DIANTE DE NÓS


(1/7/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

Oremos!

Esse convite ou chamado do celebrante é bastante freqüente durante a liturgia. Antes do Concílio Vaticano II a fórmula era um pouco diferente. Em primeiro lugar, o padre convidava as pessoas a colocarem-se diante de si mesmas. Depois de um instante de silêncio reflexivo, o celebrante as convidava a colocarem-se diante de Deus. E após um novo período de silêncio e meditação, aí sim, e só então, o sacerdote dizia: Oremos!

Hoje parte-se para a oração como se todos estivessem conectados com o sagrado em permanência. Não há como orar, rezar ou meditar sem colocar-se diante de Deus, sem antes colocar-se diante de si. Já dizia a doutora da Igreja, Santa Teresa d’Ávila: “Pensar que hemos de entrar en el cielo, sin entrar em nosotros, es desatino”.

Como conectar-se com Deus? O que significa a palavra Deus? Muitos têm a resposta na ponta da língua. Por mais elaborada que seja, ficará infinitamente aquém dessa realidade indizível, inimaginável e incompreensível. Para a tradição judaica, o nome de Deus, IHVI, é impronunciável. Mesmo a palavra D-us, é escrita com uma ablação. E não tomar seu Santo Nome em vão é um mandamento sagrado.

A palavra Deus pode ser encontrada nos dicionários e é, sem dúvida, a mais prestigiosa e carregada de sentido de todas as palavras de uma língua, como dizia E. Levinas. Para os cristãos, esse Deus amoroso revelou-se como Pai na encarnação de seu Filho, Jesus Cristo. Para os místicos só existe uma maneira, e simples, de saber o que significa Deus: isso é possível quando nos colocamos em oração.

Na oração, Deus é esse interlocutor invisível e silencioso a que nós nos dirigimos para saber quem nós somos e para nos tornarmos o que devemos ser. Esse é o caminho da mística e da verdadeira vida espiritual.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Diante de Nós. A Tribuna, Campinas – SP, p. 13 – 13, 2011.

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