CREIO NA RESSURREIÇÃO DO CORPO


(13/9/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os cristãos acreditam na ressurreição do corpo e o afirmam em várias manifestações durante a vida. Mas é na hora da morte, no momento da páscoa e da última passagem, que essa crença toma todo o seu valor. Diante da conclusão de uma vida, está-se – também – diante da conclusão do Credo: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.”

Porque essa crença? É na ressurreição do Cristo que temos o fundamento da fé na ressurreição da pessoa. Nós não temos corpo ou alma. Toda pessoa é corpo, é alma, é espírito. A morte não anula nossa identidade pessoal, nem apaga o nosso nome. Nós não esperamos – nem nos contentamos – de ser, um dia, espíritos luminosos, gravitando em volta da luz de Deus. Não! Na eternidade prometida, no final dos tempos, participaremos da glória com um corpo glorioso, com nossos nomes santificados e na plenitude de nossa identidade pessoal. Reconhecendo-nos e sendo reconhecidos.

Na ascensão, Cristo levou seu corpo, originalmente como o nosso, ao trono divino! Essa materialidade da ressurreição da pessoa fica patente na saída do Cristo ressurrecto do sepulcro. Foi preciso que a pedra rolasse. Alegoricamente, esse fato nos lembra que se a pedra não rolasse, talvez Ele não passaria. A materialidade do seu corpo – que comia peixes, pães, bebia vinho e guardava as marcas decisivas da crucificação – é marcante nos testemunhos dos discípulos e apóstolos.

A vida não pode temer a morte e deveria ser livre de qualquer angústia. Como diz a canção: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte.” Para a psicologia, a angústia é o medo sem objeto. Mas esse objeto existe. Escondido no humano, ele resiste e quase sempre tem a ver com as facetas da morte. São Paulo é radical: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia, e vazia também a vossa fé” (1Cor 15,14). Ressuscitaremos um dia, com nosso corpo, na totalidade de nossa pessoa, e livres de nossos personagens, graças a um amor infinito que desceu até o túmulo para vencer a morte e que, pelo sinal de Jonas, atravessou o último limiar.

Filhos de um Deus de misericórdia, na vida podemos vencer a angústia da morte e dos nossos limites. A Graça de Deus não nega nosso metal, nem destrói nossa natureza, nosso corpo. O corpo não é um castigo, instrumento dos céus para domesticar e confinar nossa alma, como crêem certos reencarnacionistas. Atento à presença e aos sinais de Deus em nossa vida, valorizamos a dimensão positiva de eventos como doença, separação, perda e morte. Graças a luz interior podemos ser inteiros em nossa corporeidade, ao longo de toda a vida e também na passagem da morte. Pois “se depositamos a nossa confiança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de pena de todos os homens” (1 Co 15,19).

O último limite da humanidade, o da morte, foi vencido no sorriso dado pelo sepulcro. A pedra rolou diante de uma boca que havia tragado um morto e agora sorria para dar passagem ao primogênito da ressurreição. Esse sorriso é nossa alegria, nosso gáudio supremo! Jesus disse: “Aquele que crê em mim, mesmo que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais” (Jo 11,25-26). Ele é o caminho para libertar-nos da angústia da morte e para não sermos mais hipnotizados por seu precipício. A ressurreição nos ajuda a aprender a arte de passar por esta terra, como o Cristo passou.

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