uma morte.

Como um estranho, desmemoriado, o jovem deixa a casa, vai viver fora, não se importa mais em rever os familiares, nem de participar de sua vida. Alguns pais recorrem a psicólogos, ao charme do dinheiro, a astrólogos, quando não a polícia, para tentar re-haver os filhos. No desespero, tentam encontrar culpados dentro e fora da família. O desenvolvimento natural do adolescente e do jovem os leva a busca de si mesmos. Eles estão rompendo a matriz ventral. Estão migrando para a matriz peitoral, mais interiorizada, sede do coração, da força de vontade e do desejo. Mas existem filhos, mesmo adultos, vivendo na dependência do envelope alimentar e afetivo dos pais. Vivem para comer e para beber. Vivem a matriz ventral como uma totalidade. Outros contam com essa matriz até o pósmorte dos pais, através de heranças e acesso a seus bens materiais. Outros se fundem de tal forma na vida familiar que não conseguem se ver fora dela. Incapazes de amar fora da relação familiar, mergulham num trágico destino fusional e estéril. Morrem simbolicamente ao lado dos pais, quando não são “mortos”, como os filhos de Netuno – na mitologia grega – mortos pelo pai ao tentar violentar a própria mãe.

Uma etapa decisiva na caminhada do desenvolvimento é a separação dos filhos e dos pais. Os filhos se tornam verdadeiros filhos quando partem em busca deles mesmos e abandonam o envelope familiar. O afastamento da família, da casa e até de Deus é aparente. Permitirá mais tarde um encontro maior e melhor. Com o tempo, a matriz torácica dos desejos, dos impulsos, da vontade e da paixão cede lugar para uma matriz mais interiorizada ainda, a cerebral. O trabalho necessário para a diferenciação e a personificação do indivíduo é eminentemente psicológico e espiritual. O envolvimento cego com seus próprios fantasmas corporais e psíquicos também é longo e difícil de ser superado. O amadurecimento leva a revisão de vida, ao relacionamento amoroso e poético com os outros, à moderação e à medida.

Com o tempo e a santidade, muitos chegam ao abandono de tudo que não está destinado à eternidade em cada um: desde seus corpos até os seus acúmulos de conhecimentos, relações humanas e riquezas. São os chamados seres desenvolvidos, os sábios e as pessoas maduras. Liberadas de quase todos envelopes e matrizes, elas vivem na vizinhança do seu próprio arquétipo. Estão cientes de seu verdadeiro nome, próximas do Ser, de sua absoluta unidade, alteridade e unicidade. Estão prontos para deixar a última e mais difícil das matrizes, a cerebral. E essa matriz foi superada na montanha do crânio, o Gólgota ou Calvário, por Aquele que é ressurreição e vida. No que pesem os envolvimentos sociais e afetivos, desenvolver-se significa abandonar ativamente todos os envelopes, caminhar para si mesmo e encontrar-se na plenitude realizadora da Graça.

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