DEUS NÃO CRIOU A MULHER


(21/12/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

No primeiro relato da criação não está escrito que Deus tenha criado o homem e nem a mulher. Na sinfonia do livro do Gênesis, a palavra homem – no sentido daquele que acompanha a mulher – não aparece no princípio do texto, mas bem mais tarde. A ordem, a hora e o lugar em que as palavras surgem no texto bíblico são fundamentais. Mesmo assim, muitos tradutores aventuram-se a introduzir palavras antes da hora e do lugar, seguindo suas intuições subjetivas. Ao longo dos sete dias desse mito fundador – cheio de harmonias secretas -, a palavra criadora de Deus faz surgir o universo do nada. O universo não é eterno, mas criado! Menos eterno ainda, é o sonho das nações, dos reis, dos poderosos e de seus ídolos. Revolucionária por excelência, a idéia da criação lança a discussão sobre o efêmero destino das culturas e civilizações humanas, de suas religiões e seus sistemas políticos. Só Deus é eterno, proclama o Gênesis.

Nesse texto, o Nós divino diz: “Façamos o Adâm – o Terroso – à nossa imagem (ou réplica), segundo a nossa semelhança”. A partir de Sua palavra, a palavra criadora, Ele cria – do nada – o terroso, o humano, como macho e fêmea, no sexto dia da criação. Mas não os cria como homem e mulher. Em hebraico, as palavras homem (ish) e mulher (isha) são muito diferenciadas do termo genérico Adâm, o terroso. Deus cria o humano, mas o homem e a mulher estão ausentes desse primeiro relato (Gn 1 e 2,1-4).

O segundo relato criacionista do Gênesis, consecutivo ao primeiro, evoca o paraíso terrestre e os primórdios da humanidade no jardim do Éden. A narrativa lembra e relê as poesias épicas imemoriais, presentes na literatura de outras civilizações orientais. Este relato polissêmico, que inspira místicos, esotéricos e crentes, não está estruturado no tempo – ao longo de uma semana – como o anterior. As coisas acontecem no espaço, dentro e fora do jardim do Éden. Desta vez, Deus não cria o homem pela palavra mas o faz a partir de materiais da criação, como nos mitos criacionistas indígenas, babilônicos e mediterrânicos. Como o deus oleiro do Egito, Hnum, Deus modela o terroso (Adâm) do pó da terra úmida (adama), insufla em suas narinas um hálito de vida e o põe no jardim do Éden para servi-lo e guardá-lo, sem uma menção às palavras homem e mulher.

Deus necessita do humano pois, ao plantá-lo no Éden, pede ao terroso que nomeie e clame nomes para todas feras e animais. Deus quer ver como, ele os nomeará. A palavra é, não somente um meio de comunicação, mas uma forma de conhecer a criação e de re-conhecer a obra do Criador, de criar uma língua e uma linguagem. Mas o terroso não encontrará em toda a criação um só ser falante. Nenhuma criatura lhe fala na profundidade de seu ser. Nenhuma criatura revela-se suficiente e adequada ao ser do humano. Ao ver o terroso sem auxiliar contra ele (textualmente), o que faz Deus? Cria pela palavra um auxiliar ou molda mais um ser a partir do pó da terra?

Nem uma, nem outra. Não será a partir do nada, nem da criação, que Ele vai agir, mas a partir da criatura, do humano mesmo! Deus faz descer um torpor sobre o terroso. Ele adormece. A psicanálise, desde Freud, ensina: o homem ao dormir deseja e parte em busca do que deseja. O terroso no sono, no torpor, no êxtase (extasis na versão grega do texto), parte em busca do outro: o que fala, o que falta. O humano andrógino, necessitado, dorme pela primeira vez no relato bíblico. E o faz em situação de desejo. E é desse êxtase, desse sono, dessa inconsciência, desse desconhecimento, da noite, do repouso, do não saber-querer-poder que virá o ser falante, como destaca a psicanalista M. Balmary.

Esse desejo do humano merece reflexão à luz da psicologia moderna. Seria um desejo sexual? A mulher é o objeto do desejo erótico do terroso? O texto não diz que ela seja um sonho do terroso e nem sequer que ele sonhe. Como sonhar algo que ele nunca vira? Uma interpretação da tradição diz que o terroso manteve relações sexuais com todos animais e não encontrou sua felicidade. A mulher viria então como um desejo sexual. Porém, uma análise mais atenta aponta outra verdade: a mulher vem de um desejo muito mais profundo do terroso. Ela não surge como um objeto externo, mas como parte de sua interioridade. Deus modela uma costela ou um lado (a palavra é a mesma em hebraico), tomada do terroso, em mulher. E aqui aparece, pela primeira vez, a palavra mulher (isha). Isso ocorre bem antes do homem – de quem ela procede e por quem é desejada – ser nomeado como tal.

Eles estarão doravante lado a lado. É assim que Deus os posiciona, ao diferenciá-los em homem e mulher. Essa é uma das tradicionais interpretações rabínicas sobre a mulher tomada do lado do homem. É ai que ele a deseja, do seu lado, como uma igual diante do Outro. Nem acima, nem abaixo. A mulher não vem, tampouco, do “lado” mental do terroso. Ela vem de sua interioridade.

Ao ver a mulher pela primeira vez, o terroso, também pela primeira vez, falará. Ele fala e se diz homem. Surge enfim a palavra homem (ish), depois da mulher ter sido duas vezes designada. Deus a faz vir junto ao terroso. O terroso (desperto!) diz:

“Esta aqui, esta vez, é osso de meus ossos,

carne da minha carne,

a esta será clamado mulher (isha):

sim, do homem (ish) esta aqui foi tirada” (Gn 2, 22-23).

Adão não diz ao ver Deus: eis àquele de quem sou imagem.

É na mulher que ele se reconhece e não no Criador.

Mais do que semelhança, mas como construída fora dele, tirada.

A mulher não é uma extensão do homem, nem um pedaço dele, mas foi edificada, fora dele, pela mão de Deus. No texto, o terroso foi modelado enquanto a mulher é edificada pelo Criador. Dois verbos bem diferentes em hebraico.

Nesse sentido, Deus não criou o homem e a mulher. Apresentou um ao outro, em igualdade. Juntos, masculino e feminino, eles se colocam, sem empalidecer, diante do Outro. Eles não tiveram nem pai nem mãe, e parodoxalmente deles será dito, em conclusão: “Por isso o homem abandona seu pai e sua mãe”. Desenvolver-se significa sair dos envolvimentos. E um dos principais envolvimentos a ser superado é o da família. A família como uma placenta que não serve para mais nada, lugar de animalidade e de servidão, deve ser abandonada pelo homem e mulher em busca de sua humanidade. O Cristo vai repeti-lo com insistência. E o texto prossegue “ele se une a sua mulher e eles são numa só carne” (Gn 2,25). E eles o serão, realmente. Como? Na fusão ilusória de um devorar mútuo na paixão? Num querer estabelecer-se no lugar do outro, possuindo-o pela palavra e pela matéria?

Não. Eles serão uma só carne na criança. A criança, ternária por excelência, é destruidora de qualquer ideia ou imagem do casal como unidade fusional possessiva. O filho é o vértice de uma nova trindade, ampliadora da dualidade do nós do casal. Eles não serão em si uma só carne, mas eles o serão para uma só carne. Filial ou alheia, na relação amorosa com o próximo. E, na relação, homens e mulheres, poderão descobrir o significado do Outrem.

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