DEUS CRIA, O HUMANO PROCRIA

(16/9/1997)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Nunca os pais consumiram tanta psicologia como nos dias de hoje. Os pais entendem que agem e devem agir materialmente, socialmente e psicologicamente sobre os filhos. Não há dúvida que o interesse das famílias pelo futuro dos filhos é fundamental. Mas nessa selva de conselhos e preocupações, problemas e desafios, a árvore pode esconder a floresta.

Qual a possibilidade real dos pais refletirem e agirem simbolicamente sobre os filhos? Essa dimensão da ação familiar vem sendo perdida. Isso começa quando pais católicos abdicam, por exemplo, de dar o sacramento do batismo a seus filhos. E eles prosseguem por um itinerário onde os atos objetivos, eficientes e concretos ocupam o lugar das ações simbólicas, poéticas e espirituais. Para os cristãos, os desafios da criação dos filhos e da vida familiar exigem mais do que energias materiais e psicológicas. Exigem uma ação simbólica e espiritual dos pais sobre os filhos e na família.

A criança não só deve ser portadora de um projeto familiar, como é o resultado desse projeto. Mas que projeto é esse? Ou ainda, qual deveria ser esse projeto? Para ajudar a responder essas perguntas são muitos textos fundadores e arquetípicos existentes na bíblia. Uma reflexão resumida e talvez esclarecedora sobre as relações existentes entre o criar e o procriar, entre o criar divino e o procriar humano está no livro do Gênesis.

Criar pela metade

O livro do Gênesis oferece relatos da criação do humano, da criatura pelo Divino, pelo Incriado e de sua posterior procriação. “Façamos o humano à nossa imagem, segundo a nossa semelhança… Deus criou o humano à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou; criou-os macho e fêmea. Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos e prolíficos…” (Gn 1,26-28). O relato do Gênesis parece anunciar um paradoxo ou até um sacrilégio: como podemos ser imagem e semelhança de Deus ao mesmo tempo? Na realidade somos criados como imagem e incriados como semelhança.

Os padres da Igreja já interpretavam assim esse texto polissêmico: fomos criados a imagem de Deus, a nós de nos tornarmos sua semelhança. Somos os autores de nós mesmos. Deus não criou o humano como um objeto acabado, mas como um sujeito. O Incriado nos criou pela metade. A nós, na nossa liberdade de filhos de Deus, de fazer o resto. Deus criou-nos o menos possível para permitir-nos de advir. Para que nós sejamos nele, é necessário que ele nos faça nele, o Nós divino. Mas para que nós sejamos como Ele, Ele não deve nos fazer completamente. Talvez nisso resida um dos maiores conflitos: o Criador não cria totalmente e a criatura deseja fazê-lo.

Os pais são tentados a criar os filhos totalmente. Querem definir suas vidas, seus estudos, sua carreira, sua herança, suas amizades e até seus casamentos. É impressionante esse desejo dos pais de criar totalmente – fazendo dos filhos um objeto – enquanto Deus, arquetipicamente, cria pela metade. Esse desejo equivocado de entender os filhos como produção e propriedade do casal é amplamente trabalhado em todo o texto bíblico.

 

Primeira procriação

Ao ato de criação divino deveria corresponder o ato da procriação do humano. A primeira procriação do casal Adão e Eva, a do Caim e do Abel, será uma antítese da criação e levará à morte (Gn 4,1). Um elo possível entre todos os textos sobre pais e filhos, do começo ao fim da Bíblia, seria o seguinte: Deus interpela o homem para achar o seu lugar. Não o lugar sonhado por seus pais, proposto pelos melhores amigos, desejado pelos inimigos, ensinado nas escolas ou imposto pela sociedade. O lugar único de cada um começa a se definir na família, qualquer que esta seja. É um longo e complexo caminhar do eu para o Eu, do Eu para o Tu e de ambos para o Nós.

A maioria dos pais possessivos acredita que têm filhos. “Eu tenho duas filhas.” “Eu tenho três filhos.” Enquanto as crianças são pequenas a relação com elas não é de verdadeira filiação, mas de produção e posse. Comportamo-nos como Eva ao ter seu primeiro filho Caim. Um filho não nomeado, nem abençoado pela mãe. Um filho sem pai. O texto bíblico anuncia seu nome: Caim, que vem do hebraico Qaniti e significa “Eu adquiri, eu obtive”, ou seja, a própria anulação do nascimento por um ato de posse.

Ao negar a um filho o seu lugar, ao deslocá-lo, nominalmente, os pais o lançam numa dinâmica em que ele buscará, quase sempre, o lugar de outro. Essa tentativa de ocupar o lugar do outro (do pai, do irmão, da mãe…), como sendo o seu lugar, é um equívoco de pesadas consequências. Quantos Abéis não morreram e morrerão… Para muitos, uma criança é o produto de dois seres humanos que a fizeram e a possuem. Dentro dessa lógica o lugar dos filhos será sempre a casa dos pais, o espaço dos pais. Mesmo quando os pais não se comportam como tiranos e buscam para o filho o melhor que podem, trabalham com uma imagem ideal da criança, sempre distante de sua própria verdade.

Paradoxalmente em muitos casos, quanto mais os pais se aprofundam em psicologia infantil, em doutrinas pedagógicas, educacionais e até religiosas, talvez – mais ainda – essa imagem se torna idealizada. Mas um dia o filho que aprende, que compreende, faz algo a mais: ele surpreende. O filho muda de lugar para assumir o seu lugar. Foi o que sucedeu com Jesus, conforme conta Lucas em seu evangelho (Lc 2,41-52).

 

Segunda procriação

A segunda procriação, a do Set, Shet e posteriormente a do Enoque, Enosh, será imagem e semelhança do ato do Incriado, e levará à vida (Gn 4,25-26; 5,3). O quadro anexo faz uma comparação dos principais atos simbólicos e espirituais envolvendo a criação e a procriação, o criar divino e o procriar humano. São muitos pontos a serem comparados. Nem todos cabem neste artigo. Mas, ao contrário da primeira procriação, em que o homem penetrava Eva, agora é o Adão quem conhece sua mulher.

O filho será nomeado pelos dois no texto bíblico e não apenas por Eva. Será gerado à semelhança e à imagem de Adão (Gn 5,3), como filho. Inserido na filiação e na cadeia de ascendentes familiares. Shet será fértil e terá descendência. “Também a Shet nasceu um filho a quem deu o nome de Enosh. Foi a partir de então que se começou a invocar o nome do Senhor (YHWH)” (Gn 4, 26). Para o livro do Êxodo, o nome de Deus não fora revelado antes da época de Moisés (Ex 3,14 e 6,2). Entretanto, quando o ato da procriação do humano se assemelha ao ato divino, o nome do Senhor é revelado e passa a ser invocado.

As comparações desses três relatos, em paralelo, são densas de reflexões sobre as relações da família, através da procriação e criação de seus filhos. O projeto familiar de criação é de consagração ou de profanação? Aí se encontra, aliás, a origem etimológica da palavra criança.

Unir ou penetrar?

Ao casal humano Deus havia determinado: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá (davaq) à sua mulher e eles serão numa só carne” (Gn 2,24). Em hebraico o verbo conhecer, penetrar, é iada. Ele comporta uma idéia de unilateralidade. Um sujeito ativo e um objeto passivo. Eu conheço, eu penetro. Há algo de negativo nessa forma de relacionar-se. É como em português, quando dizemos, em tom de crítica negativa: – Eu te conheço! O Adão penetrou a Eva, como tantos outros homens suas mulheres.

Os casais da bíblia são em sua maioria um desastre: Adão e Eva, Noé e sua mulher sem nome, incapaz de cobrir sua nudez, Abrão que entrega sua mulher estéril ao faraó como um proxeneta, Rebeca enganando Isaac… A palavra de Deus ao casal humano não era penetrar, era outra: unir-se (Gn 2,24). O verbo unir, davaq em hebraico, evoca claramente a reciprocidade, o consentimento mútuo, como duas peças coladas e unidas. É a esse chamado, a esse mandamento que a família é convidada responder. Unir-se numa só carne. Não num processo fusional, de perda de identidade do pai e da mãe, mas ser para uma só carne, para o filho, no filho. Não é fácil. Nunca foi.

Talvez o primeiro casal bíblico que realizará, pela primeira vez em plenitude, esse mandamento primordial, anterior a toda a lei e a qualquer legislação, será José e Maria. Esse casal é o paradigma dos que se unem pelo filho, pela filha; dos que sabem retirar-se diante do crescimento dos filhos; dos que agem simbólica e espiritualmente sobre sua progenitura. Pra José e Maria não se tratava de penetrar, de conhecer, mas da união. União sagrada que preserva a identidade de cada um e a coloca ao serviço da vida, do outro e do Outrem.

Deus só celebra sua aliança com seres separados, diferenciados, com identidade e não fundidos ou confundidos. O papa João Paulo II, no encerramento do Congresso Pastoral Teológico no Rio de Janeiro, em outubro de 1997, disse algo de uma profundidade impressionante: “O homem é a via da Igreja. E a família é a expressão primordial desta via. Como escrevia na Carta às Famílias. “o mistério da encarnação do verbo está em estreita relação com a família humana”. Não apenas com uma, a de Nazaré, mas de certa forma com cada família…”

É como dizer que a cada vez que o humano concebe, procria, Deus desce de novo à Terra. Ao assumir a realidade humana, Jesus Cristo a divinizou. A família cristã participa, de forma extra-ordinária, desse Mistério: ao procriar, ao criar, ao agir espiritualmente sobre os filhos, ao educar.

QUADRO COMPARATIVO SOBRE OS ELEMENTOS SIMBÓLICOS E ESPIRITUAIS NO RELATO DA CRIAÇÃO E PROCRIAÇÃO DO GÊNESIS

 CRIAÇÃO 1ª. PROCRIAÇÃO 2ª. PROCRIAÇÃO
Criação

Gn 1,26 e 5,1

Primeira procriação Gn 4,1. Caim e Abel Segunda procriação Gn 4,25-26 e 5,3. Set, Shet (e depois Enoque, Enosh)
Nós faremos (emprego raríssimo 3,22; 11,7; Is 6,8) Eu Nós
Palavra criadora O homem penetrou Hava Adâm conheceu sua mulher
Abençoado Filho não nomeado Filho nomeado (Hava e Adâm)
À nossa réplica, imagem, zelem, zel = sombra, mas também proteção. Eu adquiri (qana), eu obtive Ter, possuir (Dt 32,6; Sl 139,13; Pr 8,22) “Elohim me deu outra semente.”Dom
Segundo nossa semelhança, demout, dam = sangue, Adâm, terra vermelha, como o sangue. Qaîn (comprado, obtido, conseguido, de qanit, como a palavra Caná, das bodas na Galileia) Shét (essa descendência é fruto da gratuidade divina)
Filho não situado Filho situado
Frutificai, Abel, Hèbél (névoa, fumaça , hálito) Inconsistência, fraqueza, ), vaidade (Ecl 1,1).Morto, ele se esvairá, sem deixar marcas, nem progenitura. Set, Shét também dá à luz um filho (nomeado, situado e sinalizado, com ascendentes. Set é fértil e gera uma descendência)Cadeia das gerações
Multiplicai Dois mal gerados Nomeia o filho (Enosh)
À nossa réplica (sombra), segundo nossa semelhança (sangue)

Sem imagem

Sem semelhança

(produção independente)

Adâm gera à sua semelhança (sangue), segundo sua réplica (sombra). Ordem invertida.

O Incriado gera o incriado Filho como objeto acabado, criatura, produto. O criado pode tornar-se semelhança.
O Incriado não pode morrer Criatura morta e amaldiçoada Criatura imortal (cadeia de gerações, eile toldot, Eis as gerações) e abençoada.
Sábado: dia da incriação. Sem invocação, sem vocação, sem contemplação = profanação. O nome IHWH é revelado e começa a ser invocado, clamado. Consagração. Dia do Senhor.

 

 

 

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