DO AMAR E QUERER BEM


(9/7/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Todos podemos amar, ser amados e deixar-nos amar. Mas de que amor somos capazes? A resposta é certamente relativa: depende. Depende da pessoa, do contexto, da época. A trindade relacional considera sempre o amante, o amado e o próprio amor. E esse é mesmo o amor humano, relativo e absoluto. Nos evangelhos, vários termos e expressões diferentes têm sido traduzidos pela palavra amor. Qual amor unia Simão Pedro e o Cristo? Depende. Antes da paixão ou após o episódio da negação? Depois da ressurreição e antes de ascensão? Antes ou depois do martírio de Pedro? O evangelho de João (21,15-18) relata com grande riqueza essa relação, perdida em muitas traduções, inclusive na TEB.

Após mais uma e derradeira pesca miraculosa, em que definitivamente os discípulos tornam-se pescadores de homens, Jesus preside uma refeição eucarística: pão e peixes. É sua terceira aparição entre os adeptos, desde sua ressurreição. Quando acabam de comer Jesus diz a Simão Pedro: “Simão filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro responde: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te quero bem.”

Mais do que o amar, Jesus interroga sobre o quanto Pedro o ama, comparando seu amor ao dos outros discípulos. Pedro responderá com outro verbo, em outro patamar. Muitas traduções apresentam Pedro dizendo “tu sabes que eu te amo”, mas o verbo amar (agapô) utilizado por Jesus, não é retomado por Pedro. Ele fala em querer bem (philo), um amor de amigos, um amor humano e muito menos absoluto que o proposto pelo Cristo.

O texto prossegue. Jesus pela segunda vez o interroga: “Simão filho de João, tu me amas?” Agora sem comparação com o amor dos outros discípulos, a pergunta de Jesus é ainda mais absoluta. Mas Pedro responde da mesma forma, patamar e lugar: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te quero bem.”

Paradoxalmente, Pedro repete sua incapacidade ou impossibilidade de amar como o Cristo ama e amou. Ele passou pela dura experiência da negação do Cristo e de si mesmo, na sexta feira da paixão. Ali Pedro morrera psicologicamente ao afirmar: eu não sou (uko eimi), o antinome de YHWH. Pedro conhece e reconhece, agora, seus limites e sua fragilidade. Ele está menos impulsivo e angustiado, menos dividido, mais íntegro e unificado, do que em tantos episódios durante a pregação de Jesus.

Como numa peça de teatro, como num drama, poderíamos interrogarnos sobre o que passará no terceiro e derradeiro questionamento de Jesus. Um primeiro cenário possível seria Pedro, diante da pergunta de Jesus “tu me amas” (agapas me), enfim responder “sim, eu te amo” (agapô se). Pedro teria chegado a ser capaz desse amar divino (capax Dei, um dos títulos atribuídos a Maria). Uma segunda possibilidade seria a repetição dos dois diálogos anteriores: Jesus interroga “Simão agapas me?” e a resposta é philô se “eu te quero bem”. Seria a imutabilidade da situação. Pedro não é capaz de amar Jesus, com o amor que este segue pedindo e insistindo. Mas João nos relata uma outra possibilidade.

Surpresa. Jesus diminui a exigência e muda de verbo. Mais uma vez Ele sabe, como na sexta feira santa, que Pedro não é capaz de seguí-Lo mas Ele pode acompanhá-lo. Jesus fala como Pedro, desde a sua real humanidade, e lhe diz, pela terceira vez: “Simão filho de João, tu me queres bem?” Este, entristecido ou comovido, como se ouvisse o galo cantar pela terceira vez, lhe diz: “Senhor, tu sabes tudo. Sabes, pois, que eu te quero bem”.

A humanidade e a fragilidade de Pedro, assim como a nossa, são aceitas pelo Senhor. Deus não nos ama porque somos bons ou santos, mas para que nos tornemos bons e santos, como ensinava Santa Teresinha do Menino Jesus. Esse amor humano, esse amor de pescador e pecador, basta. Sob a condução do Espírito, do Sopro Sagrado, essa Pedra não se tornará pó. Ele não deixará de glorificar a Deus na morte, após um caminho de desglorificação pessoal, ao qual somos todos chamados. Jesus confia sua Igreja a Pedro e lhe confirma o dom e o acompanhamento do Espírito, coroamento de sua evolução:

“Amèn, amèn, eu te digo: quando eras jovem, tu te cingias e andavas por onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos. Um outro te cingirá e te conduzirá aonde não quererás ir (Jo 21,18).” Que o Outro, o Santo Espírito, nos cinja e conduza! Cingir evoca unir, fazer um, com o UNO. Como essa riqueza divina pode habitar nossa pobreza? Porque existe em nós, do criado e do incriado, do divino e do humano? Onde começa um, onde acaba o outro? Como fazer para sermos Um “como o Pai e eu, nós somos UM? Como realizar a união de Deus e do homem manifestada em Jesus Cristo “sem confusão, sem separação”? Como viver as bodas teantrópicas do criado e do incriado? Amando e querendo bem, sem medo, na plenitude de nosso ser. Que o Outro nos cinja e conduza!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *