CONSERVATÓRIO DA BÍBLIA FESTEJA 1700 ANOS


(1/8/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

“Ninguém pode nos separar da fé: nós temos o santo Evangelho como pai e a Igreja católica como mãe.” Assim, os armênios responderam, em 451, aos persas que queriam impor-lhes a religião masdeísta. Sinal de esperança e orgulho, armênios do mundo inteiro estão celebrando 1700 anos de cristianismo. No ano 301, a conversão do rei Terdat II fez da Armênia o primeiro estado cristão, um século antes do império romano.

Apesar de todas dificuldades da história, cujo auge foi o genocídio perpetrado pelos turcos em 1915, a fidelidade da Armênia ao cristianismo nunca falhou. A Bíblia sempre foi o centro de uma tradição religiosa que permitiu ao povo da Armênia enfrentar tormentos e perseguições. Essa tradição começou no século V, com a criação pelo monge Mastoc´, também chamado Mesrop, de um alfabeto destinado a permitir a transcrição da Bíblia, para que os armênios pudessem rezar e meditar em sua língua. Logo os comentários dos padres da Igreja também foram traduzidos. Alguns desses textos só chegaram até nós graças as traduções em armênio, as únicas que sobreviveram aos séculos. Em muitos casos, dada sua qualidade e rigor, essas versões armênias são utilizadas para corrigir outras fontes dos mesmos textos.

Muito cedo a Armênia tornou-se uma espécie de conservatório da Bíblia (exegeses e escritos antigos, lecionários etc.). Os belíssimos manuscritos preservados, a permanência da tradição bíblica na fé e na cultura da Armênia, fizeram que os armênios se considerassem, pouco a pouco, um povo da Bíblia. Seus vínculos e simpatia com o judaísmo também são muito fortes. Numerosos escritos da tradição judaica foram re-elaborados em midrashs armênios, chamados karc´ (homilias). Filósofos e reis armênios tiraram sempre seus nomes da Bíblia hebraica, pois a santidade de Israel e de seus profetas e sacerdotes é objeto de uma piedosa veneração entre os armênios.

Por sua autenticidade, surgiu na Armênia uma igreja apostólica diferente de Bizâncio e de Roma, dotada de uma cristologia original, com uma liturgia própria que lembra muito o patrimônio cristão da Terra Santa. Aliás, na cidade de Jerusalém, o bairro armênio mantém-se há quinze séculos, como um exemplo de estabilidade e tolerância!

Como parte das comemorações, no dia 15 de abril, na catedral da cidade santa de Etchmiadzine o patriarca e catholicos de todos armênios, Sua Santidade Karekine II, presidiu a celebração de páscoa, envolta numa riqueza simbólica, litúrgica e de cânticos admiráveis. Presidente, ministros, autoridades e embaixadores… todos presentes. Após o ofício, houve uma visita ao monastério de Khor Virap, aos pés do Monte Ararat (Gn 8,4). Essa espécie de cidadela abrange uma igreja e uma capela com a célula onde ficou encarcerado S. Gregório Iluminador, o grande evangelizador da Armênia. Pelo caminho, as crianças iam com suas testas marcadas com uma cruz, feita com o sangue de cordeiro sacrificado, como em todas igrejas armênias na saída da missa pascal. Hoje, a Faculdade de Teologia de Erevan sucedeu à antiga Faculdade Marxista-Leninista atéia. Forma professores de religião, que voltou a ser ensinada em todas escolas do país. É impressionante, pois a Armênia havia sido a única nação do bloco soviético onde todas, todas, igrejas haviam sido fechadas! Um seminário vai ser aberto, pois vocações não faltam.

Uma relíquia de S. Gregório Iluminador, conservada em Nápoles, foi enviada pelo papa João Paulo II ao catholicos e será instalada na cripta da nova catedral de Erevan. A luz de um enorme círio aceso na catedral partirá para igrejas armênias do mundo inteiro, abrangendo os patriarcados de Jerusalém e Istambul, assim como o da Cilícia, dos armênios católicos. E também para o Brasil, onde a comunidade armênia tem presença expressiva, mesmo se pouco conhecida.

Ao longo do ano, na praça da República, em Erevan, sobre a base que há onze anos suportava uma estátua de Lenin, uma enorme cruz foi erigida e ficará cercada por 1700 velas acesas. Após sua viagem seguindo os passos do apóstolo S. Paulo na Grécia, Síria e Malta, o Papa João Paulo II já anunciou que vai visitar a Armênia entre os próximos dias 22 e 27 de setembro, durante o outono europeu. Mais uma primavera para essa terra eleita por Deus para o renascimento após o dilúvio, onde Noé plantou suas vinhas.

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