DEIXAR O BARCO


(27/6/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

Não é fácil vencer a força da gravidade. Um dos episódios mais impressionantes dos evangelhos, contra todas as leis da física, ocorreu no mar da Galiléia. Ali, uma pedra lançada sobre as águas, rolou e flutuou. Todos conhecem a passagem sobre a tempestade. Marcos relata como o convite de Jesus, para que passassem à outra margem, se transformou num pesadelo (Mc 4, 35-41). Em meio a tempestade, Jesus dormia na almofada. Foi despertado por homens angustiados, pedindo por suas vidas. Ele acalma vento, mar, corações agitados e trata seus adeptos de homens de pouca fé. Certa vez, perguntaram à noviça Teresinha do Menino Jesus porque nunca pedia nada para Deus em suas orações, enquanto outros pediam por doenças, dificuldades financeiras, profissionais etc. Seria falta de fé no poder de Jesus? Sua resposta foi simples: – Ele veio dormir no meu barco. Eu não vou acordá-lo.

Como a carmelita Santa Teresinha, o lago de Genezaré ou mar da Galiléia é um caso a parte. Ele fica a 200 m abaixo do nível do mar e é cercado por colinas e pelos contrafortes das montanhas da Síria e do Líbano. Os árabes o chamam de Ain Allah, o olho de Deus. Os hebreus de Iam Kineret, o mar da Lira. Sua forma é quase um círculo. É tranqüilo, mas de repente pode mudar completamente. No verão, uma sucessão de dias ensolarados gera uma zona de baixa pressão. Subitamente, os ventos caem quase verticalmente sobre a superfície da água, provocando ondas e impedindo a navegação. Elas chocam-se com as margens e entram em ressonância, como numa bacia, indo e vindo. São tempestades sem chuva e de muito vento. Igualadas as pressões, assim como começou, essa tempestade desaparece.

Ao saber da prisão de seu primo João, Jesus deixa Nazaré e se estabelece em Cafarnaum, Kfar Naum, o vilarejo do Naum, à beira-mar, mar da Galiléia. O vilarejo do Naum era um pequeno porto na margem noroeste, a quatro quilômetros a oeste da foz do Jordão, no antigo território de Naftali (Mt 4,14-15). Lá, Jesus estabeleceu o centro de suas atividades na Galiléia (Mt 9,1). Escavações arqueológicas revelaram ali uma das mais belas sinagogas de Israel, do século III da era cristã. Também foram descobertas as fundações de uma sinagoga do século I, uma daquelas em que Jesus pregou (Mc 6).

Jesus navegou e percorreu as margens desse lago em todos os sentidos: a sós, com sua mãe, irmãos, discípulos ou seguido por multidões. Certa vez, após multiplicar pães e peixes, Jesus envia seus adeptos de barco, para o outro lado do lago, enquanto despede-se da multidão. São doze quilômetros de água doce. Ele prometeu alcançá-los mais tarde. E subiu a sós numa colina para orar. No meio do mar, a barca de Pedro enfrentou ondas e vento contrário. Como a Igreja, ao longo da história, em seus melhores momentos (Mt 14, 22-24). No final da noite, Jesus vai em direção à barca, caminhando sobre o mar, vencendo a força da gravidade. Face ao susto e à perturbação dos discípulos, imaginando um fantasma, Jesus pronuncia algo impensável aos judeus. “Coragem, não estremeçais. Eu sou!” Esse “Eu sou”, Ego eimi, retoma o nome impronunciável de Deus e é uma das marcas do evangelho de João. O mais inimaginável estava por vir. Todos calam-se. Menos um.

Pedro, a pedra, indaga: “Adon, Senhor, se és tu, manda-me ir em tua direção sobre as águas”. Ele diz a Pedro: – Vem! Pedro desce do barco, anda sobre as águas e vai em direção a Jesus. Os outros apóstolos nada dizem, nada indagam e nada fazem. São prudentes e não aderem. As águas revoltas não assustam o Pedro pescador. À vista da violência do vento, do ruah, do hálito, do espírito, Pedro estremece e a pedra começa a afundar. Ele não afunda, tchibum! Não. Ele começa a afundar e clama: “Adon, salva-me”. Jesus lhe estende a mão, o agarra e lhe diz (textualmente): “Anão da adesão! Por que duvidas?” Eles sobem no barco e o vento cessa (Mt 14, 27-32).

O mar não é somente um lugar concreto mas o símbolo da situação humana em geral. Enquanto os outros discípulos ficam imóveis, Pedro fala e age. Seu gesto de deixar o barco e caminhar sobre as águas, sob a palavra de Jesus, é um dos mais extraordinários de todo evangelho. E diz muito sobre o ânimo de Pedro. Isso espera-se dos pastores, dos chamados a cuidar das ovelhas de Israel: a confiança absoluta na palavra do Senhor, a coragem para sair, mudar, inovar e caminhar sobre as águas. Não basta avançar para águas mais profundas. É preciso caminhar sobre elas! Não basta ouvir o canto dos pássaros, é preciso entender a letra, dizia Francisco de Assis.

O imobilismo de lideranças comunitárias e eclesiais, assustadas frente às ondas deste mundo, refugiadas e enclausuradas no passado, leva ao naufrágio. Só recebe a mão estendida do Senhor, quem ousa, saindo do ordinário. Quando o vento violento levou Pedro ao medo, Jesus o agarrou e de mão dadas ou abraçados, voltaram juntos para o barco. Ao chamado de Jesus, por mais absurdo e improvável que pareça, não tenha medo de deixar o barco. Não tema a noite, nem os ventos. Às trevas da criatura responde a Noite da Transcendência, ensinava São João da Cruz, outro santo carmelita, outro especialista em desafiar as forças da gravidade. Pode deixar o barco familiar e entrar no Carmelo; deixar a carreira e abraçar o sacerdócio; deixar o certo pelo improvável; a mansão pela Toca; deixar tudo… pelo Absoluto.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Deixar o Barco. A Tribuna, Campinas – SP, v. 95, p. 8 – 9, 2004.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Deixar o Barco. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 5, p. 1 – 2, 2004.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *