CRIACIONISMO NÃO É CIÊNCIA, NEM TEOLOGIA

CRIACIONISMO

(2/4/2015)

Evaristo Eduardo de Miranda

Olhar por um telescópio é um chamado à humildade. O Vaticano possui dois observatórios astronômicos. Por que o Papa precisaria de astrônomos? Talvez para se defender da tentação do criacionismo ou do dualismo de um Deus ausente, acima do Universo. Os telescópios do Vaticano deram mais contribuições à teologia, do que se possa imaginar. O Observatório foi fundado em 1891 por Leão XIII para mostrar que “a Igreja e os seus pastores não se opõem à ciência autêntica e sólida, tanto humana como a divina, mas abraça-a, impulsiona-a e promove-a com a mais completa dedicação”. Ele é muito ativo. Em 2007, por exemplo, um total de 210 astrônomos de 26 países participou de uma conferência internacional organizada pelo Observatório Astronômico do Vaticano sobre a formação e evolução das galáxias.

Graças em parte às próprias descobertas científicas realizadas por homens de fé como Isaac Newton e católicos Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Giambattista Riccioli, Atanásio Kircher, Nicolau Steno, Gregor Mendel, Georges Lemaître, Teilhard de Chardin e tantos outros, há muito tempo a elaboração teológica aprendeu a diferenciar origem e criação, evolução e criação. Deus não fabricou o Universo. Ele o criou e o cria de forma incessante. Não existe abismo entre Deus e a criação, entre ela e a evolução, entre Deus e o mundo, entre Ele e o Universo. Como dizem os místicos: em cada momento, o Universo renasce.
O Universo não é nada mais do que um lugar e um tempo da manifestação do divino. Aqui que se experimenta a unidade, o Uno e presença de Deus. O cientista e jesuíta Teilhard de Chardin, disse em 1927, defendeu a ciência como dever sagrado: “Em nome de nossa fé, nós temos o direito e o dever de nos apaixonarmos pelas coisas da Terra. (…) Eu quero me dedicar, corpo e alma, ao dever sagrado da Pesquisa. Sondemos todas as muralhas. Tentemos todos os caminhos. Escrutinemos todos os abismos. Nihil intentatum… Deus o quer, e disso desejou necessitar”.
Com 13,7 bilhões de anos, o Universo possui um raio estimado em 47 bilhões de anos-luz. Apesar as resistências de grupos e indivíduos acostumados a ler o texto bíblico fora de seu contexto, há séculos os relatos da criação do livro do Genesis têm sido entendidos como alegóricos e simbólicos, desde o bispo, teólogo, filósofo e Padre da Igreja, Agostinho de Hipona. O Criador é atemporal, não tem princípio nem fim. Hoje, essa é a posição da Igreja Católica e de diversas igrejas protestantes tradicionais como luteranos, anglicanos, metodistas etc. Não é bem assim no caso de muitos evangélicos e outras seitas fundamentalistas.
A Bíblia não é um documento científico, nem esclarece como o cosmos foi criado ou em que ordem, e sim qual o sentido dessa criação. O diálogo entre fé e razão, ciência e religião, busca compreender a inteligibilidade do Universo, a complexidade da vida e o lugar do homem no Cosmos. A linguagem científica não pode ser confundida com a religiosa. Por isso talvez, o Papa mantenha observatórios astronômicos, além de igrejas, obras de caridade, hospitais, escolas, universidades e museus. Para os católicos, a criação do Universo não acabou.
Tanto no seio do cristianismo como do judaísmo existe uma corrente de pensamento criacionista que entende textualmente os relatos bíblicos da criação: Deus criou o Universo em sete dias e descansou, após concluir a obra da criação. Há uns 6.000 anos. Os criacionistas têm um credo em que a Bíblia é literalmente verdadeira e o Gênesis é uma descrição passo-a-passo do que Deus fez desde o início. Não é assim e nem é para isso que o Gênesis foi escrito, inspirado em relatos assírios e babilônicos. Esse é um entendimento muito falho de como ler a Bíblia, ao pé da letra. Na realidade, o criacionismo não leva o texto bíblico a sério.
A versão mais recente e moderna dessa teologia criacionista é o chamado o Design Inteligente (Intelligent Design) ou criação, concepção ou projeto inteligente. Para o Design Inteligente, certas características do Universo e dos seres vivos são explicadas por uma causa inteligente e não por um processo não direcionado como a seleção natural. Essa ideia foi desenvolvida por um grupo de criacionistas protestantes americanos face à controvérsia da criação vs. evolução e para tentar contornar uma decisão judicial americana que proibiu o ensino de criacionismo como ciência.
O consenso da comunidade científica é de que o Design Inteligente não é ciência, e sim pseudociência. A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos já declarou que o “criacionismo, design inteligente e outras alegações de intervenção sobrenatural na origem da vida” não são ciências porque elas não podem ser testadas por métodos científicos. A Associação de Professores de Ciências dos Estados Unidos e a Associação Americana para o Avanço da Ciência também as classificaram como pseudociências.
Essa “teologia”, por mais malabarismos semânticos e teorias de desenho inteligente, afronta a realidade, a ciência e a fé. O criacionismo vê Deus como um engenheiro, um fabricante e não um verdadeiro Criador. Para os criacionistas as descobertas da ciência que contradizem sua leitura literal da Bíblia devem ser rejeitadas. Ponto. Ao contrário do que apregoam criacionistas fixistas, o Universo foi e segue sendo criado. Deus cria o mundo neste segundo em que vivemos como Ele o criou no segundo passado e em todos segundos que o precederam. A criação não foi um lance de dados ocorrido na noite do tempo, após o qual Deus se retirou para contemplar o resultado, como imaginam e defendem alguns. É muita falta de ciência e de fé.   
Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Criacionismo não é ciência, nem Teologia. Jornal Universidade Ciência e Fé, Curitiba – PR, v. 183, p. 10 – 11,2015.

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