EMBRIÕES SEM FUTURO


(30/1/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

A Inglaterra não tem amigos eternos,

mas sim, interesses eternos.

A frase norteava a política do império inglês. Muitos pagaram caro por não entender o seu alcance. Agora, ao aprovar uma lei permitindo gerar, manipular e destruir embriões parece que os próprios ingleses estão fora dos interesses da Inglaterra. O Dalai Lama pediu à Câmara dos Lordes para não aprová-la. A Igreja, grupos humanitários e científicos também posicionaram-se contra. Os “interesses comerciais” e a “dianteira econômica” que representaria para a Inglaterra foram mais fortes. A mídia evocou “rios de dinheiro”.

Nem os Estados Unidos, nem os outros países da Europa teriam tamanha ousadia. Pelo contrário, a pesquisa científica envolvendo embriões tem sido objeto de controles crescentes nessas nações. Declarações de alguns cientistas e capitalistas entusiasmados não podem ser confundidas com o conjunto da comunidade científica e da sociedade. As razões de preocupação são sérias. Os nazistas também justificavam suas experiências “científicas” com humanos em campos de concentração pelo benefício que trariam à humanidade. Dias depois da aprovação da lei britânica, a mídia inglesa divulgou: um hospital inglês retirava e vendia, há anos, ilegalmente, órgãos de crianças para transplante e uso laboratorial, sem o conhecimento dos pais. Isso na Inglaterra! As razões para preocupação são reais.

A lei inglesa viola um princípio legal maior e pode ser comparada à temática do aborto. Até hoje o aborto não foi legalizado em nenhum país do mundo. Na Europa e em outras nações houve apenas sua descriminalização ou despenalização, em determinadas situações. As situações da despenalização variam de país para país. Elas dizem respeito, basicamente, ao número de semanas de vida do feto até o qual o aborto não é penalizado. Um dia depois dessa data e o ato passa a ser criminalizado.

As legislações européias também incluem outros condicionantes: o número de abortos já praticados pela mãe, as condições de sua realização etc. A despenalização material do aborto pela sociedade (você não é preso, não paga multa, não sofre injúria pública etc) não elimina, nem evita a necessária reflexão individual. Longe de ser um incentivo ao aborto, a legislação é restritiva quando a mulher recorre a um segundo ou terceiro aborto, podendo se tornar impeditiva ao não permitir o acesso a nenhum serviço médico gratuito, ao reembolso dos custos etc.

De certa forma, clonar um ser humano é como gerar um gêmeo idêntico. Ele, além de ser diferente na sua essência, como são diferentes todos os gêmeos, também o será no tempo de vida. Gerar, manipular e utilizar embriões numa linha de produção de produtos terapêuticos é outra coisa. A ciência tem competência e outros caminhos para solucionar os problemas invocados para justificar esse absurdo. Não existe e nem pode existir legalização do aborto. Algumas sociedades podem até discutir e aprovar as condições e limites de sua despenalização. Mas nenhuma nação poderia legislar dizendo: matarás! Esse princípio ontológico, inscrito em cada pessoa, é sagrado. Mas, neste início de milênio, na Inglaterra, parece que foi derrotado pelos “interesses eternos”.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Embriões sem futuro. O Diário, Ribeirão Preto – SP, p. 01 – 02, 2001.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Embriões sem futuro. A Cidade, Ribeirão Preto – SP, p. 3, 2001.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Embriões sem futuro. Gazeta do Povo, Curitiba – PR, 2001.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. The Amazing Amazon: Myths and Realities. Crusade Magazine, Washington – EUA, 2001.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Embriões sem futuro. Correio Popular, Campinas – SP, 2001.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Embriões sem futuro. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 2, p. 1 – 2, 2001.

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