ECOLOGIA E SIMBOLOGIA EUCARÍSTICA


(1/3/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

A dificuldade de alcançar a dimensão ecológica na eucaristia não é só o resultado de uma história cultural e espiritual, mas também paga seu tributo à vida cotidiana. O mundo de hoje nos impregna de suas ambições, projetos, equívocos, exigências, preocupações e ilusões. Um lixo ruidoso e caótico se acumula em nossa alma, em nosso espírito e em nosso corpo. Fruto de uma crise que é também ecológica, esse entulho chega todos os dias nos alimentos desequilibrados ingeridos inconscientemente; nos líquidos bebidos sem discernimento; no ar poluído inevitavelmente respirado e até pela luz solar recebida em qualidade e quantidade inadequada. A solicitação e a manipulação de nossos sentimentos pelos mecanismos de consumo, projetos materialistas e embates competitivos nos afastam de nós mesmos e distanciam-nos de nossa identidade profunda.

A violência urbana no trânsito, nos assaltos, nos riscos do ambiente de trabalho e nas condições miseráveis das moradias expõe e atinge o corpo dos humanos cronicamente e, por vezes, de forma brutal, aguda e definitiva. Todos esses fatores nos deterioram. Nos corrompem. Diminuem nossa consciência e secam nossa vida. Como fazer presente a riqueza cosmológica na eucaristia se esse mesmo Cosmos está esquecido, alienado e maltratado? Um primeiro cainho para essa reconciliação está na descoberta, na re-descoberta da riqueza simbólica da eucaristia. No relembrar aos irmãos e participantes da eucaristia o universo cosmológico reunido em nossos símbolos, em nossa mesa. Talvez o mais simples seria evocar os quatro elementos cosmológicos, terra, água, ar e fogo, onipresentes no ritual eucarístico.

A TERRA

A terra representa o sólido e está presente no altar, pedra universal do sacrifício, umbigo do templo (em hebraico tabor), ponto central do nosso matriciamento e para onde convergem os olhares e as intenções da comunidade. Sobre o altar brilham os frutos da terra, flores e plantas, o pavio de algodão e a cera de abelha das velas e principalmente, o pão e o vinho, “frutos da terra e do trabalho do homem”. Os alimentos sólidos que nos fazem viver. A terra vem perdendo seu potencial de produzir e dar frutos, contaminada por agrotóxicos, ferida pelas queimadas e pelos desmatamentos, vitimada pela erosão e pela compactação. A terra não respira e portanto sem a solidez de seus alimentos não podemos viver. A terra é também a base de nossa elevação e verticalização. Na passagem da sarça ardente, no livro do Êxodo. Deus ordena a Moisés: – Não te aproximes daqui. Tira tuas sandálias porque o lugar onde você se mantém de pé, – onde você não se dobra ou se anula – é terra santa (Ex 5,3). A terra santa é a terra dos homens de pé. Não dos homens esmagados pelo divino, aqueles cujo reflexo imediato é de ver nesse gesto ordenado a Moisés “um sinal de respeito”, submissão ou humilhação. Deus não diz o lugar onde Eu me mantenho, mas o lugar onde Você se mantém de pé é sagrado. Retira as sandálias, pois a terra – adamá – sobre a qual Você fica de pé perto de Mim, mas não demasiadamente, é um lugar santo. Quem vive uma experiência pessoal de Deus, os homens e mulheres de Deus são constantemente inflamados pelo fogo da Sua presença sem serem consumidos. Na entrada das mesquitas, de determinados monastérios orientais e mesmo em alguns monastérios católicos, retirar os sapatos para entrar é uma exigência. Nesse ato de despojamento, onde retiramos o fardo dos sapatos, os pés tocando o solo, o piso, o tapete… nos falam de uma outra experiência (Js 5,13-15), capaz de derrubar muralhas. De uma intimidade, cuja base está nos pés no contato com a terra.

A ÁGUA

A água, lavará as mãos e as fraquezas do celebrante, indigno de celebrar esse mistério mas escolhido e chamado por Deus para essa missão. Filtrada pela terra, a água subiu como seiva fértil pela videira, recebeu o fogo do sol e formou as uvas que foram amadurecidas em vinho. A água é nosso alimento líquido. Mais sutil que os frutos sólidos da terra, mais necessário. Sem comer podemos viver muitos dias. Sem água morremos rapidamente, em poucos dias. A água é a sede das transmutações sutis em nossa vida. Fomos gerados na água e dela, como Jonas ou os hebreus através do Mar Vermelho, emergimos para o seco. Emergência da inconsciência úmida para a consciência do seco, do sal do mar para o sal da terra, do seco.

No Egito da violência e da opressão, Moisés em seu primeiro ato salvífico, transformou a água em sangue. Em Caná, em seu primeiro ato salvífico no evangelho de João, Jesus num clima de festa, alegria e embriagues, transformou a água em vinho. Mais tarde, num de seus últimos atos salvíficos em vida, antes do Calvário, numa celebração entre seus amigos, Jesus transformou o vinho em sangue. E na cruz, do seu flanco direito, brotaram sangue e água. Água da vida e da morte, água da chuva que faz crescer os campos e florestas, mas que também inunda e afoga.

A ambivalência da água evoca a ambivalência do humano. Inconsciente e dominado pelo que não consegue trazer à luz, o humano volta-se contra a mãe água: devasta seus mananciais, polui suas fontes, joga seu lixo e seu esgotos nos rios e córregos como se para isso tivessem sido criados, lança seu lixo radioativo e seu petróleo nos mares e oceanos. A água potável está ficando rara e dos rios de onde vêm a água que bebemos hoje, ninguém ousa se banhar! A água na eucaristia pede por salvação e reclama nossa atenção. Como no episódio de Jesus com a samaritana, a água pede de beber. O poço é símbolo do coração humano. E precisamos descer nas suas profundezas para descobrir a nossa fonte. Sentar na beira do poço é ficar na escuta. Como quem medita junto a um riacho que canta ou uma fonte murmurante. No silêncio da celebração é fundamental estar em estado de ressonância, para ouvir a voz que murmura no fundo das águas: Dá-me de beber. O paradoxo: a água pede de beber. A fonte que tem sede de ser bebida. Como entender e atender esse chamado de Deus?

O AR

O ar, pneuma, ruach, o sopro do espírito envolve todo o ambiente durante nossas celebrações, presente e invisível, como uma analogia do Santo Espírito. Nós o inspiramos e expiramos sem notar sua presença. O ar é um alimento ainda mais sutil e necessário do que a água. Necessário treze a quinze vezes por minuto, sem o qual nossa vida acaba em instantes. Pelo ar, as palavras do celebrante instauram e expõe uma Palavra, aquela que não se cala contra as palavras que roubam a voz. “Pois de palavras eu me sinto prenhe, impele o sopro do meu ventre. Em meu ventre, há como um vinho sem respiradouro, como odres novos prestes a explodir. que eu fale, pois, para poder respirar. Abrirei os lábios e replicarei” (Jó 32,18-20).

A poluição do ar, o efeito estuda, a destruição da camada de ozônia, a chuva ácida e tantos outros fenômenos de degradação pelos humanos do hálito que os alimenta, atinge todo o planeta e todas formas de vida. O ar toca a água e o que atinge o pulmão, fere o coração. Do ponto de vista bíblico-simbólico, água e ar encontram-se no coração. Com os pulmões, o coração é um mestre do sopro e da vida. O ritmo cardíaco é identificado com o da respiração, presença do Sopro divino no humano. Isso remete a uma visão pneumatológica, vinculada à comunicação intima existente entre o sopro e o sangue (Gn 9,4). Ao contrário do senso comum, a bíblia indica metaforicamente que o sangue é que faz o coração bater: “a vida de uma criatura está no sangue” (Lv 17,11) ou ainda “o sangue é a vida” (Dt 12,23). Dotado do Sopro divino, o sangue é quem dá ao coração, sua energia pulsante.

No cosmos planetário, a atmosfera, o ar, o vento… ocupam um espaço intermediário entre a terra e os céus. Em outras palavras, o espaço intermediário entre os céus e a terra está cheio de um Sopro, no qual o homem vive como um peixe dentro d’água. No macrocosmos universal, o Espírito, o Sopro, o Alento, plana entre as trevas e a luz, entre as águas superiores e inferiores, entre o teto e o chão do firmamento (Gn 1,2-10). Sopro do espírito é a manifestação de Deus e não somente um atributo da pessoa divina. O Sopro possui uma ação misteriosa e por isso é comparado ao vento (Pr 30,4; Ec 1,6; Rs 19,11). Ao seu sabor ondula o fogo das velas acesas sobre o altar, elas que são o símbolo da iluminação e da purificação.

O FOGO

O fogo evoca a energia vibracional, as formas mais sutis de comunicação, a maneira pela qual os sentidos informam nossa pessoa sobre tudo o que ocorre (impulsos elétricos). O fogo está presente na eucaristia nas chamas que brilham nas velas e no círio pascal, mas também no vermelho do vinho, corado pela luz do sol que aqueceu e alimentou as folhas da videira. Está também no sal do pão, espécie de resíduo do mar, purificado pelo fogo do sol. Sem a luz e o calor do sol não haveria vida sobre a Terra. O sol é a grande metáfora de tudo que nos faz viver. A energia divina nos alimenta e faz viver. Viver Deus com e nos cinco sentidos, como ensinava Santa Teresa d’Ávila, significa ir além dos sentidos. Ir além também na descoberta do Cosmos, na vivência da inter-relação de todos os seres vivos, que compartem origem e destino comum.

A energia, o fogo, a luz, são alimentos mais sutis ainda do que o ar, a água e os sólidos que ingerimos. Sem essa energia que entra por nossa pele, olhos, narinas, boca e ouvidos desaparecemos. Sem a presença de Deus nossa morte é imediata. Como já foi evocado, quem vive uma experiência pessoal de Deus, os homens e mulheres de Deus são constantemente inflamados pelo fogo da Sua presença sem serem consumidos. Jesus é nossa sarça ardente. Nesse fogo abrasador, como diz Santa Teresinha do Menino Jesus, o pior dos pecados é consumido num instante. Ó Senhor tu nos provastes, depuraste-nos como se depura a prata (Sl 66,10). Nesse fogo podemos lançar nossas impurezas e escórias, não sobre os irmãos, sobre a irmã terra, a irmã água, sobre os irmãos vegetais e animais.

Certa ocasião, o cardeal Newman meditava, com espanto, sobre os textos bíblicos em que as provações são apresentadas como a purificação da prata pelo fogo, numa fundição. Para compreender esse processo, o cardeal Newman decidiu ir até uma fundição de prata e ver um fundidor no seu trabalho de acrisolar metais preciosos. Diante dessa obra de purificação pelo fogo, o cardeal perguntou ao profissional: “Quando você sabe que a prata está pronta, pura, purificada das escórias grosseiras?” O profissional respondeu: “Eu sei que a prata está madura quando, me debruçando sobre ela, posso ver refletidos os traços de meu próprio rosto.”

Quando somos “provados pelo fogo” é bom de lembrar que o Pai está debruçando seu rosto sobre nós, a fim que nos tornemos capazes de refletir os seus traços, como filhos. A provação é uma experiência pessoal, irredutível e intransferível. é também uma oportunidade terapêutica. Ela pode nos ensinar como sair de todas essas falsas identificações as quais nos agarramos, mas que nos impedem de tocar e atingir nossa realidade, nua, sem ilusões… O tempo da eucaristia é luminoso e deve fazer brilhar na consciência a presença da Criação em cada um de nós. Mais do que nossa humanidade, a eucaristia espelha nossa realidade e responsabilidade cosmológica.

Que a natureza, seus filhos amados e seus dons, nos ajudem sempre a celebrar e viver na eucaristia a verdadeira fraternidade cósmica e universal. Ela nasce na certeza de única origem, a mesma fonte da vida que nos tornou possíveis e que é uma só, monogênica, unigênita, UNA e indivisível: IHWH, Aquele que é O que é.

BIBLIOGRAFIA

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EVARISTO E. DE MIRANDA. Água, Sopro e Luz. Alquimia do Batismo. Loyola. 1995. S. Paulo. 109 p.

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Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Ecologia e Simbologia Eucarística. A Tribuna, Campinas – SP, v. 92, p. 9 – 11, 2001.

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