COMO MINISTRAR EXÉQUIAS


(16/10/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

O rito das exéquias não é simples de ser oferecido e realizado já que nas grandes cidades, o contexto familiar torna-se cada vez mais profano, neopagão e freqüentemente agressivo frente à presença da Igreja. A descristianização do povo pobre é um fato crescente e vai junto com seu desraizamento cultural. Se as pessoas sentem dificuldades em rezar o Pai Nosso durante os enterros de seus entes queridos, quanto mais em participar de cânticos, rezar o Credo etc? Diante dessa realidade, como resgatar o simbólico, o alegórico, o poético e o extra-ordinário que cercam os funerais cristãos? Como fazê-lo num ambiente marcado pelo neopaganismo e pelo profano?

Para a Igreja, a dimensão e a atenção catequética no ritual de exéquias têm sido fortemente destacada, desde a conclusão da revisão do rito sob o papa Paulo VI. O chamado Ritual de Paulo VI é um desses muitos tesouros pouco conhecidos, dentro da própria Igreja. O ritual das exéquias vai além de uma simples cerimônia de encomendação de defuntos durante o velório. Ele é um direito do cristão e um dever dos ministros da Igreja e da comunidade eclesial para com seus irmãos falecidos.

O fato da maioria dos velórios serem realizados hoje nos cemitérios facilitou o oferecimento dessa boa obra pela Igreja, no difícil ambiente urbano de nossos dias. Com a presença cotidiana de ministros leigos de exéquias nos cemitérios, esse serviço pastoral pode ser oferecido à imensa maioria das famílias enlutadas, em qualquer cidade, ao contrário do que acontece com outros sacramentos e serviços da Igreja.

Investido pelo bispo, cada ministro leigo dedica, em geral, um dia fixo da semana para estar num determinado cemitério. Ali ele presta um atendimento pastoral e litúrgico a todos os familiares e amigos dos falecidos. A pastoral da esperança ou das exéquias vem encontrando novas formas de atender a comunidade e enriquecer a Igreja dos dons infinitos do Pai. A experiência pastoral desses ministros leigos vem sendo aprofundada, refletida e sistematizada em reuniões, estudos bíblicos e encontros regulares.

Os cemitérios são um retrato do viver e do morrer em nossa sociedade. São também um espaço onde a Graça de Deus opera, em pessoas abandonadas por todos, na vida e na morte. Elas ficam surpresas e sentem-se tocadas e amparadas pela presença inesperada da Igreja nos funerais de seus entes queridos. Afastadas da vida da Igreja há anos, ficam tocadas ao descobrir que a Igreja não se esquece de seus filhos e Deus muito menos ainda. Muitos decidem retomar sua caminhada comunitária. Chegam a voltar ao cemitério para agradecer aos ministros pela celebração realizada, para pedir orientações espirituais e para conversar sobre suas vidas!

Para atuar adequadamente no cemitério, os ministros devem preparar-se e organizar-se. A Igreja participa efetivamente da dor de seus filhos nos cemitérios. Sofremos e partilhamos a dor dos presentes. Não se trata de uma encenação teatral ou mecânica. Cada ida ao cemitério implica numa preparação especial e própria para cada ministro. Para a maioria dos ministros é como se fosse um dia de retiro. As principais “providências” praticadas por cada ministro, no seu dia de presença no cemitério, costumam ser as seguintes.

Antes de ir ao cemitério, rezar por todos os falecidos naquele dia; reunir o material litúrgico necessário (rito, folhetos, Bíblia, água benta, hissopo, terço…), antes de sair de casa; participar da eucaristia; invocar a presença de Deus antes de entrar no cemitério; entrar no cemitério sob o sinal da cruz e reavivar a consciência de que está ali para uma missão, encomendada e instituída pela Igreja.

Ao apresentarem-se no cemitério, os ministros de exéquias costumam tomar determinados cuidados e dar atenção a alguns pontos considerados essenciais pela experiência pastoral. Os cemitérios, muitas vezes, parecem uma rodoviária. As pessoas circulam, entram e saem. Comem nos bares e lanchonetes, bebem, circulam e falam alto. Não existem mais capelas funerárias. As salas onde ficam os defuntos comunicam-se, de forma inadequada, repercutindo uma cacofonia sonora impressionante. O sagrado perde lugar ao profano. O reconhecimento do ministro e do serviço oferecido pela Igreja deve ser feito de várias maneiras, de forma a que tudo concorra para uma sacralização do momento e não para sua profanação.

Nesses ambientes neopagãos, a prática pastoral aconselha algumas atitudes: levar um sinal externo (crucifixo visível no peito, na lapela, terço na mão, Bíblia, sacramentário, vestimenta de ministro ou vestes sóbrias…); visitar cada defunto (visitar todas as salas e aproximar-se de cada defunto, saudando os presentes. Os familiares, em geral, não esperam por esta visita, perguntam-se de quem se trata.); orar junto ao defunto (manifestar respeito pelo falecido e pelos presentes, invocar a Deus em silêncio, junto ao irmão falecido, sem pressa e em profunda meditação, iniciando e concluindo com o sinal da cruz); observar e sentir o ambiente (presença ou ausência de símbolos cristãos – os evangélicos costumam retirá-los, muitas vezes com atitudes de desrespeito expresso pelos símbolos religiosos católicos – ; observar as atitudes dos presentes; a idade aproximada e sexo do defunto, bem como sinais particulares vinculados à morte – sinais de violência, de enfermidade etc.); identificar os responsáveis ou familiares mais próximos (perguntando a hora do enterro; quem é da família; expressando os pesares; apresentando-se como ministro da Igreja etc); oferecer o serviço gratuito e solidário da Igreja, caso os familiares não se manifestem. Estar atento a qualquer comentário da família sobre as circunstâncias da morte, sobre a vida do falecido, sobre sua relação com a Igreja etc. Conforme as circunstâncias, o serviço pode ser oferecido como sendo: oração pelo defunto, pela família e amigos; rito de encomendação do corpo; rito de despedida; funeral cristão ou celebração exequial.

Se o enterro não for iminente, é conveniente marcar a hora da celebração com antecedência e aproveitar para prepará-la anotando resumidamente algumas informações importantes. Às vezes, elas são mais fáceis de serem obtidas junto a familiares menos diretos do defunto, em melhores condições emocionais de falar e informar, do que junto aos filhos ou esposa do falecido, por exemplo. Para que o rito possa ser bem celebrado é importante informar-se sobre: o nome do falecido; as condições ou circunstâncias do seu falecimento; sua idade; o nome dos pais, irmãos, filhos, netos ou parentes, para citá-los na oração dos fiéis; o nome dos parentes falecidos, para lembrar o encontro na casa do Pai, após a encomendação… Esses elementos devem ajudar na escolha dos textos bíblicos, dos salmos e, sobretudo, o das reflexões a serem apresentadas na liturgia da Palavra, de forma clara, concisa, sem dilatados discursos.

No momento da celebração, o ministro deve entrar na sala com certa cerimônia ou atenção. Muitos costumam depositar uma Bíblia aberta sobre o caixão. É uma indicação para todos de que a celebração vai começar. As providências iniciais são: pedir para chamar e reunir as pessoas fora da sala, principalmente os homens; distribuir os folhetos para acompanhamento da celebração; posicionar-se na cabeceira do defunto; convidar as pessoas a aproximarem-se e ficarem de pé; assegurar-se da presença de pessoas mais próximas, que podem ter saído por alguma razão passageira; saber aguardar o necessário, o defunto não tem pressa e o ministro também não deve ter; nas palavras de acolhida, saudar a todos e dar uma primeira explicação sobre o porquê da presença da Igreja no cemitério e sobre o rito que vai ser celebrado.

Nesse momento, os olhares de todos convergem para o defunto e para o ministro das exéquias, cercados, à direita e à esquerda, pelos participantes. Imagens, sinais, símbolos e palavras vão suceder-se num jogo de espelhismos muito característico dos rituais católicos. Em qualquer circunstância, a presença de um cadáver cria e exige uma série de ações litúrgicas, inseridas numa geografia temporal e espacial bastante precisa. Gestos, intenções e reflexões precisam ser feitos e ditos em determinados momentos e lugares ao longo do rito funerário. Ao ocupar o centro da assembléia, ladeado por coroas de flores, velas acesas, participantes e pelo ministro da Igreja (leigo ou sacerdote), o defunto – pela atenção e pelo respeito dados ao seu corpo no ritual – é como um prenúncio da certeza cristã na ressurreição da pessoa.

6 comments for “COMO MINISTRAR EXÉQUIAS

  1. Vilma
    14 de abril de 2016 at 11:26

    Muito bom esse texto, esclarecedor também.

  2. EDER DOS SANTOS SARMENTO
    25 de abril de 2016 at 19:23

    OLÁ SOU MINISTRO ESTRAORDINARIO DAS EXEQUIAS DIOCESE DE COLATINA -ES PAROQUIA BOM PASTOR LINHARES -ES GOSTEI DO MATERIAL ACIMA NOS AJUDA MUITO TODO ESTUDO SOBRE AS EXEQUIAS ME INTERESSA PORQUE VAMOS FICANDO MAIS SEGUROS GOSTO DESSE MINISTERIO POR QUE LEVA ESPERANÇA E FÉ E CONFORTA AS FAMILIAS EMLUTADAS

  3. Onízia de Souza Rocha Santos
    18 de outubro de 2016 at 20:25

    Boa tarde!
    Estou encantada c seu texto, lindo, claro e muito didático.
    Sou do ministério da exéquias a 10 anos, e amo o q faço.
    Obrigada por publicar algo tão lindo sobre a exéquia.
    Fique c Deus.
    Onízia

  4. Ministro Belmiro sampaio
    26 de janeiro de 2017 at 08:24

    Existe livto novo para rxequias ou celebracao da esperanca

  5. luiz antonio tausch
    27 de janeiro de 2017 at 00:45

    o texto esta confuso em funo dos smbolos.

  6. Pe.Antônio Maurílio de Freitas
    13 de setembro de 2017 at 03:41

    Olha, admiro muito o Sr.Dr.Evaristo. Sou padre e o conheci em Juiz de Fora – MG, no seminário Santo Antônio na semana teologica. Preciso de seus livros. Este sobre Exéquias e sibre o Batismo.

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