DE MÃO EM MÃO


(30/1/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Em terras espanholas, a luz da vida custou a iluminar o bebe Gabriel Galache. O parto foi difícil. Diante da criança em eminência de morte, uma tia sai apressada, traz água na palma da mão, derrama sobre a cabeça do bebê e pronuncia: – Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

A coragem e a esperança dessa tia, muitos pais de hoje em dia já perderam. Na palma de sua mão, aquela água transformou-se na mesma que um dia brotou do flanco direito de Jesus crucificado. A cada criança abençoada e batizada, a Igreja lhe comunica a Graça e a Vida e diz: Você começou a nascer! E o Gabriel começou mesmo, milagrosamente, a nascer. E a viver. E a crescer. E a encantar. E a amar. E a abençoar. E a batizar. E a transformar. Suas mãos davam forma e destino aos sonhos do seu coração.

Em terras brasileiras, na última sexta feira de janeiro, as mãos de um bispo, sessenta sacerdotes e um leigo orvalharam o corpo incensado do padre Gabriel Galache com a água benta do batismo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. No rito da encomendação, ao estender a mão para abençoar o corpo, a Igreja proclama: o irmão defunto acabou de nascer!

E as mãos de centenas de pessoas – irmãos jesuítas, amigos, admiradores, colegas de trabalho e cristãos presentes a Itaici em retiro espiritual – abençoaram e entregaram o padre Galache nas mãos de Deus. Era o dia do seu verdadeiro nascimento. Com o carinho de quem carrega um recém-nascido nos braços, as mãos de funcionários da Editora Loyola levaram o corpo para o sepultamento, enquanto as mãos de todos saudavam, em repetidos aplausos. Era a misteriosa festa de sua definitiva iluminação.

Há anos como ministro de exéquias, num cemitério pobre de Campinas, já tive a ocasião de encomendar a Deus o corpo de muitos irmãos falecidos, nas mais diversas idades e circunstâncias. Nunca vivi situação tão especial como quando me ofereceram a honra de encomendar o corpo do padre Galache. Em hebraico, a palavra honra (cavod) tem a mesma raiz de pesar ou fardo (caved). Quem tem a honra, tem o fardo.

Eu não tenho a menor dúvida: o padre Galache figurava entre a dúzia de pessoas que mais me amam nesta Terra, para não dizer mais. Há quase quatro anos vivíamos um encantamento amoroso, repleto de surpresas espirituais, confidências e confissões, frutificando em publicações e iniciativas pastorais. Foram momentos de rara intensidade, principalmente durante meus cursos sobre batismo e exéquias, ministrados aos sábados na Loyola, sob sua inspiração e animação.

Após o enterro as pessoas me diziam (e repetiam) frases e palavras sobre o amor que nos unia. Esse amor ainda nos une. Agora mais do que nunca. E a vida e a morte desse sacerdote nos une a todos, ainda mais, na comunhão dos santos. Devemos unir as mãos e dar continuidade a seus sonhos e projetos, com as cores de nossas almas. Com o Galache, não vivíamos juntos – na Loyola, na devoção ao coração de Jesus e na Igreja- mas verdadeiramente unidos. A palavra perfeita dessa vocação é kolechad, em hebraico. Uma união que não é simplesmente estar lado a lado, mas realmente em comunhão.

O Galache saiu de nossas mãos para as mãos dos santos e santas de Deus, para as mãos do Pai. Dar adeus, significa dar a Deus, entregar para Deus. Nós o entregamos nas mãos de Deus, nas quais sua tia já o colocara um dia e onde ele depositou o seu viver. Enquanto na glória celeste ele vai se encontrando com Santo Inácio, com a tia, com o beato Fabro e com tantos que amou e o amaram, possamos nós, por sua intercessão, também entregar nossas vidas nas mãos do Abbá, o Paizinho do céu. Na páscoa do padre Galache, vivemos mais um sinal da real união mística da Igreja terrestre com a Igreja celeste. Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo! Para sempre.

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