DÍVIDAS IMPAGÁVEIS


Evaristo Eduardo de Miranda

Existem países tão endividados que sua dívida externa começou a ser chamada de dívida eterna. Uma dívida impagável. E existem mesmo dívidas impagáveis. O único jeito de sair delas é mediante uma anistia, um perdão da dívida. Jesus em repetidas ocasiões tratou do tema da dívida através de parábolas, ensinamentos e até na oração do Pai Nosso: Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores (Mt 6,12).

Os católicos acreditam na graça de Deus, no amor gratuito. Deus ama sem condicionamentos, nem pede nada em troca. E se Ele ama assim, todos devem amar-se assim. O pai não ama seu filho por tirar notas boas na escola ou ser bem comportado, mas por ser seu filho. Os pais católicos não condicionam o amor aos filhos e ao próximo. O amor gratuito não compensa, nem recompensa. Vai além de uma relação de mera reciprocidade, com ares financeiros.

Para os católicos, se Deus fosse justo conosco não se salvaria um só (Lc 19,11-27). Deus é mais do que justo. Ele é bom. Ele é um pai de infinita bondade. Logo no mito do início da humanidade, a Bíblia relata como Caim e Abel apresentavam seus sacrifícios para Deus. Por que eles sacrificavam? No que eles eram devedores para Deus? Quem pediu sacrifícios? A dinâmica da dívida e da dificuldade de aceitar o dom da vida e viver o amor gratuito impede as pessoas de amar, ser amadas e, sobretudo, deixarem-se amar. Muitas passam a existência tentando provar aos pais e aos outros que são merecedores de seu amor.

Os católicos sabem que suas dívidas com Deus e com a vida seriam impagáveis. A parábola de Jesus sobre o credor implacável, bem no estilo do profeta Jeremias, vai totalmente nesse sentido. Ela encerra de forma sublima todo seu ensinamento no evangelho de Mateus, sobre a temática do perdão (Mt 18, 21-35). Perdoar uns aos outros e perdoar si mesmo.

Quem caminha com Jesus na Igreja católica, descobre que o estar juntos, sob o mesmo jugo, não é uma condenação a trabalhos forçados. Esse jugo é leve e o fardo a ser carregado é suave (Mt 11, 28-30). Pequenos, humildes e abatidos encontram nas comunidades católicas a tolerância e o estímulo para prosseguir, juntos. Quem se submete a Deus no coração, os mansos, são doces de coração e alma com o próximo. Ouvir a voz da consciência, reconhece-la e segui-la é obedecer para os católicos. Doçura, mansidão não é fraqueza, nem moleza. É o rigor e a misericórdia simultaneamente. Uma obrigação de ferro numa relação de veludo.

A humildade é o caminho da doçura. Como ouvir sem humildade? Como obedecer sem a escuta Dele, no coração da humildade? Humilde em hebraico significa curvado. Quem se curva, como os servidores e servos, se aproxima da terra. O humilde se aproxima do húmus. E lembra sua proximidade com o pó. Volta-se à terra-origem. Ao pó te voltarás (Gn 3,19).

Os católicos não seguem Jesus. Eles O acompanham e são acompanhados por Ele, como sujeitos e não como assujeitados. Só a certeza de um amor gratuito traz essa liberdade de caminhar e viver. O resto seria acumular dívidas impagáveis (Mt 18, 23-25). Talvez por isso, eles dizem: Deus lhe pague.

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