CRER PARA VER


(31/12/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

A morte do Cristo lançou sobre os discípulos uma noite de medo e terror. Pedro nega o Senhor. Os outros fogem e se escondem. Em pleno domingo da ressurreição, os discípulos se trancam de medo. Fugitivos e medrosos, esses homens de pouca fé escondem-se, trancam suas portas e tremem assustados dentro de seus covis. Todos? Quase.

Os poltrões estavam trancados. Haviam esquecido completamente a missão recebida do Senhor. Ele repetidas vezes, aos doze e aos setenta e dois havia ordenado: ir, perante a sua face, anunciar! (Mt 9, 37-38; 10, 7-16; Mc 6,8-11; Lc 9,3-5 e Lc 10,1-11). Ide, pelos caminhos, a toda cidade, localidade, casas e anunciai: o Reino de Deus chegou! Partam sem bolsa, sem alforje, sem arma! Partam anunciar! O Filho do Homem não tem onde recostar a cabeça e vocês preocupam-se do que? Ide anunciar! Mas os discípulos diante da cruz são o contrário do Evangelho: aferrolhados, acovardados, medrosos, vítimas de si mesmos, trancados a sete chaves, enfiados dentro de suas carapaças, feito tartarugas. Todos? Não.

Existe um discípulo que abandona essa pecaminosa companhia. Livre como o vento, Tomé sai pelas ruas e praças. Simpático esse Tomé, as vezes tão caluniado e dado em mau exemplo. Pois é ele, que de alguma forma, impede os apóstolos de girar entorno de si mesmos. Sua disposição de seguir o Cristo foi sempre decidida. Foi ele quem disse aos apóstolos sob a necessidade de seguir Jesus: “Vamos, também nós, e morramos com ele (Jo 11,16).” Isso aconteceu quando da morte do amigo de Jesus, Lázaro.

E é esse mesmo Tomé, o gêmeo, sempre preocupado em seguir Jesus, quem indaga antes de sua paixão: “Senhor, nós nem sabemos para onde vais, como poderíamos saber o caminho? E Jesus lhe diz: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. (Jo 14,5-6)”. Essa frase tão absoluta e conhecida do Evangelho de João, nos chegou graças ao bravo Tomé. Jesus não diz: “Tomé, eu sou um caminho, uma possibilidade a mais. Tomé, todas estradas levam a Deus. Todos caminhos chegam ao cume da montanha. Todos os raios convergem para o mesmo sol. Construa você mesmo sua religião à la carte. Pegue o que tiver de bom nas várias religiões e faça o seu caminho pessoal para Deus.” Não! Ele não propõe nenhuma gnose, autoredenção ou qualquer tipo de sincretismo religioso. Jesus é categórico: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Talvez por isso nosso bravo Tomé não se aterra. Enquanto os outros se escondem, ele sai.

As mulheres vêm o Senhor ressuscitado, mas os apóstolos consideram sua palavra um delírio e não acreditam nelas. Eles precisavam ver para crer. Apesar das portas trancadas, Jesus se apresenta no meio deles. Eles estavam vendo e ouvindo o Senhor. E, enquanto lhes falava, Jesus mostrava – lhes as mãos e o lado ferido pela lança. O Senhor glorioso da Igreja é o mesmo Senhor que foi crucificado. Mas o nosso prezado Tomé não havia ficado nesse esconderijo. Seus pulmões estavam recebendo outro ar. Ele tinha saído.

Mais tarde ele volta. Como o vento ele penetra pelas frestas abertas no muro de medo dos discípulos acovardados. Com a chegada de Tomé, eles devem destrancar as portas. Ele era incapaz de atravessar paredes, como o Ressuscitado. Portas destrancadas, eles testemunham sua visão e afirmam para Tomé: nós vimos o Senhor! Tomé duvida desses irmãos aterrados (Jo 20, 24-25). Como não duvidar dos que duvidam?

Mas oito dias depois, com a comunidade reunida, o Cristo se faz presente. Convida Tomé a por o dedo em suas chagas, a mão em seu flanco. Ele o fará. Ao convite do Cristo para deixar de ser incrédulo no testemunho dos que viram, Tomé torna-se um homem de fé ao responder liturgicamente: Meu Senhor e meu Deus! É a última aclamação de fé do evangelho de João. E essa fórmula será retomada e repetida durante as celebrações da eucaristia, até hoje. Uma das únicas frases de apóstolos, repetida e gravada na liturgia, para sempre. Frase desse homem livre e convicto, o caro Tomé.

Eusébio, um dos grandes historiadores da Antigüidade, afirma que Tomé teria evangelizado os partos, no Irã. Segundo outra tradição chegou à Índia, onde foi martirizado. Daí vem, talvez, uma lenda de que ele tenha vindo até o Brasil! O fato é que quando a evangelização seguiu o caminho das descobertas, encontrou uma antiga veneração a esse apóstolo na Ásia.

Seja como for, graças a Tomé, temos um exemplo paradoxal: basta crer para ver, basta ter uma fé menor do que um grão de mostarda. Ela nos tirará de nossas cavernas, de nossos túmulos e esconderijos. Deixaremos a companhia dos hesitantes, dos camuflados e ocultistas. Sabemos o caminho, revelado numa pergunta de Tomé ao Salvador. Somos convidados a anunciar e não a renunciar. Como vaga-lumes dançamos e buscamos na Noite da transcendência. Aos que deixam seus esconderijos, máscaras e personagens, o Crucificado reveste-os pessoalmente de coragem e lança-os num caminho ornado de estrelas e horizontes infinitos.

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