DE QUE VALE A ÉTICA?


(8/12/1992)

Evaristo Eduardo de Miranda

Desde o impedimento do ex-presidente Collor, passando pelo escândalo dos deputados manipuladores do Orçamento e pela crise atual dos Precatórios, envolvendo senadores, governadores e prefeitos, ética na política e moralização dos homens públicos não sai da ordem do dia. Mas o que vale essa tão evocada ética?

É verdade que todos crescem interiormente com eventos onde a Nação passa a limpo os atos sistemáticos de corrupção e tenta moralizar um parlamento transformado em banca de negociatas. A visualização da possibilidade de uma moralização da política e dos homens entre si é animadora. O país e a Igreja mobilizaram-se muitas vezes exigindo a ética na política. Agora, com a chegada da Páscoa, sempre rica em evocações e promessas de novos começos, cabe indagar: qual a importância da ética numa perspectiva cristã? Talvez ela valha pouco, muito pouco, diante da mensagem pascal. Jesus Cristo é realmente uma fantástica superação da ética e da moral.

Nesse entendimento parece pertinente a lembrança da unidade e do confronto entre as mensagens de João Batista e Jesus. O precursor do Cristo anunciava aos homens o castigo que estava para vir. “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (Lc 3,7) Promovia um batismo de penitência. Que os homens endireitassem seus caminhos e refizessem suas vidas! A mensagem de João, como a dos profetas desde Amós, sinalizava catástrofes eminentes como forma de ajudar os homens a rever sua conduta. A pregação de João era profundamente ética e moral. Ela mostrava a possibilidade da liberdade e da responsabilidade, irredutíveis em cada indivíduo, independentemente das tramas e teias sociais e culturais. Liberdade para acertar sua vida e se reconciliar consigo e com os outros.

João respondia, como um líder de um movimento utópico, a pergunta de um povo que, como o nosso, se indagava o que fazer? (Lc 3,10). A resposta era simples: que ninguém tenha mais do que o que realmente necessita. “Quem tiver duas túnicas, divida uma com o irmão que não tem (Lc 3,10)”. Nada exigir além do fixado. Aos publicanos recomendava nada cobrar além do estipulado (Lc 3,12). Já que não é possível se por fim a desumanidade da violência social, sem recorrer a uma nova violência, que ninguém pelo menos, agregue inutilmente mais violência para seu lucro e proveito. Já seria muito e o mundo seria muito melhor se os homens tivessem essa conduta, como analisa o teólogo Drewermann. Aos soldados a mensagem é a mesma. Não maltratar ninguém. Se contentar do soldo. Não pede aos publicanos que deixem de cobrar impostos, nem aos soldados que abandonem o uniforme, mas que se limitem a uma conduta ética. Haveria tanto a dizer sobre o quanto nosso país ganharia se as pessoas, apesar de nossas limitações e impossibilidades imediatas de mudar as estruturas sociais e econômicas, tivessem essa conduta ética e moral.

Dentro dessa lógica João via a chegada do Messias como um julgamento decisivo: “Já está posto o machado a raiz das árvores; toda a árvore que não produz bom fruto será lançada ao fogo” (Lc 3,9). Ou ainda: “A sua pá ele a tem na mão para limpar completamente a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; porém queimará a palha em fogo inextinguível” (Lc 3,17). Como na época de Noé, João anuncia a possibilidade de salvação pela água, por um batismo de penitência, sepultador dos pecados. Um pouco como nas igrejas pentecostais de hoje. Elas trazem uma forte mensagem de conduta ética e moral e ensinam aos seus fiéis como viver. Elas estabelecem para as pessoas leis e regras de conduta que vão desde não cortar os cabelos, ao comprimento da saia, etc…

João ensinava como se deve viver. Jesus anunciou do que se pode viver. Para Jesus não se trata mais da problemática ética da vida mas sim da sua dimensão religiosa. Um abismo de conversão e chamado separa essas duas mensagens. Para João o homem pode se redimir pelos seus atos. A parábola de Jesus sobre o credor impiedoso (Mt 18,23-35) mostra o contrário. Nós somos todos devedores diante de Deus. Nada, mas absolutamente nada do que nós façamos, pode apagar nossa dívida diante de Deus. A mensagem de Jesus não se acomoda com o otimismo ético de João. O Natal traz essa chamada para superarmos o contágio desse otimismo ético atual, cuja eficácia já começa decepcionar nos novos dirigentes da Nação, e descobrirmos a dimensão religiosa em nossas vidas.

Para nossa sorte Deus é muito mais do que justo e ético. Ele acompanha com incomparável paciência e longanimidade a história humana, sem novos dilúvios, sem batismos exterminadores, sem machado nas raízes. Ai de nós se Deus fosse justo conosco! Jesus nos veio com a palavra viva do perdão e da bondade de Deus. Na mão ele não trouxe a pá para separar a palha, mas a estendeu aberta num gesto de misericórdia (Mc 2,17), acima da lei, da ética ou da moral. Para Jesus o princípio da moral parece se destruir dele mesmo. A concepção moral coloca o indivíduo a seu serviço. Toda transgressão exige um justo castigo. Esse sistema só gera injustiças pois no fundo se limita ao comportamento exterior das pessoas. Ignora o entrelaçamento entre bem e mal, inventa uma repartição abstrata entre pretensos bons e maus, exige do indivíduo uma subordinação a lei geral, violenta sua complexa psicologia interior, gera neuroses e psicopatias. Deus nos quer inteiros. Nos ama como somos. Com nossos lados claros e escuros. “Jesus se compraz em apontar-me o único caminho (…) o abandono da criancinha que adormece sem temor nos braços de seu pai…” (Santa Teresinha do Menino Jesus).

Jesus une a demanda e a oferta até na oração: “Perdoa as nossas dívidas assim como nós perdoamos nossos devedores” (Mt 6,12; Lc 11,4). Drewermann analisa que o Deus de Jesus Cristo não deseja nem exige sacrifícios. Ele quer que nós vivamos uma vida de felicidade, oração, capacidade de encontro e compreensão de todos, sem fundamentos em interesses de poder, de dinheiro, de egoísmos de indivíduos ou grupos isolados. E quanto à obediência, tão exigida em determinados comportamentos éticos e morais, ficará para sempre válida aquela que Pedro aprendeu através do desastre da Sexta-feira Santa: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5,29).

Ao contrario de João, Jesus deseja a alegria em volta de si e não a penitência, a mortificação ou a negação de si próprio. “Porque jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas os teus não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles?” (Mc 2,18-19). João chegou a duvidar que se tratasse do Messias (Mt 11,1-19).

O parentesco e a proximidade de João e Jesus, que se encontraram antes do nascimento na visita de Maria a Isabel e tiveram morte análoga, são de uma grande riqueza de ensinamentos nas suas semelhanças e diferenças. Muitos exegetas históricos vêem nesse episódio uma conciliação entre os discípulos de João e os de Jesus. São muitos os textos dos Evangelhos que mostram a tensão existente entre os dois grupos e até a dúvida de João na prisão. A visita de Maria a Isabel marcaria o reconhecimento da primogenitura de João e simultaneamente seu reconhecimento e louvor a Jesus como o Filho de Deus, antes mesmo do seu nascimento. “Logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança saltou de alegria em meu ventre” (Lc 1,44). Foram necessários um ao outro. Mas o Batista é ainda a lei enquanto o Cristo é o perdão e a bondade. João é a ética. Jesus é a religião. Jesus vem como médico para os doentes (Mc 2,7) e se preocupa mais da ovelha perdida do que das noventa e nove que não necessitam de conversão (Lc 15,7).

Como cristãos e católicos, talvez possamos lembrar-nos do quanto necessitamos de uma vida religiosa, bem além da ética. A ética é sempre uma religião da lei, por melhor que ela seja. Jesus traz a reconciliação e a unidade entre o dever e a liberdade, entre o ideal e a realidade, entre a lei e a graça. Talvez o que os moralistas chamaram de mal nada mais é do que a realidade das coisas. Que o nosso povo e que cada um de nós não seja escravo de regras e leis, por mais éticas e morais que nos pareçam, mas que vivamos a Vida plena da verdadeira religião.

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