ELE PRECISA DE TODOS SEUS INSTRUMENTOS…

(13/12/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

Era uma vez, uma pequena carpintaria num pequeno vilarejo da palestina. Um dia em que o Mestre estava ausente, os instrumentos reuniram-se num grande conselho. As discussões foram longas e animadas. Alguns falaram muito, outros pouco. Uns com veemência, outros com doçura. Eles tratavam de excluir alguns membros da comunidade dos instrumentos. Um tomou a palavra:

É necessário excluir nossa irmã serra porque ela morde e mostra seus dentes afiados diante de qualquer trabalho. Corta tudo em pedaços e tem um caráter muito difícil, até range.

Não podemos manter entre nós o irmão formão, disse um outro. Com sua lâmina afiada, ele poda e decepa tudo que encontra. Tem uma personalidade cortante, para ele nada presta e sempre tira lascas de tudo que lhe é apresentado.

E o martelo, disse outro, ele sim tem um caráter massacrante e opressor. Cada uma de suas batidas fere meus ouvidos e dói na minha cabeça. E é repetitivo, vive martelando, surdo aos conselhos e reflexões. Com ele, é tudo uma pancadaria.

E os pregos? Pode alguém conviver com gente tão pontiaguda, pronta a picar e alfinetar qualquer um? Que eles sumam daqui.

A lima e a lixa também devem desaparecer! Elas vivem esfregando, desgastando os projetos e as novas idéias, reduzindo-os a pó. Nada produzem, apenas desgastes

Pior ainda são o esquadro e a régua. Ele é quadrado e rígido. Vive enquadrando tudo e todos, tolhendo a liberdade de criação de cada um. Ela vive medindo cada coisa, cada resultado, buscando precisão e exigindo economias.

E há tantos instrumentos inúteis, que nada fazem e não trabalham. Vivem se escondendo pelos cantos da carpintaria e procurando, se possível, uma gaveta só para eles onde possam ficar ocultos e esquecidos.

Outros ainda, alguém lembrou, para não trabalhar ficam alegando problemas de saúde, como um parafuso solto ou a falta dos estímulos dos óleos, azeites e graxas. E nada fazem.

Pelas mesmas acusações passaram a vassoura, a desempenadeira, o enxó, as presilhas, o machado, a tesoura, as polias… ninguém escapou. Se o desejo de cada um fosse cumprido, é provável que no final desse conselho todo mundo estaria excluído.

A reunião terminou bruscamente com a chegada do carpinteiro. Ele tomou umas tábuas e começou cortá-las com a serra rangente. Depois, arredondou-as com a lâmina do formão que decepa tudo. A irmã tesoura, sempre cortante, a lima, sempre desgastante, e a lixa, sempre pronta a reduzir tudo a pó, foram chamadas para arrematar e suavizar as menores asperezas. Ele mediu cada tábua trabalhada com sua régua, ajustou-as com o esquadro e pregou-as com os irmãos pregos de caráter pontiagudo e com o martelo que bate cegamente. Ele serviu-se de todos seus instrumentos para fazer um bercinho. Para acolher a Criança que vai nascer. Para acolher e oferecer uma nova vida, para todos.

 

[Elaborado a partir de um texto de Jean Vernette, Vigário Geral da Diocese De Montauban (França).]

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Ele precisa de todos seus instrumentos. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3877, p. 15 – 15, 2010.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Ele precisa de todos os seus instrumentos. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 7, p. 2, 2007.

 

 

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