E AGORA, DOUTORA?


(7/12/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

A sociedade desconfiou da pesquisadora. Ainda bem. Durante o debate de regulamentação da Lei de Biossegurança, sobre o uso de embriões humanos e de suas células em pesquisas, uma famigerada cientista de nobre universidade paulista tentou ditar regras de conduta aos políticos, à mídia e à sociedade. Queixava-se da interferência restritiva de filósofos, políticos e religiosos no seu campo de pesquisa genética, do qual eles nada entendiam. Para ela, seus argumentos eram baseados em preconceitos arcaicos. Eles impediam, em nome da ética, a felicidade da humanidade.

Segundo ela, se embriões humanos pudessem ser usados em pesquisa no Brasil, teríamos soluções para problemas graves como mal de Alzheimer, de Parkinson, tetraplegias, doenças degenerativas etc. Impedir, limitar ou até opor-se às pesquisas com embriões humanos seria, isso sim, um atentado contra a vida de tantos enfermos e acidentados. Seu paradigma de progresso da ciência era a Coréia do Sul. Enquanto eles avançavam, nós estagnávamos.

Lá, as leis davam toda liberdade para os pesquisadores: embriões humanos já estavam sendo clonados pelo cientista sul-coreano Woo-Suk Hwang, com uma série de desdobramentos científicos e comerciais. Em parte, era verdade. Esse cientista de 52 anos, no ano passado, anunciou que havia: clonado embriões humanos, extraído células tronco e isolado uma série de linhagens ajustadas ao DNA de possíveis pacientes.

O Brasil não imitou a Coréia do Sul. O legislador brasileiro não impediu totalmente a pesquisa com embriões humanos mas limitou-a, inserindo uma série de garantias e dispositivos que visam um mínimo de respeito à vida, aos pais do embrião, à ética e aos princípios de humanidade. E o presidente Lula sancionou a Lei de Biossegurança com esses dispositivos.

Há poucos dias, o pesquisador coreano voltou a ocupar as manchetes da mídia devido sua falta de ética. Seus colaboradores haviam pago mulheres doadoras para conseguir óvulos. Sua equipe também usou óvulos doados por duas pesquisadoras do laboratório, obtidos em circunstâncias mal esclarecidas e de aparente coação. E eles foram fecundados sabe-se lá por quem. Tudo isso foi reprovado pela comunidade científica mundial, menos por alguns pesquisadores da ciência genética no Brasil. Seu silêncio foi emblemático.

Em novembro passado, Hwang pediu perdão numa entrevista coletiva e demitiu-se do posto de diretor do Centro Mundial Células Tronco. Aliás, essa instituição deveria ser chamada de banco e não de centro, dada sua vocação comercial e financeira. A saúde do Dr. Hwang piorou e ele acabou internado no hospital da Universidade Nacional de Seul com úlcera estomacal, ligeira pneumonia, fadiga, estresse e até desidratação. Agora ficamos sabendo que um artigo seu, publicado na prestigiosa revista Science, também continha um erro. Aparentemente, de seus erros, o menor.

Esse episódio demonstra a importância da sociedade manter uma atitude crítica e de precaução face a determinadas propostas dos cientistas. Se a sociedade brasileira não quer pesquisa com armas atômicas, ninguém tem a liberdade de fazê-las no Brasil, nem que seja com dinheiro de seu próprio bolso, quem dirá com dinheiro público. O mesmo vale para projetos de mercantilização e patenteamento da vida humana e da procriação.

Ao proibir a clonagem humana e restringir as pesquisas com embriões, os países impõem limites necessários a pesquisas e desvarios de alguns cientistas. Em nome do cientismo, uma ideologia que daria à ciência a liberdade de fazer o que quiser, eles reagem. Alguns pesquisadores – manipuladores de embriões e opiniões – vendem sua utopia gênica, reparadora e sanitária anunciando: doenças serão curadas, bebes serão geneticamente perfeitos, acabará a dor e o sofrimento. Quando a ciência deixa de ser descritiva e explicativa para tornar-se normativa, a sociedade deve reagir.

Simplificando: não cabe à ciência dizer como deve ser nossa sociedade. Cabe à sociedade definir a ciência e as pesquisas que quer ou não. O caso do Dr. Hwang e da Coréia do Sul são mesmo um bom exemplo de mau exemplo. Como dizia um judeu, eminente pesquisador de genética nos Estados Unidos: o problema não é ter descoberto o segredo da árvore da vida. É que o estamos vendendo para Wall Street.

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