DAS DEZ PRAGAS ÀS DEZ MITZVÓT


Das leis inscritas no coração às leis gravadas na pedra

(12/3/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

“Não pensem que eu vim trazer paz à terra;

eu não vim trazer a paz, e sim a Espada”

Iehoshua ben Iossef (Mt 10,34-35)

Os prodígios, pragas, ferimentos e violências de Pessach no Egito vão da água ao sangue, do sangue ao vinho e do vinho à água. Como Perseu somos chamados a usar a espada e cortar a cabeça da medusa do Caos. Na rua, em casa, no trabalho, em nossa agenda pessoal já tivemos e teremos muitos encontros com situações de violência, até no sentido estrito do sangue derramado. Violência significa força (vim). E a força tanto pode ser usada pelo mal como para derrotar o mal. A violência, em sua ambivalência, é um chamado ao discernimento, à medida e à coragem. Quem realiza o casamento com seu Cosmos interior, o ser inteiro, está pronto para usar judiciosamente a espada da violência. Nesse lento e pedagógico caminho do Caos ao Cosmos, na tradição judaica, a grande revelação sobre a violência e o discernimento que deveria acompanhar seu uso, está no próprio nome: YHWH. Admite-se geralmente Yahweh como uma forma arcaica da terceira pessoa do imperfeito do verbo ser, significando: “Ele é” e ainda: “Ele faz ser”. Quando Deus fala dele mesmo, emprega a primeira pessoa: “Eu sou” (Ehyeh). Mas na famosa resposta a pergunta de Moisés: “Qual é teu nome?” os intérpretes modernos vêem “Eu sou aquele que sou”, insistindo sobre a transcendência inominável de Deus. Mas esse nome sagrado, YHWH, impronunciável para os judeus, era “vocalizado” na leitura das consoantes do tetragrama: YUD, HE, WAF, HE. Esse tetragrama possui um significado e uma revelação simbólica fundamental: a espada. Onde Yud é o pomo, Waf a lâmina (a forma e o som da lâmina em movimento estão contidos nesta letra) e He – de cada lado da lâmina- os dois gumes de afiados cortes, cortantes.

Y

H H

W

O Livro de Zohar (Sefer HaZohar) desenvolve esse aspecto considerando a forma e o significado de cada letra grafada em hebraico no tetragrama sagrado. Para se construir como Ser, como Verbo, como Logos, como Nome, o homem deverá forjar-se e fazer uso da Espada.

Primeira praga: as águas transformadas em sangue (Ex 7,19)

O sangue representa a vida e a presença divina no vivente. Verter o sangue é de uma inimaginável gravidade, fruto de uma amnésia da consciência. Moisés passa por essa experiência quando mata e enterra um egípcio ao encontrá-lo oprimindo e maltratando um de seus irmãos hebreus. Esse ato, mesmo em legítima defesa de um oprimido, o levará ao exílio na terra de Madiã. Com os anos, as conseqüências desse ato levarão ao despertar de sua consciência e a experiência pessoal de Deus. Moisés engajará a força e a violência no processo de libertação de seu povo como saída do Caos indiferenciado – onde hebreus e egípcios, bem e mal se misturavam, fundidos e confundidos – em direção ao Cosmos espiritualizado.

De forma equivocada, para se singularizar e se “diferenciar” do irmão Abel, Caim o assassina. “A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra” (GN 4:10). O sangue de teu Yud, subentendido YHWH. Deus não mata Caim. Condena-o ao exílio e a meditar sobre seu crime até sua morte. Caim teme por sua vida. Deus avisa: ai de quem matar Caim, sete vezes será castigado (Gn 4,15). Ao marcá-lo, com a marca do criminoso, Deus o protege para que não o ferisse qualquer que o achasse. Esse texto arquetípico visa mais banir a pena de morte, a vingança e a desmedida do que denunciar a famosa “maldade” do gênero humano. Não ser capturado fusionalmente pelo ódio, não tornar-se assassinos como Caim, marcado para sempre pelo seu ato.

Também no Egito dos Faraós, estabelecido sobre conquistas sanguinárias, os homens serão chamados a um processo alquímico de transmutação, do visível ao invisível. E o primeiro ato de violência será a praga (prodígio) pela qual se transformará ou transmutará a água do Nilo, símbolo da vida, em sangue. A água, a umidade e as trevas, por oposição ao seco e a luz, representam no judaísmo o inconsciente, o irrealizado, o incompleto. Para sair da inconsciência o homem deve se forjar uma espada. Uma espada para separar e diferenciar, cortando as fusões e confusões. Mas a dificuldade do povo hebreu em sair do estado de fusão em que se encontrava com a sociedade do Egito será muito grande. YHWH, que não se compraz nem deseja o sofrimento de seu povo, será obrigado a endurecer o coração do faraó repetidas vezes até que o povo hebreu adquira, na adversidade, a consciência e discernimento para iniciar sua caminhada de libertação.

Segunda praga: as rãs (Ex 7,26-29)

Essa emergência diferenciadora não significa o abandono do inconsciente, mas sua integração. Um símbolo dessa integração, vista não como emergência do inconsciente no consciente, mas como a capacidade de ir de um ao outro, é encontrado na figura da rã. Em hebraico tsefardea, a rã, significa a emergência do conhecimento. A rã tem a capacidade de saltar do úmido para o seco e vice-versa. Ela representa, como em muitos contos de fada, a emergência do conhecimento escondido no inconsciente (água). Nos contos de fada, a aceitação, a amizade e o casamento com a rã, anunciam quase sempre o casamento do homem (animus) com seu outro lado, o escuro e das profundezas, para trazê-lo a luz (seco). Apresentado como o lado “feminino” do ser (anima), o inconsciente é uma realidade cheia de energias latentes. Uma força de informação constitutiva no homem a partir do seu interior, e não do exterior, por um processo de transmutação. Nos contos de fada o encontro com a rã sempre leva o protagonista a aventuras interiores (cavernas, mergulhos em poços escuros, travessia de noites escuras, etc). A rã revela ao homem sua dimensão feminina e à mulher o lado masculino, mudando de forma ambivalente, o sinal de seu conteúdo arquetípico.

O inconsciente não é um amontoado de sucata, formado de fatos sem valor reprimidos e rejeitados pelo indivíduo, mas uma matriz, um poço artesiano do qual brota toda criatividade, como assinala Robert Johnson ao confrontar as teorias de Freud e Jung. O saber adquirido do exterior, como no caso dos livros e dos estudos, é pesado, exige esforço de memorização e tem sua sede no cérebro. Ele só esclarece o ser na medida em que abre o acesso ao saber nato, a fonte de todo o saber. Este é fruto do amor. Saber e saborear têm a mesma raiz. Em espanhol emprega-se inclusive a mesma palavra, saber, para indagar o gosto de algo ou o conhecimento. Provar desse fruto é leve e não requer nenhum esforço de memória. A rã representa o saber saboroso. Ele já habita em cada homem mas precisa ser trazido à luz, ao seco. Mesmo assim, sedento de poder, o homem busca em externalidades um saber idolatrado. Este, ao invés de elucidar e iluminar, ilude. Essas três últimas palavras são muito próximas. Na elucidação o obscuro é trazido à luz. Na iluminação, a luz é trazida até o objeto. Já na ilusão, a luz ofusca e cega tanto quanto as trevas totais. Como superar essa etapa de desejo de aquisição do conhecimento pela via exterior, tão valorizada hoje em dia? Superando a fala e o fascínio da serpente do paraíso. O homem não pode ficar alheio aos potenciais de seu próprio ser psíquico e esperar tudo de frutos milagrosos que doutrinas e ideologias anunciam prodigar imediatamente. Como certa tradição rabínica interpreta, o erro de Adão e Eva foi a impaciência de não saberem esperar seu amadurecimento interior, seu casamento com o Cosmos interior. Casamento místico que Parsifal realizará na lenda do Santo Graal. Como ele, muitos outros príncipes, princesas e gente do povo realizarão essas bodas simbólicas nos vários contos de fada. No fundo, a serpente oferece um fruto no qual o homem ainda não se tornou.

Que a serpente não decida por nós! Os objetos de conhecimento adquiridos de forma exterior ao indivíduo são uma ilusória tesourização de um saber estranho ao essencial do homem. Este os percebe com a mesma superficialidade que percebe a si mesmo. Nessa “coisificação” do ser e do conhecimento, o amor está ausente. O homem fica cego a sua interioridade e cego a toda realidade que lhe escapa. Esquece-se que, como na fábula do Pequeno Príncipe, o essencial é invisível aos olhos. Nessa situação de amnésia, o inconsciente emerge como um ente devorador. Como na praga das rãs no Egito, o inconsciente invade o dia a dia das pessoas nos seus mínimos gestos e decisões. As riquezas potenciais de seu interior se tornam seus demônios. O aparente conteúdo recusado se torna paradoxalmente explícito mas invisível em cada ato e momento. O comportamento áspero e violento toma conta das pessoas na sociedade, no trabalho, no lar, no quarto e na cama. Quanto do vandalismo maculando cidades e bens públicos, quanto da própria destruição da natureza e da exploração do homem pelo homem não são a expressão de um comando inconsciente de tristes e horríveis realidades interiores.

“O Nilo ferverá de rãs, que subirão, entrarão em seu palácio, nas casas e quartos e até em sua cama; o mesmo acontecerá na casa de seus ministros e de seu povo, nos fornos e amassadeiras ” (EX 7:28-29). Os fornos e amassadeiras, lugares respectivos do fogo e da água na elaboração do pão, representam a invasão das duas matrizes primordiais e opostas: o peito e a barriga ou tórax e o ventre. Mircea Eliade mostra como na África os fornos tem a mesma denominação dos úteros, o que torna os ferreiros (Ogun), verdadeiros obstetras da natureza. A pedra de amassar o grão, é sempre envolvida de simbolismos nas diversas culturas, em particular a transmutação da pedra em pão. O homem verdadeiro, o ser inteiro, pela sua interior-idade ouve seu coração e realiza o casamento dos opostos de forma erótica e harmoniosa. Já o homem cego e fragmentado, na ânsia de se construir, acaba dirigindo a Espada contra o outro, contra o exterior, quando Ela deveria ser dirigida ao seu interior, em primeiro lugar. Na tradição religiosa judaica o homem deve crescer como a árvore do conhecimento, da qual o fruto será o casamento dos opostos: do seco e do úmido, do realizado e do irrealizado, da luz e das trevas.

Terceira praga: os mosquitos, piolhos, insetos…

A raiz da palavra hebraica kinim que designa os vermes é ken, o sim, e por extensão, toda idéia de afirmação, confirmação, estabilização… A palavra kinim é pronunciada cinco vezes no relato e duas vezes na raiz Ken “certo”; no total sete vezes. O objeto transformado em mosquitos é a poeira da terra. Essa praga é conseqüência direta da anterior.

“Golpeia o pó da terra, diz Deus a Moisés, ele transforma-se-á em mosquitos” (Ex 8,12)

“YHWH forma Adam com o pó apanhado da terra” (Gn 2,7)

A terra, Adamah – terra interior de Adam – e a qualidade de “pó” do Adam (do Homem) é a multiplicidade inimaginável das riquezas potenciais de seu inconsciente, tudo o que “ formiga”, fervilha diz o texto do quinto dia do Gênesis, nas águas de seu irrealizado.

Venerar, honrar, verbo kanoh. Nenhum pó deve ser objeto de veneração (idolatria). Reassumida em sua vocação ontológica, a poeira, o pó conhece a imensa fecundidade que prometia no terceiro dia do Gênesis:

“Que a terra se cubra de verdura, que a árvore dê fruto…” (Gn 1,11)

O Conhecimento, fruto do casamento interior é fértil, frutifica, na intimidade reencontrada com Deus. Ele o único venerável e venerado, revelando os mistérios do mundo.

Porque ele é pó, o Hebreu volta-se, considera, lança seu olhar, medita e mira o pó, voltando-se para sua terra interior. Esse é o caminho para sair da escravidão. Promessa feita a Adam:

“Tu comerás o teu pão com o suor de tuas narinas até que tu te retornes para tua Adamah (terra-mãe interior) de onde tu foste tirado, pois pó, tu, e para o pó, volta-te, retorna-te (teshuvá).

O Egípcio não conhece o retorno, a conversão. Constrói reinos exteriores que serão reduzidos a pó, incluindo os templos que cobrem seus ídolos.

Quarta praga: o inseto

Arov – homonimia perfeita com o verbo “obscurecer-se”.

Erev – mesmas letras-energias, noite, momento na criação onde tudo se obscurece com relação ao dia anterior mas onde tudo começa pois introduz-se nessa noite matricial um novo dia.

A luz só pode vir das trevas assumidas.

Nosso dias dependem da qualidade de nossas noites.

Tempo em que recarregamos as “baterias”;

Tempo em que vamos buscar no inconsciente as informações essenciais;

Nossos sonhos tecem a luz do nosso próximo dia.

O tempo da noite é o do Adamah. Do voltar-se para a mãe das profundezas,

Aproximada com as rãs.

O quarto dia do Gênesis estrutura o tempo do Homem.

A grande luminária ilumina seu percurso durante o dia.

A pequena luminária, durante a noite.

Ora, existe um outro personagem que leva o mesmo nome que Arov, mas que pronuncia-se Orev e que, num outro mito bíblico – o de Noah – faz o papel da pequena luminária: o corvo.

Sem esquecer o número quatro, “Arva.”

Com o corvo, visitar a arca do Noah: os homens multiplicavam-se sobre a terra e só produziam uma humanidade fêmea; seres que não faziam sua obra “masculina” em si próprio. Não lembravam-se de seu potencial interior.

Depois do dilúvio das rãs invadindo o Egito,

Agora o dilúvio do inseto.

A chave do entendimento no corvo (noite, inseto) e na pomba (dia, ion, ionah) que volta “no crepúsculo”. Corvo = pomba = espírito de Deus que sopra para convidar o Homem a assumir um crepúsculo, o fim de um dia, a fim de que uma noite de trevas fecunde assim o novo dia que é seu fruto.

Goshem = um jardim, gan ; shem;

Quinta praga: a peste (Ex 9, 1-7)

A palavra, o verbo, dado ao “incircunciso” do verbo, Moshé.

Central pelo número, cinco, quinta contração da matriz Egito para que nasça a criança Israel.

Um novo sopro. Da letra hê, 5. Tetragrama, espada, dois pulmões.

Dever kaved meod. Será uma praga muito grave.

Davar kaved meod. Palavra gravíssima.

Kaved que é também glória divina

Para o Egito os animais vão morrer de peste.

Para o Hebreu, a quem está aposto o nome do verbo, Davar, porque ele sacrifica os animais de suas terras profundas.

Em toda coisa-Davar é o Verbo-Davar que, não reconhecido, faz desta coisa a peste-Dever.

O homem que “coisifica” tudo… a começar pelo homem.

O olhar sem alma sobre o outro.

Sexta praga: a lepra (Ex 9,8-12)

Shechine, lepra

Raiz Shacho, abaixar, afundar…

Shachatz – orgulho... crueldade

Iov… que se arrepnde “sobre o pó e as cinzas”.

Sétima praga: o granizo (Ex 9,22-35)

Barad, sétima praga, construída sobre um jogo de letras ou palavra com davar.

Davar kaved meod: Palavra muito grave (Ex. 9,3)

Peste

Barad kaved meod: Granizo muito grave (Ex. 9,24)

Grave semelhança, cheia de sentido, pesada de sentido:

Junto aos Hebreus , nas terras de Goshem, no jardim centrado sobre o Nome,

O casamento dos dois Hê de suas interioridades realiza-se (accomplish).

Davar e barad desposam-se.

Isaías 30,30: YHWH faz ouvir a majestade de sua voz… na chama de um fogo devorador, na tempestade, na chuva e na pedra do granizo.

Pedra, eben, encontro do pai Av e do Filho, bem

Oitava praga: o gafanhoto (Ex X, 1-20)

Todos esses sinais são ambivalentes.

Eles são força de crescimento do HaShem no coração dos Hebreus e

Demônios devastadores junto aos Egípcios

Areb, da raiz rab, rabin, numerosos, pode ser lido também como aumentar.

Eu aumentarei tuas dores e teus nascimentos (Gn 3,16)

Areb, gafanhoto, inseparável de Arov, inseto, como a luz das trevas

Nona praga: as trevas (Ex 10, 21-29)

Descer pelas asas do corvo em nossas profundezas.

Subir pelas asas da pomba em nossas alturas.

Descer mais uma vez nas profundezas escuras

As trevas sobre a face do abismo (Gn 1,2)

As trevas, Hoshech, palácio do Sem

Prova do Shabat, Deus se retira no não-ser para que o Ser YHWH seja e cresça no Homem

O que diferencia esta noite de todas as outras?

Décima praga: a morte dos primogênitos (Ex 11 e 12)

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