ABADÁ, DILÚVIO E SATANÁS: VEJA DEZ CURIOSIDADES E CONTRADIÇÕES DA BÍBLIA

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(07/11/2015)

Evaristo Eduardo de Miranda

De autoria de Evaristo Eduardo de Miranda, diretor do Instituto Ciência e Fé e estudioso da língua hebraica, “Bíblia: História, Curiosidades e Contradições” é resultado de uma pesquisa sistemática sobre a Bíblia, em suas diversas versões em português, e em seus originais hebraicos e gregos, e seu contexto histórico, literário e geográfico.

Sistematizando os resultados, o livro formula e responde a mais de mil perguntas sobre autores, atores, eventos e curiosidades presentes na publicação mais traduzida da história da humanidade, além de apresentar a origem e o significado dos nomes dos personagens e lugares bíblicos.

Abaixo, confira dez curiosidades e contradições presentes na Bíblia:

Como foi escrito o Antigo Testamento?

Os livros do Antigo Testamento foram compostos sobre a base de tradições orais esparsas e redações parciais de diversas origens. Parte dessas redações foi unificada durante o período do exílio da elite judaica na Babilônia (proto-Torá) entre 586 e 538 a.C. Após o regresso do exílio babilônico, outros textos, como o do Gênesis, foram consolidados e deram lugar a uma nova fase redacional e na edição do Pentateuco, da Torá.

Deus gravou quantos mandamentos nas Tábuas da Lei?

Ninguém sabe. Certamente, Ele economizou. Nada de circunlóquios, prolegômenos e rodeios. As tábuas dos mandamentos não eram de lenho. Não eram pranchas lisas de madeira serrada, de pouca espessura e relativamente largas, como são nossas tábuas. Nada disso. Segundo a Bíblia, eram de rocha maciça. Granito, quem sabe. Os mandamentos foram gravados em pedra e não num pendrive, num CD ou num bloquinho de papel. Pedras são pesadas. Muito pesadas. Moisés carregou-as sozinho, morro
abaixo. Imagine Moisés carregando-as no dia a dia. De lá para cá e de cá para lá. Ainda bem que Deus não é prolixo.

Qual foi a primeira Bíblia?

Não se assuste, mas a primeira Bíblia não existiu. Ela não se chamava Bíblia e sim “Sagradas Escrituras” ou “Santos Escritos”. No máximo. Seria um anacronismo chamar de Bíblia o conjunto da produção literária religiosa do Judaísmo, em hebraico, grego e aramaico, até o advento do Cristianismo. As primeiras sistematizações editoriais e redacionais na história do Judaísmo pós-exílico visaram a Torá, a Lei, o Pentateuco. Mas foi justamente a tradução do Pentateuco para o grego, com vistas a atender as comunidades israelitas helenófonas, que deu origem a um primeiro movimento “editorial” mais amplo. Para atender a diáspora, ampliou-se essa iniciativa no sentido de alcançar pela tradução todos os escritos: os proféticos, os históricos e os sapienciais. Disso acabou por resultar uma primeira identificação, extremamente plural e diversa
em termos de manuscritos e versões, do que hoje chamamos de Bíblia hebraica, ressaltando que os judeus não utilizam esse nome.

O dilúvio foi inventado na Babilônia?

Foi. A maior chuva de outono que possa ocorrer na Palestina não dá para inspirar um mito dessas proporções. Idem para o minúsculo Rio Jordão. Nem com as mudanças climáticas. Já as cheias dos torrenciais rios babilônicos, como o Tigre e o Eufrates, inundam amplas planícies da Mesopotâmia. Elas certamente inspiraram o relato e mito diluviano da epopeia babilônica de Gilgamesh. A Epopeia de Gilgamesh é um antigo poema épico da Mesopotâmia, uma das primeiras obras conhecidas da literatura mundial compilados no século VII a.C. pelo Rei Assurbanipal. O Gilgamesh histórico, provavelmente, foi um monarca do fim do segundo período dinástico inicial da Suméria (por volta de 2700 a.C.). Esse rei tirânico foi um aventureiro intrépido, filho de uma deusa e de um humano. Ele buscou sair de sua finitude lançando-se em numerosas
aventuras, acompanhado por seu fiel e amoroso amigo Enkidu. Esse mito foi descoberto pelos judeus no exílio babilônico. A palavra dilúvio, mabul em hebraico, não é usada em qualquer outra parte no texto bíblico (Gn 6,17), salvo no Sl 29,10. O mito babilônico do dilúvio, conhecido como a Epopeia de Gilgamesh, é anterior ao relato bíblico, e também tem uma arca e um piloto bem hábil.

Existe demônio no Antigo Testamento?

Sim. Mas no Antigo Testamento há apenas doze menções de demônios contra mais de 60 no Novo Testamento, um texto bem mais curtinho. Da mesma forma, praticamente ausentes da Torá, os demônios de criação recente só pululam mesmo fora da Bíblia, no Talmude judaico.

Finalmente, satanás quem é?

Não se sabe direito. Satanás não surge como criado por Deus no Gênesis, nem é sequer mencionado nos primeiros livros da Bíblia. Os patriarcas e profetas tinham já muitos problemas com faraós, dilúvios, deuses pagãos, fome, pragas e outras misérias e dificuldades da vida nômade para lidar ainda por cima com satanás. No Antigo Testamento, satanás aparece tardiamente, quando as instituições políticas já estão bem-estabelecidas, quase como um funcionário anônimo dos tribunais celestes. Estilo corte babilônica. Ele não está em guerra declarada com Deus. É um acusados astuto de humanos santos e descuidados. Em Zacarias (3,1-2), nos Salmos (109,6) e no Livro de Jó (1,6), a palavra satan é precedida por um artigo. Nesses textos, satanás ainda não é um nome próprio. Isso só ocorre no Livro das Crônicas (1Cr 21,1). Com o tempo, com a estadia na Babilônia, com os contatos com a cultura persa e tantas outras satan tomou corpo na Bíblia e terminou identificado com o poder do mal e das trevas, associado – não no texto – até com a serpente do paraíso, na escrita tardia do Gênesis.

Abadá ou abada?

Abadá na Bahia é um camisolão indispensável para participar de blocos carnavalescos. Abadá em hebraico e na Bíblia significa perda, prejuízo. Abdon em hebraico é um substantivo e significa perdição, destruição e prejuízo. E também um demônio corruptor, causador de perdas. Pode até ser na bolsa de valores. Apolion em grego é um particípio ativo e significa destruidor. Essa transposição malfeita do hebraico para o grego pelo autor do texto do Apocalipse, de um substantivo para um verbo, foi só para prejudicar o deus Apolo. E ele não tinha nada a ver com isso. Dizem.

Jesus é o único Messias?

Não. Tem muito Messias por aí, por causa dele. Como já foi evocado, a palavra messias vem do hebraico mashiah, e deriva do radical mashah, ungir. Ela implicava uma unção. Ela consagrava e substantivava o rei ou o sacerdote. Jesus era o Messias messiado. Hoje tem muita gente com o nome Messias, assim, na boa, como se nada fosse. Se foram batizados na Igreja Católica, esses Messias receberam a unção perfumada do crisma na cabeça e, de certa forma, foram messiados, com o óleo da messianidade cristã. Eh… Cristianismo abusado.

Jesus era filho de muita gente?

Aparentemente sim, mas tudo simbólico para não gerar aqui nenhum conflito unigênito. Os evangelistas, apóstolos e discípulos verão nele o filho do carpinteiro, o filho de José, o filho de Maria, o Filho de Davi, o Filho de Abraão, o Filho do Homem, o Filho de Deus, o Filho do Altíssimo ou simplesmente o Filho.

Como era escrita uma carta no século I?

Com papiro e tinta. Na educação greco-romana superior se aprendia escrever na escola e o aprendizado da escrita compreendia o exercício de ditados. No caso dos primeiros cristãos teria sido muito caro a utilização de pergaminhos de couro. As folhas de papiro eram mais acessíveis. O autor geralmente guardava uma cópia das cartas enviadas, Isso explica parte das variantes muito antigas existentes nos textos, devido a diferenças entre original e a cópia.

 

Fonte: Folha UOL

 

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