ENTRE A FALTA E O PECADO


(28/3/2009)

Evaristo Eduardo de Miranda

No Cristianismo e na moral fala-se muito de faltas e erros, ou seja, da infração à lei na sua materialidade. As faltas dizem respeito aos dois primeiros níveis da ação humana: o fazer e o dizer. Mas existe um terceiro pouco abordado, como dizia Marcel Légaut. Trata-se do que a tradição chama de pecado. No vocabulário cristão, o pecado é uma infração à lei de Deus ou da Igreja, como sua representante junto aos homens.

A noção de pecado, apesar dos estereótipos, é muito interessante. Ela vai além desses primeiros dois níveis das errâncias humanas. Alguém pode conviver muito bem com o fazer e o dizer… e estar em pecado. Na raiz do paradoxo está a ausência de vida espiritual. A falta é da ordem do fazer e dizer, da moral e da ética. O pecado é da ordem da vida espiritual. Concentramos os exames de consciência, introspeções e revisões de vida nas faltas, por pensamentos e palavras, atos e omissões. E deixamos de lado essa terceira dimensão. Ela exige uma reflexão que ultrapassa o simples exame de consciência.

Examinar nossos pecados exige mais do que um corte num dado momento da existência, face ao contexto de certo fazer ou dizer. Esse exame exige silêncio, retiro, oração e meditação. E a fidelidade dessa busca interior leva à visão da vida espiritual passada, ao longo do tempo e da existência. É através do passado, e não somente do presente, que se alcança um entendimento espiritual, para além do campo da moral e da ética.

Os dois primeiros níveis são necessários, mas esse exame da vida espiritual passada permite detectar as infidelidades. Uma falta é simples de ser detectada quando cometida. Não é assim com o pecado. Para viver bem o presente, devemos ter um olhar espiritual sobre o passado, em profundidade. Na medida em que nos enraizamos em nossa vida espiritual passada, passamos a ter vida no presente. Não se trata de saudosismo ou imobilismo, mas de história, de nossa história. Nela podemos observar nossas fidelidades e infidelidades.

Os períodos longos de fidelidade na vida espiritual identificam, a posteriori, as infidelidades passadas, difíceis de perceber no momento em que foram cometidas. A meditação ajuda a viver o presente de forma verdadeiramente humana e a preparar o futuro. Quem medita em profundidade, vive o instante com relação ao presente. Isso não é só privilégio de monges e contemplativos. É uma prática à qual participam cada vez mais leigos e leigas. O passado não existe mais. O futuro ainda não é. O presente é o que nos resta. A meditação permite estar no presente, enraizado no passado. E aí se vive o instante.

O instante não está no tempo. Nele se concentra de forma viva, pessoal, singular e autônoma, tudo o que vivemos no passado. Na meditação abrem-se as portas para tomar-se consciência, de forma global e espiritual, do que secreta e misteriosamente preparava-se em nós, graças à nossa fidelidade.

Essas realidades espirituais estão em nós e não provém de nós. Há nelas um Dom. Ele nos ultrapassa. Tudo que chega do exterior, a meditação ajuda a decantar. Parte dessas realidades externas é apropriada como verdadeiramente nossas, graças a essas outras dimensões que estão em nós e não são nossas. É assim, aproximando-se do seu próprio mistério que o homem se aproxima de Deus, nas palavras de Légaut.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Entre a falta e o pecado. A Tribuna, Campinas – SP, p. 13, 2009.

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