EDUCAÇÃO RELIGIOSA


(23/8/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Logo após a independência da Índia, Mahatma Gandhi foi interpelado criticamente por um importante interlocutor. Ele o questionava sobre o absurdo do governo estar realizando gastos tão grandes com ciência e tecnologia, num país com tantas dificuldades e outras prioridades. A resposta de Gandhi foi simples: – A Índia é pobre demais para permitir-se deixar de gastar muito dinheiro com ciência e tecnologia.

Certamente Dom Bosco, do alto do oratório celeste, aprovou a resposta. Hoje no Brasil, muitos hesitam diante da necessidade de investir com audácia e visão de futuro na educação. Com este centro cultural, os salesianos oferecem às famílias de Campinas mais um sinal de seu compromisso com o futuro de nossos filhos. Mais do que uma obra de arquitetura e tecnologia, este centro cultural é um testemunho da visão inovadora dos religiosos católicos no campo educacional, no que pesem todas as dificuldades existentes e criadas, particularmente pela política educacional brasileira. A pobreza não deve ser pretexto, nem desculpa, para falta de investimentos em educação. A política do governo deveria distinguir, no ensino privado, quem faz da educação uma missão e quem vê nela somente oportunidade de enriquecimento e negócios.

Desde o início do Cristianismo, uma intuição poderosa animava seus místicos: – Quem experimenta, sabe. As escolas filosóficas, religiosas e esotéricas propunham longos e tortuosos caminhos para chegar-se ao conhecimento de si e do Outro. O Cristianismo afirmava simplesmente: – Quem experimenta, sabe! A fórmula resumia a experiência pessoal de Deus, vivida e revelada por Cristo em cada um, como base de toda existência humana. Ela batia de frente com um pensamento presente, desde aquela época e até hoje, e que submete a experiência ao saber racional. Primeiro é preciso saber, conhecer, estudar, para depois experimentar. Os cristãos afirmavam que não havia vestibular, nem cursinho para entrar no conhecimento de Deus. Pelo contrário, quem O experimentava, sabia.

A mesma intuição anima, agora, esta iniciativa. Um novo templo e um novo tempo de experiências no campo artístico, científico e educacional estão colocados á disposição de nossos filhos, no novo centro cultural do Liceu N. As. Auxiliadora em Campinas. Através de todas essas experiências – que os alunos ansiosamente aguardam fazer – emergirá a sabedoria, que vem do interior para o exterior da pessoa humana. As crianças não falam do que vão aprender neste centro cultural, mas sonham com o que vão fazer. Experiências interativas, coletivas e comunitárias, mediadas por educadores competentes, para que esta escola seja cada vez mais um espaço de inclusão e não de segregação ou exclusão! Acreditamos na capacidade de desenvolvimento de nossos filhos!

Talvez a primeira contribuição da dimensão religiosa na educação esteja nessa perspectiva de descoberta e afirmação da individualidade de cada pessoa, acima de qualquer preconceito ou rótulo social, biológico ou, pior ainda, cósmico. A palavra desenvolvimento tão usada pela economia e sociologia, acabou contaminada. Gostaria de relembrar sua etimologia, tão evidente: desenvolver é o oposto de envolver. Quem se des-envolve, livra-se de envolvimentos, matrizes e condicionamentos. Desenvolver a criança, o adolescente e a pessoa humana evoca esse processo, oposto às prisões psicológicas, aos rótulos esterilizantes e aos envolvimentos ilusórios. Cada indivíduo – normal ou deficiente – deve buscar o seu verdadeiro lugar na vida, deve ter seu lugar numa escola inclusiva, rompendo com os envolvimentos, que limitam e confundem.

Que neste espaço cultural, nossos filhos sejam capazes de ir além das aparências e dos limites obtusos, descobrindo e acolhendo a diferença e o outro, recusando a rejeição e a alienação. Esse espaço não deve ser um símbolo de ostentação para os pais com filhos no Liceu, mas um lugar de vivências criativas, capazes competir e anular as experiências das drogas, da violência e do consumismo, propostas com tanto vigor e eficiência à porta de nossas escolas e lares.

Neste espaço cultural, entre computadores, livros, salas de música e brincadeiras nas escadarias e no elevador, nossos filhos estarão sendo convidados a uma experiência espiritual: a de descobrir sua identidade pessoal, única e intransferível, a de serem sujeitos do seu próprio ser. Ninguém vem ao mundo para pagar dívidas alheias, nem para realizar projetos dos pais ou da sociedade, por mais legítimos que sejam, mas para ter vida plena!

Que esta iniciativa nos engaje como pais, ainda mais, no acompanhamento das experiências e da vida de nossos filhos. Quem experimenta, sabe! Como dizia Dom Bosco, nos últimos instantes de sua vida, os meninos e as meninas – especialmente os traquinas – são mesmo a delícia de Jesus e Maria.

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