DO FIM DO MUNDO À ORIGEM DO UNIVERSO

Questões filosóficas, científicas e teológicas sobre a salvação do planeta

(2/2/2009)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

1 – Quando a ciência e as religiões pretendem salvar o planeta

Em tempos de profecias cinzentas sobre mudanças globais e o futuro do planeta, a questão do “fim do mundo” e da sua salvação está na pauta. Como sempre, o mundo está mudando. Para os profetas de hipóteses inverificáveis, o planeta está se transformando num local ameaçador e até vingativo. Nesses discursos, a natureza aparece como um sujeito dotado de consciência e arbítrio, para não dizer morada de deuses. E está se vingando dos males que lhe infligiram os humanos. Como ocorreu no ano 1.000 na Europa, o fim do mundo, ou pelo menos deste mundo como o conhecemos, domina os debates.

Se as afirmações sobre a iminência do “fim do mundo” fossem feitas apenas por líderes religiosos, seriam tratadas de messianismo, milenarismo e até fanatismo. Mas isso é colocado com naturalidade pela mídia e até por parte de uma comunidade científica, que se diz atéia ou no mínimo agnóstica, quando evocam as questões ambientais do planeta. Nessa batalha midiática, o discurso religioso e o científico interpenetram-se de forma inédita e parecem falar a mesma língua.

Um linguajar religioso reveste o discurso dos porta vozes das mudanças climáticas e globais e de suas conseqüências. As falas do ex-vice presidente dos Estados Unidos Al Gore e do atual presidente Barak Obama, o ‘queridinho da mídia’, são exemplos eloqüentes. As mensagens dos cientistas que participaram o Painel Internacional de Mudanças Climáticas – IPCC, também adotam o mesmo tom e assumem o papel de profetas modernos sob os holofotes midiáticos.

Os termos utilizados por parte da comunidade científica no tratamento das questões ambientais planetárias evocam com freqüência o ‘apocalipse’; comparam os pretensos castigos climáticos com as pragas do Egito ou do Livro da Revelação; apresentam o fim do mundo como algo iminente e irreversível; ameaçam com aquecimentos infernais e dilúvios arrasadores; os humanos são pecadores castigados por seus atos, como nos tempos míticos de Noé; empregam o termo “pecado original” para criticar o modo de vida ocidental.

Num antropocentrismo onipotente e disfarçado, esses discursos creditam aos humanos a responsabilidade do aquecimento do planeta e também a possibilidade de salvá-lo. A Terra depende de nós. A natureza também. Parte do campo eclesial adotou essas teses e o discurso passou da salvação pessoal e comunitária ao de salvar o planeta.

Se no passado parecia delirante a pretensão do cristianismo de salvar a humanidade, o que dizer dos que pretendem salvar o planeta? E isso é anunciado candidamente, nos mais diversos fóruns, como um leitmotiv tautológico: salvemos o planeta. E nessa nova mística, engajam-se crianças e adultos, crentes e ateus, acreditando que, por exemplo, sua louvável atitude de separar o lixo reciclável em casa, vai mesmo salvar a Terra.

Uma dialética de culpabilização e de oferta de perdão e redenção é apresentada a todos os cidadãos, nas escolas, no comércio, nos meios de comunicação e em igrejas: calcule e compense seu rastro de carbono; evite o uso de combustíveis fósseis e busque formas alternativas de energia; mude seu modo de vida e altere seus padrões de consumo para preservar os recursos naturais e salvar a Terra. Há uma enorme simetria entre o atual ambientalismo culpabilizante e a catequese simplista do pecado e o seu papel perturbador no comportamento humano, desenvolvida por parte da Igreja em séculos passados.

Outra dimensão “religiosa” desse comportamento está no caráter missionário da causa ambiental. Muitas das campanhas ambientalistas são proselitistas e mobilizam as pessoas da mesma forma que, no passado, a religião as reunia em confrarias, procissões e missões. A mística missionária, repleta de crenças inquestionáveis, impera na cruzada ambientalista. O termo cruzada, contra tal ou tal problema ambiental, é usado com freqüência. Oponentes são imediatamente excomungados com séries de chavões e termos pejorativos. A expressão “paraíso ecológico” é aplicada a muitos fragmentos verdes de paisagem. E nessa guerra santa, a causa ambiental também canoniza seus santos e mártires.

Depois de campanhas, movimentos e cruzadas para salvar as baleias, o mico leão e as florestas, agora, trata-se de salvar o planeta. A tarefa não será simples, até porque as baleias e todas as espécies ameaçadas de extinção continuam enfrentando sérios problemas, enquanto as florestas seguem sendo desmatadas por alienados agricultores sem terra e seus aliados objetivos do agronegócio. Apesar da insuficiência ou do limite dos resultados obtidos na defesa ambiental de coisas tão circunstanciais, agora a pretensão é a de salvar o planeta! E não faltam especialistas em soteriologia, mesmo se não explicitam do quê, para quê e, sobretudo, para quem, vamos salvar o planeta.

Um outro exemplo de espelhismo religioso é o chamado de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – MDL ou do Mercado de Compensação de Carbono. Eles foram construídos para funcionar de forma análoga ao antigo sistema das indulgências da Igreja Católica e que historicamente acabou por levar ao surgimento do protestantismo. As indulgências podiam ser compradas, negociadas e garantiam o perdão ao pecador pela remissão ou reparação das conseqüências de suas faltas.

Nesse assunto também, o tratamento midiático e emocional evita a informação quantitativa e passa longe dos dados reais. Hoje, os países desenvolvidos podem seguir poluindo, emitindo gases de feito estufa, como o CO2, já que isso pode ser compensado, plantando-se florestas em países subdesenvolvidos, por exemplo. Ou, mais simples ainda, negociando as conseqüências desses “pecados” por créditos de carbono no mercado mundial. É bom lembrar que apenas quatro países (EUA, China, Rússia e Japão) respondem sozinhos por mais de 50% das emissões de gás carbônico do planeta.

O Protocolo de Kyoto, finalizado em 1997, baseado nos princípios do Tratado da ONU sobre Mudanças Climáticas da Rio 92, assinado e ratificado por diversos países, estabeleceu metas de redução de emissão de CO2 para os países industrializados a serem atingidas entre 2008 e 2012. Qual o destaque da mídia no monitoramento dessas metas? Quase nenhum.

Exceto Dinamarca e Alemanha, República Checa e Eslováquia, todos os países europeus aumentaram suas emissões de CO2 nos últimos dez anos. Alguns, como a Espanha, aumentaram suas emissões em quase 40%. A Coréia do Sul aumentou em 52%, a Irlanda em 42%, a Austrália e a Noruega em 35%, o Canadá em 26%, a Holanda em 24% e o Japão em 22%. E são signatários do Protocolo de Kyoto! A Europa está construindo enormes gasodutos vindos da Rússia. O consumo de gás aumentará cerca de 50% no curto prazo. As emissões européias são o dobro da média mundial que é de 4,4 t/ CO2/habitante/ano. Ainda não surgiu um Lutero da ecologia, apesar de tantos protestantes na matéria, para denunciar a hipocrisia desses sistemas internacionais, de seus acordos, critérios e instrumentos legais.

O tratamento e o enfrentamento dos desafios ambientais colocados pelo crescimento e pela sofisticação das sociedades humanas é essencialmente midiático. Estudos, resultados e pesquisas quantitativas e circunstanciadas sobre o assunto, só interessam quando servem às teses das ameaças e da salvação do planeta. Assim, por exemplo, o fato de estar-se há dois anos sem furacões nas Antilhas, não mereceu o menor destaque da mídia. Nem o fato de 2008 ter sido um dos anos mais frios, na média, dos últimos 10-15 anos. Já a onda de calor na Austrália ou as chuvas torrenciais em Santa Catarina…

Junto com os cientistas e os ambientalistas, as religiões também se mobilizam para salvar o planeta. A impressão é de que muitos religiosos e teólogos embarcaram nessa escatologia neopagã, da profundidade de um pires, como quem adota uma nova doutrina. Por que um número significativo desses pensadores não aborda as questões filosóficas e teológicas fundamentais trazidas pelos processos atuais que vivem o planeta e a humanidade? Por que eles não colocam as questões do destino escatológico da Criação em primeiro lugar para si mesmos e depois para os outros segmentos da sociedade? Não sabemos.

Ainda mal: eles estariam deixando de lado, por ignorância, preguiça ou má vontade, o tesouro elaborado ao longo de milênios pela filosofia e teologia sobre as origens e o destino do planeta, do Universo e da Criação? Em sua pretensão de salvar o planeta, a impressão é de que a situação atual seria tão inédita que o passado não teria nada a lhes ensinar. Seriam assim tão novas essas questões?

 

2 – A perene novidade de velhos problemas: cientismo e onipotência

Salvar o planeta e a Criação é um sonho antigo, muitas vezes ligado ao desejo humano de onipotência e onisciência, ou seja, de ser Deus. A crise atual não ensina a humildade. Pelo contrário, exalta o poder da ciência. O sucesso da ciência e da tecnologia é tão grande que a maioria das pessoas, incluindo os próprios cientistas e filósofos, acredita que a ciência poderá um dia ‘explicar tudo’. De forma mais ou menos consciente, eles fundam sua convicção sobre o fato de que o Universo é inteligível.

Essa inteligibilidade do Universo é fundamental para que se possa diagnosticar os problemas e propor soluções. Os discursos são emblemáticos. A onipotência humana domina os debates ambientalistas, com um indisfarçável orgulho: “- Ah! Como somos terríveis e poderosos. A espécie humana é a primeira capaz de modificar o planeta de tal forma que pode causar, agora, o seu próprio desaparecimento.” Nada mais falso.

A ciência demonstra que a história de nosso planeta possui muitos outros exemplos de espécies que o modificaram de tal forma, a ponto de causar seu próprio desaparecimento. Nada se compara nesse sentido, à experiência dos microorganismos, como as bactérias.

Basta lembrar que, dos quase 4 bilhões de anos da história da vida sobre a terra, mais de 3 bilhões foram ocupados e escritos por microorganismos, como as bactérias. Sozinhas, em meio a um silêncio ensurdecedor. Quem tem a capacidade de refletir e dimensionar tal realidade temporal? Quem pode imaginar o que significa um bilhão de anos? Em face da temporalidade da experiência de vida dos microorganismos, a dos humanos é um epifenômeno insignificante.

Nos primórdios do surgimento da vida no planeta, a atmosfera era pobre em oxigênio e inundada por radiações mutagênicas, como o ultravioleta. Era um ambiente extremamente hostil à vida. As primeiras formas de vida foram capazes de sobreviver nessas condições ambientais. Sua capacidade de fotossíntese e sua respiração foram aos poucos alterando o meio ambiente e a composição química da atmosfera terrestre. Eles mudaram a atmosfera da Terra! Em termos qualitativos e quantitativos não há comparação possível com o que os humanos possam ter feito nos últimos 150 anos queimando petróleo, com toda nossa tecnologia e prepotência.

As mudanças induzidas na atmosfera pelos microorganismos levaram ao surgimento da camada de ozônio, entre outros resultados. A abundância de oxigênio e a proteção contra a radiação cósmica propiciou o surgimento de outras formas de vida e tipos de microorganismos, mais competitivos nas novas condições. Isso levou à extinção das primeiras formas de vida, vitimadas pela alteração que elas mesmas causaram na atmosfera, em escala planetária.

A vida vegetal saiu do mar há apenas 430 milhões de anos, quando a camada protetora de ozônio já estava bem estabelecida, pela fotossíntese das algas e do plâncton vegetal. Durante milhões de anos, essa colonização verde foi muito esparsa e limitou-se a lagoas e ambientes úmidos. Com o tempo, uns 10 milhões de anos, os vegetais ganharam a terra mais seca e recobriram grandes extensões de solo móvel com um tapete de pequenas plantas sem folhas, como se fossem uns tubinhos, capazes de fotossíntese. Era um mundo silencioso. Apenas o vento ou um trovão ocasional. Os musgos só foram aparecer há 350 milhões de anos, bem depois do surgimento das plantas vasculares ou lenhosas, na mesma época em que surgiram as samambaias. A história da vida no planeta é repleta desses exemplos constantes de alterações ambientais em grande escala. Os humanos, ateus ou crentes, imaginam-se com um poder que na prática não possuem. Ainda.

Mais de 99% das formas de vida que surgiram ao longo das eras geológicas no planeta estão extintas e 99% das hoje existentes nos são invisíveis. O que nós denominamos e percebemos natureza é apenas um pequeno reflexo da vida no planeta. Para um cientista, olhar por um microscópio é um chamado à humildade.

E a humildade deveria ser a marca da ciência moderna, principalmente quando simula cenários em computadores para o clima nos próximos 50 ou 100 anos. Herdeira da tradição grega, a ciência tem como base a razão. O uso da razão e da razão crítica. Nela reside o direito de criticar os dados, os resultados, mas também os príncipes e os que patrocinam a ciência. Se a ciência e a razão são críticas, o pesquisador em primeiro lugar deveria ser crítico de si mesmo e de seu trabalho. E por isso, humilde. Mas não é o que ocorre nos dias de hoje, de forma semelhante ao ocorrido no final do século XIX quando do triunfo do positivismo, estamos vivendo um surto de cientismo.

Hoje, um fantasma ronda laboratórios e muitos centros de pesquisa: o cientismo. Para essa ideologia, a ciência daria a conhecer as coisas como são, resolveria todos os problemas da humanidade, satisfazendo todas as necessidades legítimas da inteligência humana. Para essa concepção ideológica, os métodos científicos devem ser estendidos, sem exceção, a todos os domínios da vida humana. Muito em voga no século XIX, voltou com força no início do XXI. Seus adeptos não admitem limites em suas pesquisas, nem orientação e, muito menos, oposição. Mesmo quando ameaçam princípios fundadores de nossa humanidade.

As utopias do cientismo acenam com o mito da sociedade reparadora. Afirmam, e a mídia propaga, que estudos genômicos vão eliminar todas as doenças; manipulações de embriões garantirão seres eugenicamente sadios; transplantes de órgãos serão simples como compras em supermercado e até a morte, quem sabe, poderá ser um dia vencida. O cientismo se estendeu ao campo das mudanças climáticas e globais. O problema não está nas descobertas científicas, mas nas aplicações e na ideologia delas derivada. O conhecimento científico deve ser defendido, mas é fundamental distinguir sempre a ciência de sua ideologia. Os médicos nazistas foram condenados em Nuremberg por suas pesquisas genéticas. Muitas nações proíbem pesquisas sobre armas de destruição em massa. No Brasil, a sociedade decidiu não pesquisar armas nucleares ou clonagem humana. Não há princípio de liberdade de pesquisa ou de ciência que possa autorizar tal atividade.

Quando a ciência deixa de ser descritiva e explicativa, para tornar-se normativa, a sociedade deve reagir. Não cabe à ciência dizer como deve ser nossa sociedade. Cabe à sociedade apoiar e desenvolver a ciência e as pesquisas que quer ter.

Se o cientismo entra pela porta, o irracional vem junto e ameaça a verdadeira ciência. É o que ocorre nitidamente no campo das pesquisas sobre mudanças globais. Hoje, os meteorologistas – que tem tanta dificuldade em prever o tempo para o dia de amanhã e acertar a previsão – prevêem o clima para os próximos 20, 50 ou 100 anos. Como isso fosse pouco, sob a luz dos holofotes dão conselhos |à sociedade, fazem propostas de novos modelos de desenvolvimento para a Amazônia… Assim, tranquilamente, numa autoampliação de seu campo de saber e competência capaz de espantar qualquer mortal.

No século XIX, para alguns positivistas, a ciência ia resolver todos os problemas da humanidade. Enquanto isso, o irracional galopava em experiências sobre ‘magnetismo humano’, mesas e copos que giravam, espiritismo, ectoplasma etc. Agora, no século XXI, enquanto o cientismo proclama utopias enganadoras para saciar muitas vezes seu oportunismo e sua sede de dinheiro e exposição na mídia, cresce o fascínio pelo irracional, pelas soluções mágicas, pelos mitos messiânicos e milenaristas, pelos gentis Harry Potters holywoodianos e suas varinhas mágicas. Talvez por isso, as propostas e planos para salvar o planeta são tão mágicos e conservadores.

 

3 – E pur se muove, apesar do desejo de conservar a natureza

Qual seriam então os planos ou caminhos da ciência ou das religiões para o planeta? Como salvá-lo? Não está claro, mas os discursos carregam fortes doses de imobilismo e mumificação. Nos dias de hoje, o revolucionário é ser conservador e, se possível, até fixista. Sob o chamado de conservação da natureza, há uma lista de desejos de imutabilidade: as florestas precisam ser mantidas como e onde estão; o nível dos oceanos não deveria variar; o número de espécies da flora e da fauna seguiria sendo o mesmo; as geleiras também deveriam permanecer do jeito que estão, assim como o gelo acumulado na Antártida, a composição da atmosfera, as paisagens e tantas outras realidades terrestres. Nosso planeta, como cada um de nós, está em constante evolução. A dinâmica é sua marca, dada à existência de ciclos e processos astronômicos, além dos acasos e de alguns “eternos retornos”.

Em primeiro lugar, existem razões astronômicas para as oscilações climáticas observadas no planeta, conhecidas como ciclos de Milankovitch. Esses ciclos têm operado continuamente na história da Terra. Eles foram os causadores de oscilações no nível do mar, de alterações rítmicas dos estratos sedimentares do Mesozóico e Cenozoico, de mudanças climáticas – vegetacionais nos continentes, da ocorrência de glaciações etc. Os três principais ciclos de Milankovitch ocorrem com periodicidade de aproximadamente 20.000, 44.000, 100.000 e 400.000 anos. Eles resultam da variação da distância Terra – Sol devido a interações gravitacionais da Terra com outros planetas e o Sol (ciclos de precessão; 23.000 e 19.000 anos); do aumento e decréscimo da inclinação do equador na órbita da Terra ao redor do Sol (ciclos de obliqüidade; com duração de 41.000 e 54.000 anos) e da variação na forma da órbita da Terra ao redor do Sol (ciclos de excentricidade; 95.000, 123.000 e 413.000 anos). Hoje, a ciência determinou as sobreposições ocorridas entre os vários ciclos e suas conseqüências sobre a vida no planeta e as mudanças climáticas. Por mais fixismo de alguns, não há como escapar desses ciclos.

Em escalas mais curtas de tempo, a vida na Terra é estritamente dependente da atividade solar, nosso meganeguêntropo. Mas essa atividade apresenta variações. O ciclo solar, também conhecido como ciclo solar de Schwabe, varia em intervalos de aproximadamente 11 anos. A máxima duração de um ciclo solar foi de 13 anos e 8 meses (de setembro de 1784 a maio de 1798). O ciclo de menor duração foi de 9 anos exatos (desde junho de 1766 a junho de 1775). Nos períodos de atividade mais elevada, conhecidos como máximo solar, as manchas solares aparecem, enquanto que períodos de atividades mais baixas são denominados de mínimo solar, com diversas conseqüências sobre nosso planeta. Todos esses ciclos se sobrepõem e seus efeitos interagem.

Existem outros fatores externos como os cometas e os asteróides, participando das mudanças na Terra. Devemos ao aporte dos cometas, a origem de praticamente toda a água existente em nosso planeta. A Terra nasceu sem água. O choque de dois asteróides contra a Terra há 160 milhões de anos causou o desaparecimento dos dinossauros e de diversas formas de vida.

A evolução geológica interna da Terra foi e é marcada por diversos eventos ligados a terremotos e erupções vulcânicas. Existem atualmente cerca de 1.500 vulcões ativos no mundo, 550 em terra e o restante no oceano. Para ter-se uma idéia do quanto o vulcanismo pode alterar a vida no planeta, em 1991, a erupção vulcânica do monte Pinatubo, nas Filipinas, após mais de 600 anos de inatividade, injetou 20 milhões de SO2 na estratosfera e resfriou a Terra em cerca de 0,5º C por quase um ano. O material lançado na atmosfera circundou o globo em três semanas e cobriu 42% do planeta, dois meses depois da erupção. O inverno extremamente rigoroso da Nova Zelândia em 1992, os violentos ciclones daquele ano (como o Andrew e o Iniki), assim como as chuvas torrenciais que alagaram o meio-oeste dos Estados Unidos em 1993, foram atribuídos aos efeitos atmosféricos ocasionados pelo Pinatubo. A erupção do vulcão mexicano El Chicón, em 1982, também foi tão intensa, que envolveu todo o planeta numa ampla camada de ácido sulfúrico e hidroclórico.

Além disso, existem outros fenômenos naturais ligados ao deslocamento dos pólos magnéticos, à inversão de sua polaridade etc. A vida na Terra sempre conheceu e conhece ciclos, fases, expansões e regressões. Apenas a20.000 anos atrás, grandes parte do norte da Europa ainda estava coberta por um enorme glaciar com mais de 3 km de espessura! O gelo acumulado na Antártica é um registro natural da evolução do clima do planeta. Esse registro de temperatura foi computado com base na análise do núcleo do gelo de Vostok: uma amostra de 3.623 metros foi retirada. O gelo na parte inferior dessa lâmina ficou intocado por cerca de 500 mil anos. Durante esse período, houve quatro eras glaciais. Mas o que mais impressiona nesses resultados é a enorme flutuação climática durante esse todo esse intervalo. Em longos períodos, a temperatura média global esteve até 9°C mais fria do que agora. Foram as eras glaciais. A era glacial mais recente terminou cerca de 12.000 anos atrás. Também houve épocas com o clima bem mais quente do que hoje. Globalmente, estamos atualmente em um período relativamente quente e tivemos diversas oscilações de temperatura nos últimos séculos, bem antes da revolução industrial.

Em seu livro “O mito do eterno retorno”, Mircea Eliade criou uma distinção entre a humanidade religiosa e não-religiosa, com base na percepção do tempo como heterogêneo e homogêneo respectivamente. Para Eliade, a percepção do tempo como homogêneo, linear, e irrepetível é uma forma moderna de não-religião da humanidade. O homem arcaico, ou a humanidade religiosa (homo religiosus), em comparação, percebe o tempo como heterogêneo; isto é, divide-o em tempo profano (linear) e tempo sagrado (cíclico e reatualizável). Por meio de mitos e rituais, a humanidade religiosa tenta proteger-se contra o ‘terror da historia’: a condição de impotência diante os dados históricos registrados no tempo. Sem dúvida, uma análise dessa natureza, aplicada aos atuais movimentos sociais com vistas a salvar o planeta, traria luzes inéditas à temática face ao cientismo, ao relativismo, ao existencialismo e ao historicismo modernos, incapazes de criar mecanismos para que a humanidade suporte os sofrimentos causados pela consciência da ‘história’, dos ‘acontecimentos’ sem um sentido transhistórico escatológico, cíclico ou arquetípico.

4 – Quando o fim remete às origens: o carbono florestal e o Big-Bang

Mudanças climáticas sempre ocorreram e, muitas vezes, em curtíssimos espaços de tempo, como nos séculos XII e XIV, desconhecendo nossos ciclos profanos e sagrados de tempo. O período de várias centenas de anos até o século 19 tem sido chamado de “A pequena era glacial” na Europa. Há muitas provas de um clima mais frio do que o que existe hoje e também do período mais quente que vai de cerca de 900 a 1100. Nos períodos frios, as geleiras avançaram. O Mar do Báltico e o rio Tâmisa em Londres freqüentemente congelavam durante o inverno. As épocas de plantio e germinação eram encurtadas. Durante invernos especialmente severos, o gado morria. Nos períodos quentes os vikings navegavam até a Islândia (ilha de gelo) e a Groenlândia (green land), que efetivamente era verde e povoada. Contudo, no contexto dos últimos 2.000 anos, o aumento de temperatura no final do século XX é bastante abrupto.

Os 6 bilhões de habitantes do planeta têm dado, indubitavelmente, sua contribuição ao reenriquecimento da atmosfera terrestre em CO2, devolvendo-lhe o que os fenômenos naturais haviam seqüestrado sob a forma de petróleo e carvão mineral (restos das belas florestas do Carbonífero), principalmente. E o fizeram também substituindo as florestas por atividades agrícolas e urbanas. O resultado é global, mas não deveria mascarar de forma alienada, as desigualdades internacionais e as forças econômicas atuando atrás desses processos. Assim como no caso das emissões de CO2 a partir de combustíveis fósseis, o caso da evolução das florestas mundiais é um exemplo.

Há 8 mil anos, o Brasil possuía 9,8% das florestas mundiais. Hoje, o país detém 28,3%. Dos 64 milhões de quilômetros quadrados de florestas existentes antes da expansão demográfica e tecnológica dos humanos, restam menos de 15,5 milhões, cerca de 24%. Mais de 75% das florestas mundiais já desapareceram. Com exceção de parte das Américas, todos os continentes desmataram e muito, conforme revelou o estudo da Embrapa Monitoramento por Satélite sobre a evolução das florestas mundiais.

A Europa, sem a Rússia, detinha mais de 7% das florestas do planeta e hoje tem apenas 0,1%. A África possuía quase 11% e agora 3,4%. A Ásia já deteve quase um quarto das florestas mundiais (23,6%), agora possui 5,5% e segue desmatando. No sentido inverso, a América do Sul que detinha 18,2% das florestas, agora detém 41,4% e o grande responsável por esses remanescentes, cuja representatividade cresce ano a ano, é o Brasil.

Longe de estar encerrada no passado, essa tendência se mantém e se o desflorestamento mundial prosseguir no ritmo atual, o Brasil – por ser um dos que menos desmatou – deverá deter no futuro quase metade das florestas primárias do planeta. O paradoxo é que, ao invés de ser reconhecido pelo seu histórico de manutenção da cobertura florestal, o país vem sendo severamente criticado pelos campeões do desmatamento e paulatinamente alijado da própria memória.

Dos 100% de suas florestas originais, a África mantém hoje 7,8%, a Ásia 5,6%, a América Central 9,7% e a Europa – o pior caso do mundo – apenas 0,3%. Embora se deva mencionar o esforço de reflorestar para uso turístico e comercial, não é possível ignorar que 99,7% das florestas primárias européias foram substituídas por cidades, cultivos e plantações comerciais. O continente que mais mantém suas florestas é a América do Sul com 54,8%. Com invejáveis 69,4% de suas florestas, o Brasil tem grande autoridade para tratar desse tema frente às críticas dos campeões do desmatamento mundial que são também os grandes emissores de CO2, saindo da condição de réu em que é colocado.

Avaliar com precisão qual é a efetiva contribuição das atividades humanas a esse fenômeno é impossível neste momento para a ciência. Estimar então, qual seria nossa capacidade de interferir em tais processos seria ainda mais delirante. Quem pretende salvar a Terra, e assumir e controlar o destino desta espaçonave deveria ter um plano. Deveria interrogar-se sobre a origem e o destino do planeta no seio do Universo.

A ciência e as religiões, em sua pretensão de salvar a Terra, deveriam enfrentar questões incontornáveis sobre a origem e o destino do planeta e do Universo. O debate sobre o fim ou a salvação do mundo, do planeta, de um tipo de sociedade etc. remete à questão da origem e do começo. Origem e destino estão intimamente ligados. E esse sempre foi um terreno de encontro privilegiado para filósofos, teólogos e cientistas. O primeiro passo importante é o de separar a noção de começo e da de origem, seja da vida, do planeta ou do Universo. Da mesma forma, o fim deve ser separado do conceito de finalidade ou de destino escatológico.

O começo do Universo ou da vida é, em última instância, um problema de historiadores que buscam datar fenômenos. Nisso e para isso, a ciência tem se mobilizado, estabelecendo datas e escalas temporais, do Big Bang a nosso dias, medindo a expansão e prevendo a contração do Universo e quantificando o tamanho do infinito. Mas esses resultados da ciência pouco nos esclarecem sobre a origem do Universo e da vida.

A origem aborda o princípio fundador, a partir do qual, o fenômeno pode desenvolver-se. Nesse sentido, a criação é a origem de tudo e até mesmo do próprio tempo. É ela quem cadencia os começos. A reflexão sobre o tema da origem da criação é milenar no seio das diversas religiões. De certa forma, todas as religiões postulam que o Universo, o planeta, a vida e o ser humano, foram criados.

Em sua pretensão de salvar o mundo, as religiões buscaram compreende-lo. O processo de compreensão filosófica, teológica ou científica dos fenômenos que afligem o mundo atual deveria alimentar-se das conquistas anteriores, nessa matéria, após passá-las pelo crivo da crítica. Assim procede a ciência.

A teoria de Darwin sobre a origem e evolução das espécies não condenou Lamarck a desaparecer totalmente na lata de lixo da história. Da mesma forma, as descobertas de Motomura não tornaram inúteis as perspectivas da seleção natural darwiniana. Em ciência, em filosofia e em teologia, nós somos herdeiros de nossos predecessores e subimos em seus ombros para descobrir a síntese perpetuamente renovada que nos espera. Como afirmava o padre Antonio Vieira em sua História do Futuro: “Um pigmeu sobre um gigante pode ver mais que ele”. Subamos nos ombros dos gigantes do taoísmo, do judaísmo e do cristianismo, para enxergar mais longe.

 

5 – O Universo foi criado?

Para todas as religiões sim, e para o taoísmo, também. O Tao Te Ching (Livro do Caminho Supremo) surgiu em meio à primeira tentativa de unificação da China. É a época da construção e primeira reforma da Grande Muralha, entre 403 e 220 a.C. Em seus 81 poemas é evidente a concepção de Lao Tse e de seus discípulos do Universo como criado. “Uma potência indefinível existia desde a eternidade. Ela já era antes do nascimento do céu e da terra. Perfeição indeterminada, energia eterna, movimento sem fim, movimento imutável, força única, onipresente e imperecível. Sem nome mas pressentida por todos, mãe e princípio criador do Universo, ninguém conhece seu nome verdadeiro, mas o chamamos Tao.” (Lao Tse. Tao Te Ching, poema 25).

Alguns séculos mais tarde, Platão abordou longamente o tema de criação do Universo e Aristóteles, em seguida, descobriu o paradoxo do primeiro motor que necessariamente é imóvel (Física. VIII, 5 e Metafísica XII, 7,8). Como somos todos prisioneiros do tempo, que se desenrola sem parar, nós não podemos resolver esse paradoxo. Alguns pensaram que ele poderia ser resolvido ao afirmar-se que Deus comunica o movimento ao mesmo tempo em que o ser, a cada instante, tanto hoje como no passado e no futuro. Essa solução aparentemente simples para um problema complicado tem um inconveniente: ela transfere para Deus o peso da contradição motor – imóvel, como faz o livro da Sabedoria (7,24): “Mais que todo movimento, a Sabedoria (imutável) é móvel.” Como o centro do eixo da roda que parece imóvel, enquanto ela gira.”

No caso do judaísmo, não é mero acaso, o fato do primeiro capítulo, do primeiro livro do Primeiro Testamento, começar com um relato sobre a origem, sobre os princípios da criação. No princípio, na origem, in arké, (no arquétipo), bereshit, (no cabeçalho) criou Deus os céus e a Terra (Gn 1,1).

Para a tradição judaica, não somente Deus é o autor da Criação, como Ele é revelado por Ela. Esse tema é recorrente em todo o Tanah tanto nos livros dos profetas, como nos Salmos, na Sabedoria, em Jó etc. O pecuarista, profeta e ecólogo Amós, resumiu assim essa perspectiva do judaísmo:

Prepare-se Israel para reencontrar teu Deus.

Pois é Ele quem formou as montanhas e criou o vento.

É Ele que fez a aurora e as trevas.

É Ele que revelou assim ao homem os Seus desígnios.

IHVH, Deus Shabaot, é seu nome. (Am 4, 13)

No caso do cristianismo, no Segundo Testamento, o fariseu e apóstolo Paulo, um dos homens que teve mais diretamente o conhecimento de Deus, escrevia aos Romanos (1,20): “o que havia de invisível em Deus, desde a criação do mundo, se deixa enxergar através de suas obras, já que são fatos inteligíveis” Invisibilia (Dei) a creatura mundi, per ea quae facta sunt intellecta, conspiciuntur. De certa forma, esse é o primeiro testemunho, na Bíblia, do papel essencial da inteligência na contemplação das belezas da Criação.

A escatologia cristã é plena de esperança e não delira com anúncios midiáticos e políticos de curto prazo. No Prólogo do Quarto Evangelho, escrito no começo do século II, João afirma que tudo vem Dele (do Logos, do Verbo divino, do Deus-Palavra) e que sem Ele, nada existe. “Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada foi feito”. (Jo 1,3).Ao mesmo tempo, a postura da Igreja é discreta quanto ao anúncio do fim do mundo, seguindo o exemplo de Jesus que recusou-se a precisar a data de seu retorno aos discípulos (Mt 24,30; Mc 13,32). Como na belíssima expressão do Papa João Paulo II: “O Universo é como uma frase de Deus cujo final ainda desconhecemos.”

Há milhares de anos, a tradição judaica e cristã postula, elabora e discute sobre a inteligibilidade do Universo. Teólogos, filósofos e cientistas, em sua maioria, concordam: o Universo e seus fenômenos são inteligíveis. Contudo, face aos desafios ambientais, o discurso de muitos parece abandonar completamente a perspectiva de inteligibilidade e mergulhar no tohu-et-bohu do caos primitivo e dos primitivos. Parte da reflexão teológica atual sobre a temática das mudanças globais deixa de lado, por ignorância ou má fé (sic), os tesouros já elaborados no passado sobre a origem e o destino da criação. E a contribuição adequada, racional e profunda da teologia para as ciências seria fundamental nesse tema.

 

6 – Como o Universo foi criado?

O Universo tem cerca de 15 bilhões de anos. Na Via Láctea, a nossa galáxia, existem 200 bilhões de estrelas. Existem centenas de bilhões de galáxias, ou seja, mais galáxias do que estrelas na Via Láctea, sendo que muitas possuem 100 a 1000 vezes mais estrelas. Olhar por um telescópio, como por um microscópio, também é um chamado à humildade. Talvez, por isso, o telescópio do Vaticano tenha dado mais contribuições à teologia, do que muitos possam imaginar.

O Universo foi e segue sendo criado. Deus cria o mundo neste segundo em que vivemos como Ele o criou no segundo passado e em todos os segundos que o precederam. A criação não foi um lance de dados ocorrido na noite do tempo, após o qual Deus teria se retirado para contemplar o resultado, como imaginam alguns. A criação é uma relação inesgotável entre o Criador e o mundo. Esse mesmo mundo que nos dias de hoje alguns humanos pretendem salvar.

Materialmente, as propriedades admiráveis do átomo de carbono, que são a base de toda a química orgânica, existem desde todo o tempo e são tão preciosas hoje como ontem. Elas contêm em germe a possibilidade do surgimento da Vida, desde os primeiros instantes do Universo, antes mesmo que um só átomo de carbono tenha existido. Subamos também nos ombros de outros gigantes, como Santo Agostinho, Santo Tomás e Kant, para enxergar mais longe.

Para um ecólogo é interessante constatar que Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, já estava suficientemente distanciado de Platão, em sua reflexão, para compreender que a evolução das plantas e dos animais é compatível com as Idéias eternas e com a Criação: “O Universo inteiro foi na origem em semente, não com a massa de uma grandeza corporal, mas no estado de força e de potência causal… Como num grão se encontra invisível tudo que, por lapso de tempo, acaba por tornar-se uma árvore, assim devemos imaginar que o mundo, quando foi criado por Deus, já continha em si mesmo, tudo o que deveria, mais tarde, se manifestar” (De Genesi ad litteram, livro V, XXIII).

Essa concepção deveria interessar em primeiro lugar os próprios cristãos, principalmente os que defendem teorias criacionistas e fixistas, a partir de uma leitura literal e simplista dos textos bíblicos. Esse absurdo nos dias de hoje não está apenas na visão de pessoas simples e incultas. Entre os defensores obstinados do ambientalismo e da salvação do planeta (e da Amazônia) está a ex-ministra Marina Silva, que também defende a adoção do criacionismo no sistema de ensino. Ao participar do 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, em São Paulo, ela equiparou a teoria científica da evolução, ao criacionismo. Na sua crença religiosa, a vida foi criada por Deus exatamente como descreve a Bíblia no livro do Gênesis.

Respondendo às perguntas de um blog de jovens adventistas, Marina disse que “é impossível crer em Deus sem acreditar que Ele criou todas as coisas. E, se nós não sabemos explicar, não devemos ter a pretensão de dizer que elas não existem. A fé é crermos mesmo sem entender (sic)”. E para salvar os homens e o planeta, nessa concepção, até o posicionamento ético pode ser relativizado.

Sobre esse tipo de posicionamento, basta uma consideração sempre atual, de Agostinho de Hipona: “Geralmente, mesmo alguém que não é cristão conhece algo sobre a Terra, […] e esse conhecimento é tido como sendo proveniente de razão e experiência. Agora, é um perigo e uma desgraça um infiel escutar um cristão, presumivelmente citando a Escritura Sagrada, falar absurdos nesses assuntos; e nós devemos usar todos os meios para prevenir uma situação tão embaraçosa, na qual pessoas demonstram a vasta ignorância de um cristão e riem até ao escárnio” (De Genesi ad litteram, livro XII).

Santo Agostinho, na passagem supracitada, continua nos avisando sobre o quanto é nefasto tal posicionamento para a ciência e as religiões. Essas “opiniões tolas” dos cristãos sobre fatos negados “através de experiência e à luz da razão” também tornam impossível “acreditar nesses livros no que se refere à ressurreição dos mortos, de esperança e vida eterna e do reino do paraíso”.

A concepção da criação a evolução de Agostinho, tão útil para os criacionistas que desejam salvar o planeta, será extremamente preciosa se descobrirmos vida fora do planeta Terra, da mesma forma que um traço de pensamento e inteligência encontrado em outros lugares do Cosmos nos colocaria diante de uma realidade que talvez, definitivamente, coloque em xeque o nosso antropocentrismo impenitente. E quem, realizar tal façanha, não terá o destino de Giordano Bruno que no século XVI defendia que o universo era infinito, povoado por milhares de sistemas solares, e interligado com outros planetas contendo vida inteligente. E uma descoberta como essa da ciência cósmica dará pleno sentido às reflexões de Bernard Le Bouyer de Fontenelle (1657-1757) sobre a pluralidade dos mundos.

Desde o final do século passado, em diversas ocasiões, os diretores do Observatório Astronômico do Vaticano, afirmam estarem convencidos da existência de vida extraterrestre e que isso não constituiria um problema para a nossa fé. Também têm afirmado que “é uma loucura” pensar que o Homem possa estar sozinho no Universo. O diretor do observatório astronômico do Vaticano, José Gabriel Funes, considera que se deve ter em conta a “possibilidade” de existência de vida extraterrestre, lembrando que “os astrônomos consideram que o universo é formado cem mil de milhões de galáxias, cada uma composta por centenas de milhares de milhões de estrelas que, na maioria dos casos, poderiam ter planetas”. No primeiro semestre de 2008, o jornal do Vaticano, ‘L’Osservatore Romano’, publicou uma entrevista com o diretor do Observatório do Vaticano, padre jesuíta José Gabriel Funes, intitulada ‘O extraterrestre é meu irmão’ e gerou uma onda de interesse um pouco por todo o mundo.

Na entrevista, Funes questiona como podemos garantir que a vida não tenha se desenvolvido em outros lugares. E diz também, que ‘assim como há uma multiplicidade de criaturas na Terra, pode haver, lá fora, outros seres criados por Deus’. Segundo Funes, ‘Isso não contradiz nossa fé, pois não impomos limites para a liberdade de criação divina. Assim como consideramos as criaturas terrestres como irmãos e irmãs, por que não podemos falar sobre um irmão extraterrestre? Seria também parte da criação’. Para ele, a ciência, sobretudo a astronomia, não contradiz a religião, um tema recorrente no pontificado de Bento XVI, que tem dado ênfase em explorar a relação entre a fé e a razão.

 

7 – O Universo é inteligível?

O Universo e nosso mundo são inteligíveis através da Criação. Agostinho de Hipona propôs uma magistral reflexão sobre o tempo. Registremos aqui apenas uma idéia forte sobre a inteligibilidade do Universo, fundamental para qualquer projeto de salvação planetária: “Eu teria mais facilmente duvidado da minha vida do que da existência de uma verdade visível à inteligência através dos seres criados” (Confissões. VII, 10).

Por mais inesperado que pareça, ele retoma uma idéia de Paulo de Tarso: “Porquanto o que (a humanidade) pode conhecer de Deus lhes é dado a ver claramente porque Deus o tornou manifesto. O que dele é invisível, suas obras, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem (Ele tornou inteligível), e plenamente visíveis” (Rom. 1, 19-20).

O texto em latim é mais condensado e explícito do que suas penosas e difíceis traduções: “quia, quod noscibile est Dei, manifestum est in illis; Deus enim illis manifestavit. Invisibilia enim ipsius a creatura mundi per ea, quae facta sunt, intellecta conspiciuntur, sempiterna eius et virtus et divinitas” (Apostoli ad Romanos Epistula Sancti Pauli, 1,19-20 – Nova Vulgata Bibliorum Sacrorum Vaticana secunda emendata)

No tema da inteligibilidade do real, Tomás de Aquino deixa à razão o direito de reger as verdades que podem ser conhecidas pela evidência, por demonstração ou por experiência. Esse “direito” fundamental será retomado por Kant. Isso implica que os objetos têm uma realidade, exterior ao nosso pensamento, e que podem ser conceitualizados. Essa filosofia tomista do ser permite uma adequação do julgamento e do objeto. Seguindo seu mestre Alberto o Grande (1206-1280), Tomás de Aquino recomenda operar essa adequação através de uma indução que repousa sobre uma tríplice evidência: existem objetos que nos são exteriores; eu, que observo esses objetos, também existo; eu posso conhecer os objetos e esse conhecimento é em parte ideal (potência) e em parte provocado pela ação do objeto (análoga a sachsverhalt da fenomenologia).

Tomás de Aquino vai muito longe, no sentido da inteligibilidade do Universo. Ele afirma que “Tudo que pode ser, é inteligível” (Summa Contra Gentiles, 98). Para ele, nossa inteligência é capaz de descobrir essas verdades inteligíveis, que elas sejam científicas ou filosóficas. Contudo, ela só pode atingir as verdades teológicas admitindo por verídico o que Deus revela de si mesmo.

Para dar todo significado a essa afirmação central de São Tomás deve-se relembrar que “tudo que pode ser” possui ao mesmo tempo existência (o fato de estar ali) e essência (o que o distingue ou aproxima dos outros seres). Nessa perspectiva, o observador percebe os objetos que existem e sua inteligência lhe permite de compreender a essência e de ir até a descoberta do Ser (cf. as cinco vias para Deus na Suma Teológica I, q.2, a. a 1, 2, 3 e 4).

Para quem reflete sobre a inteligibilidade do Universo e do mundo em que vivemos, esse princípio não exclui que o Ser seja a fonte de tudo, e mesmo de nossa inteligência, mas dá a esta uma autonomia que se tornará dominante a partir do século XVIII, particularmente com Kant.

Immanuel Kant, um dos filósofos que mais refletiu sobre o conhecimento do Universo, acompanhava os conhecimentos científicos de seu tempo e iniciou sua carreira como professor de ciências naturais. Ele foi um dos primeiros a pensar que sistemas estrelares podiam existir fora de nossa galáxia. Segundo sua Hipótese Nebular, também conhecida como a hipótese Kant-Laplace, o Sistema Solar teria se originado há cerca de 4.600 milhões de anos a partir de uma vasta nuvem de gás e poeira – a nebulosa solar. Essa hipótese foi sugerida em 1755 e desenvolvida em 1796 pelo matemático francês Pierre-Simon Laplace no livro Exposition du Système du Monde.

Na “Crítica da Razão Pura”, em sua Analítica Transcendental, Kant deixa claro o que pode ser toda a reflexão sobre o Universo que nos cerca. “Denomino dedução transcendental à explicação do modo como se referem a objetos – conceitos “a priori”, e a distingo da dedução empírica que indica a maneira como um conceito foi adquirido por meio da experiência e de sua reflexão, e que, portanto, não concerne à sua legitimidade, mas ao fato mesmo de que resulta a aquisição deste conceito”.

Para Kant, a reflexão (reflexio) não se interessa aos objetos em si para adquirir diretamente os conceitos, mas ela é o estado de espírito onde nós nos preparamos para descobrir as condições subjetivas que nos permitem de chegar aos conceitos. Para ele, todos os julgamentos, mesmo as comparações, demandam uma reflexão. E toda reflexão sobre os objetos do Universo repousa sobre uma abordagem subjetiva. Para Michel Godron, Kant explorou uma via descartada por Descartes e antecipou a intuição fundamental de Edmund Husserl em sua fenomenologia.

Subir nos ombros de nossos longínquos predecessores confirma que a questão da inteligibilidade do Universo e de nosso planeta está colocada de longa data. Esses gigantes da fé e da razão lançaram marcos na resposta a essa pergunta e Kant, quando o lemos com atenção, explicou particularmente bem que as ciências não são a única fonte de conhecimento e de verdade. Kant dá um papel central ao exercício da razão, que é também o antídoto mais forte contra o cientismo, já que ele instituiu um tribunal que é a Crítica da Razão Pura por si mesma.

8 – Antes da Origem e depois do Fim

A preocupação com o destino da Criação e a salvação do planeta habita o cotidiano da ciência e das religiões e são fonte de alienação e a manipulação. Mais do que nunca é necessário estabelecer e consolidar pontes entre esses dois universos. Para os pesquisadores é vital que os teólogos estabeleçam pontes de comunicação e tragam sua contribuição, tão decisiva e necessária. Seria uma tragédia, a ampliação das rupturas já existentes entre homens que se dizem racionais e têm na razão um instrumento precioso. Esse foi, na época romana, o papel confiado aos pontífices, ao Papa, o Sumo Pontífice. O Papa estabelecia pontes entre as realidades materiais da sociedade e da vida cotidiana com as exigências da vida espiritual e da Criação. Essa também é nossa missão e o tema do 22oCongresso da SOTER.

O texto bíblico, em hebraico, começa com a letra beit da palavra Bereshit. Diz uma história rabínica que um aluno um dia perguntou para seu mestre: – Rabi, o que havia antes da Origem, antes do Bereshit, antes do beit? E o rabino respondeu: – Aleph.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Do Fim do Mundo à Origem do Universo. 22º Congresso da SOTER, Belo Horizonte – MG,  2009.

 

 

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