COMO AGIR SIMBOLICAMENTE SOBRE OS FILHOS?


(15/3/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Muitas famílias. Hoje a família “clássica”, composta por filhos e um casal que constituiu seu casamento quando ainda eram solteiros, coexiste com outros tipos de famílias. Em primeiro lugar, estão as – cada vez mais numerosas – famílias recompostas. Trata-se de famílias constituídas por cônjuges que já tiveram uma experiência conjugal anterior (um pai divorciado com uma mãe solteira ou vice-versa; ambos divorciados etc.). Isso gera, entre outras identidades, um número crescente de meio-irmãos. Do ponto de vista civil, outra forma significativa de família são as chamadas uniões estáveis. O casal vive em situação de concubinato, sem contrair matrimônio civil. Existem também as famílias monoparentais ou biológicas, em que o casal não existe. Nessas famílias, o chefe, é uma mulher e mais raramente um homem. São mães solteiras, viúvas ou divorciadas, com filhos oriundos de um ou de vários relacionamentos. Com metade dos casamentos resultando em divórcio nos primeiros anos de existência, essas novas formas familiares passaram a compor uma realidade cada vez mais significativa na população. Isso sem mencionar as famílias em que avós criam os netos abandonados pelos filhos ou as uniões entre pessoas do mesmo sexo etc.

Mudanças essenciais. Apesar dos diferentes tipos de famílias e de organização da vida privada no Brasil, alguns traços comuns marcam suas características. Em primeiro lugar está a autonomização crescente dos membros da família. Frente à instituição familiar, os indivíduos que a compõe não abrem mãos de sua vida pessoal, afetiva, profissional etc. A vida familiar é uma dessas dimensões. Na maioria dos lares assistiu-se a uma diminuição da autoridade paterna e, consequentemente, dos vínculos entre gerações e sexos, no seio das famílias. O crescimento dos interesses individuais, frente aos familiares, leva a um aumento da instabilidade do casal, a chamada fragilidade conjugal. Na família, as categorias normativas perdem lugar para as categorias funcionais. Os debates migram do direito civil para o direito social. E nesse contexto, o Estado intervém cada vez mais na vida doméstica.

Estado e família. O Estado entende que, de certa forma, deve salvar o indivíduo da sociedade e, por conseqüência, da família. Ele intervém cada vez mais na esfera privada familiar, tanto do ponto de vista jurídico, como econômico e institucional. Do ponto de vista jurídico, nunca se teve tantas leis dispondo sobre planejamento familiar, aborto, divórcio, relações conjugais, autoridade dos pais, guarda das crianças, direitos dos adolescentes, educação sexual nas escolas etc. A tendência é aumentar ainda mais essa interferência “reguladora” ou normalizadora. Do ponto de vista econômico, o Estado brasileiro intervém através de inúmeros mecanismos como fisco, aposentadoria, seguridade social, assistência hospitalar, ajudas, apoios diferenciados a poupança, salários família, educação, créditos habitacionais, pensão para cônjuges etc. Finalmente, em termos institucionais, ao responder a demanda social de uma escolarização cada vez mais precoce, emancipando e liberando as mães para o mercado de trabalho, o Estado interfere diretamente na estrutura e no funcionamento do lar. Isso gera um diferencial de dependência. Diminui a dependência da família com relação a solidariedade de parentesco e vizinhança. Conta-se mais com mecanismos de ajuda de governo do que com as clássicas relações de compadrio, vizinhança e parentesco para resolver uma série de problemas inerentes à vida em família. Aumenta a dependência da família em relação aos representantes do Estado e da sociedade: assistentes sociais, professores, juizes, psicólogos, pedagogos, funcionários…

Família e educação. Nas sociedades ocidentais modernas, a educação é um dever do Estado e uma obrigação para as famílias até a adolescência. Mesmo quando o Estado não assegura esse direito para todos, ninguém questiona essa assertiva. A educação familiar ou doméstica (reprodução social) retrai-se diante da educação escolar. A educação escolar passa a ser entendida como um verdadeiro investimento social da família (reprodução social). A educação é como uma nova herança, não deserdável, a ser dada aos filhos. É impensável para um casal de nível universitário que seus filhos também não tenham estudos de nível superior. Assim como, os mais humildes almejam para seus filhos mais anos de estudo do que tiveram acesso. Na estratégia da reprodução familiar, a aquisição do capital escolar rivaliza-se e disputa meios com a aquisição do capital financeiro ou econômico. Diante de uma legião de professores, psicólogos, pediatras, pedagogos, ortodontistas, catequistas, entendidos… Como resultado desse processo, os pais têm, em gera e cada vez mais, um sentimento de incompetência para educar. O crescimento da instituição de educação escolar transformou os pais em uma entidade incompetente para educar. As famílias, mais ou menos resignadas ou acomodadas, aceitam e submetem-se a essa situação de fato. Elas delegam a escola esse poder, de forma excessiva e desmedida. Ao depender excessivamente da escola, a família é destituída da missão de educar. A ausência de comunicação entre as esferas familiar e escolar é completa. A família não sabe o que se passa na escola (muitas não querem saber mesmo!) e a escola não tem a menor idéia do que acontece nas famílias. Nem seria possível um acompanhamento tão individualizado dos alunos. Para as famílias resta a acomodação ou a angústia, ou ambas. Quando se considera outros mecanismos poderosos de formação e educação, que são a televisão e a internet nos lares, contradições graves podem ocorrer entre a educação familiar e a educação social (escola, televisão, redes sociais…).

Indagações. Essa realidade suscita muitas indagações:

Em que medida, na família pós-moderna, o crescimento dos individualismos é ameaçador para a solidariedade ou a transmissão familiar intergerações (ascendentes e descendentes)?

Como “criar” a criança, num contexto familiar onde as preocupações individuais parecem mais importantes do que as familiares?

A transmissão familiar (contribuição doméstica à reprodução social) é assegurada qualquer que seja a maneira como a família organiza sua vida privada?

Num contexto de mudanças e questionamentos crescentes, as famílias se indagam sobre até onde vai o seu direito e o seu dever de educar os filhos e sobre como fazê-los prevalecer, de forma eficiente e amorosa. Talvez essas muitas indagações possam ser colocadas numa única pergunta: a criança deve ser portadora de um projeto familiar?

Outra energia. Nunca os pais consumiram tanta psicologia como nos dias de hoje. Os pais entendem que agem e devem agir materialmente, socialmente e psicologicamente sobre os filhos. Não há dúvida que o interesse das famílias pelo futuro dos filhos é fundamental. Mas nessa selva de conselhos e preocupações, problemas e desafios, a árvore pode esconder a floresta. Qual a possibilidade real dos pais refletirem e agirem simbolicamente sobre os filhos? Essa dimensão da ação familiar vem sendo perdida. Isso começa quando pais católicos abdicam, por exemplo, de dar o sacramento do batismo a seus filhos. E prossegue por um itinerário onde os atos objetivos, eficientes e concretos ocupam o lugar das ações simbólicas, poéticas e espirituais. Para os cristãos, os desafios da criação dos filhos e da vida familiar exigem mais do que energias materiais e psicológicas. Exigem uma ação simbólica e espiritual dos pais sobre os filhos e na família. A criança não só deve ser portadora de um projeto familiar, como é o resultado desse projeto. Mas que projeto é esse? Ou ainda, qual deveria ser esse projeto? Para ajudar a responder essas perguntas são muitos textos fundadores e arquetípicos existentes na bíblia. Uma reflexão resumida e talvez esclarecedora sobre as relações existentes entre o criar e o procriar, entre o criar divino e o procriar humano está no livro do Gênesis.

Criar pela metade. O livro do Gênesis oferece relatos da criação do humano, da criatura pelo Divino, pelo Incriado e de sua posterior procriação. “Façamos o humano à nossa imagem, segundo a nossa semelhança… Deus criou o humano à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou; criou-os macho e fêmea. Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos e prolíficos…” (Gn 1,26-28). O relato do Gênesis parece anunciar um paradoxo ou até um sacrilégio: como podemos ser imagem e semelhança de Deus ao mesmo tempo? Na realidade somos criados como imagem e incriados como semelhança. Os padres da Igreja já interpretavam assim esse texto polissêmico: fomos criados a imagem de Deus, a nós de nos tornarmos sua semelhança. Somos os autores de nós mesmos. Deus não criou o humano como um objeto acabado, mas como um sujeito. O Incriado nos criou pela metade. A nós, na nossa liberdade de filhos de Deus, de fazer o resto. Deus criou-nos o menos possível para permitir-nos de advir. Para que nós sejamos nele, é necessário que ele nos faça nele, o Nós divino. Mas para que nós sejamos como Ele, Ele não deve nos fazer completamente. Talvez nisso resida um dos maiores conflitos: o Criador não cria totalmente e a criatura deseja fazê-lo. Os pais são tentados a criar os filhos totalmente. Querem definir suas vidas, seus estudos, sua carreira, sua herança, suas amizades e até seus casamentos. É impressionante esse desejo dos pais de criar totalmente – fazendo dos filhos um objeto – enquanto Deus, arquetipicamente, cria pela metade. Esse desejo equivocado de entender os filhos como produção e propriedade do casal é amplamente trabalhado em todo o texto bíblico.

Primeira procriação. Ao ato de criação divino deveria corresponder o ato da procriação do humano. A primeira procriação do casal Adão e Eva, a do Caim e do Abel, será uma antítese da criação e levará à morte (Gn 4,1). Um elo possível entre todos os textos sobre pais e filhos, do começo ao fim da Bíblia, seria o seguinte: Deus interpela o homem para achar o seu lugar. Não o lugar sonhado por seus pais, proposto pelos melhores amigos, desejado pelos inimigos, ensinado nas escolas ou imposto pela sociedade. O lugar único de cada um começa a se definir na família, qualquer que esta seja. É um longo e complexo caminhar do eu para o Eu, do Eu para o TU e de ambos para o NÓS. A maioria dos pais possessivos acredita que têm filhos. “Eu tenho duas filhas.” “Eu tenho três filhos.” Enquanto as crianças são pequenas a relação com elas não é de verdadeira filiação, mas de produção e posse. Comportamo-nos como Eva ao ter seu primeiro filho Caim. Um filho não nomeado, nem abençoado pela mãe. Um filho sem pai. O texto bíblico anuncia seu nome, que vem do hebraico Qaniti e significa “Eu adquiri, eu obtive”, ou seja, a própria anulação do nascimento por um ato de posse. Ao negar a um filho o seu lugar, ao deslocá-lo, nominalmente, os pais o lançam numa dinâmica em que ele buscará, quase sempre, o lugar de outro. Essa tentativa de ocupar o lugar do outro (do pai, do irmão, da mãe…), como sendo o seu lugar, é um equívoco de pesadas consequências. Quantos Abéis não morreram e morrerão… Para muitos, uma criança é o produto de dois seres humanos que a fizeram e a possuem. Dentro dessa lógica o lugar dos filhos será sempre a casa dos pais, o espaço dos pais. Mesmo quando os pais não se comportam como tiranos e buscam para o filho o melhor que podem, trabalham com uma imagem ideal da criança, sempre distante de sua própria verdade. Paradoxalmente em muitos casos, quanto mais os pais se aprofundam em psicologia infantil, em doutrinas pedagógicas, educacionais e até religiosas, talvez – mais ainda – essa imagem se torna idealizada. Mas um dia o filho que aprende, que compreende, faz algo a mais: ele surpreende. O filho muda de lugar para assumir o seu lugar. Foi o que sucedeu com Jesus, conforme conta Lucas em seu evangelho (Lc 2,41-52).

Segunda procriação. A segunda procriação, a do Set, Shet e posteriormente a do Enoque, Enosh, será imagem e semelhança do ato do Incriado, e levará à vida (Gn 4,25-26; 5,3). O quadro anexo faz uma comparação dos principais atos simbólicos e espirituais envolvendo a criação e a procriação, o criar divino e o procriar humano. São muitos pontos a serem comparados. Nem todos cabem neste artigo. Mas, ao contrário da primeira procriação, em que o homem penetrava Eva, agora é o Adão quem conhece sua mulher. O filho será nomeado pelos dois no texto bíblico e não apenas por Eva. Será gerado à semelhança e à imagem de Adão (Gn 5,3), como filho. Inserido na filiação e na cadeia de ascendentes familiares. Shet será fértil e terá descendência. “Também a Shet nasceu um filho a quem deu o nome de Enosh. Foi a partir de então que se começou a invocar o nome do Senhor (YHWH)” (Gn 4, 26). Para o livro do Êxodo, o nome de Deus não fora revelado antes da época de Moisés (Ex 3,14 e 6,2). Entretanto, quando o ato da procriação do humano se assemelha ao ato divino, o nome do Senhor é revelado e passa a ser invocado. As comparações desses três relatos, em paralelo, são densas de reflexões sobre as relações da família, através da procriação e criação de seus filhos. O projeto familiar de criação é de consagração ou de profanação? Aí se encontra, aliás, a origem etimológica da palavra criança.

Unir ou penetrar. Ao casal humano Deus havia determinado: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá (davaq) à sua mulher e eles serão numa só carne (Gn 2,24). Em hebraico o verbo conhecer, penetrar, é iada. Ele comporta uma idéia de unilateralidade. Um sujeito ativo e um objeto passivo. Eu conheço, eu penetro. Há algo de negativo nessa forma de relacionar-se. É como em português, quando dizemos, em tom de crítica negativa: – Eu te conheço! O Adão penetrou a Eva, como tantos outros homens suas mulheres. Os casais da bíblia são em sua maioria um desastre: Adão e Eva, Noé e sua mulher sem nome, incapaz de cobrir sua nudez, Abrão que entrega sua mulher estéril ao faraó como um proxeneta, Rebeca enganando Isaac… A palavra de Deus ao casal humano não era penetrar, era outra: unir-se (Gn 2,24). O verbo unir, davaq em hebraico, evoca claramente a reciprocidade, o consentimento mútuo, como duas peças coladas e unidas. É a esse chamado, a esse mandamento que a família é convidada responder. Unir-se numa só carne. Não num processo fusional, de perda de identidade do pai e da mãe, mas ser para uma só carne, para o filho, no filho. Não é fácil. Nunca foi. Talvez o primeiro casal bíblico que realizará, pela primeira vez em plenitude, esse mandamento primordial, anterior a toda a lei e a qualquer legislação, será José e Maria. Esse casal é o paradigma dos que se unem pelo filho, pela filha; dos que sabem retirar-se diante do crescimento dos filhos; dos que agem simbólica e espiritualmente sobre sua progenitura. Pra José e Maria não se tratava de penetrar, de conhecer, mas da união. União sagrada que preserva a identidade de cada um e a coloca ao serviço da vida, do outro e do Outrem. Deus celebra sua aliança com seres separados, diferenciados, com identidade e não fundidos ou confundidos. O papa João Paulo II, no encerramento do Congresso Pastoral Teológico no Rio de Janeiro, em outubro de 1997, disse algo de uma profundidade impressionante: “O homem é a via da Igreja. E a família é a expressão primordial desta via. Como escrevia na Carta às Famílias. “o mistério da encarnação do verbo está em estreita relação com a família humana”. Não apenas com uma, a de Nazaré, mas de certa forma com cada família…” É como dizer que a cada vez que o humano concebe, procria, Deus desce de novo à terra. Ao assumir a realidade humana, Jesus Cristo a divinizou. A família cristã participa, de forma extra-ordinária, desse Mistério: ao procriar, ao criar, ao agir espiritualmente sobre os filhos, ao educar.

QUADRO COMPARATIVO SOBRE OS ELEMENTOS SIMBÓLICOS E ESPIRITUAIS NO RELATO DA CRIAÇÃO E PROCRIAÇÃO DO GÊNESIS

CRIAÇÃO

1ª. PROCRIAÇÃO

2ª. PROCRIAÇÃO

Criação

Gn 1,26 e 5,1

Primeira procriação Gn 4,1. Caim e Abel

Segunda procriação Gn 4,25-26 e 5,3. Set, Shet (e depois Enoque, Enosh)

s faremos (emprego raríssimo 3,22; 11,7; Is 6,8)

Eu

Nós

Palavra criadora

O homem penetrou Hava

Adâm conheceu sua mulher

Abençoado

Filho não nomeado

Filho nomeado (Hava e Adâm)

À nossa réplica, imagem, zelem, zel = sombra, mas também proteção.

Eu adquiri (qana), eu obtive Ter, possuir (Dt 32,6; Sl 139,13; Pr 8,22)

“Elohim me deu outra semente.

Dom

Segundo nossa semelhança, demout, dam = sangue, Adâm, terra vermelha, como o sangue.

Qaîn (comprado, obtido, conseguido, de qanit, como a palavra Caná, das bodas na Galileia)

Shét (essa descendência é fruto da gratuidade divina)

Filho não situado

Filho situado

Frutificai,

Abel, Hèbél (névoa, fumaça , hálito) Inconsistência, fraqueza, ), vaidade (Ecl 1,1).

Morto, ele se esvairá, sem deixar marcas, nem progenitura.

Set, Shét também dá à luz um filho (nomeado, situado e sinalizado, com ascendentes. Set é fértil e gera uma descendência)

Cadeia das gerações

Multiplicai

Dois mal gerados

Nomeia o filho (Enosh)

À nossa réplica (sombra), segundo nossa semelhança (sangue)

Sem imagem

Sem semelhança

(produção independente)

Adâm gera à sua semelhança (sangue), segundo sua réplica (sombra). Ordem invertida.

O Incriado gera o incriado

Filho como objeto acabado, criatura, produto.

O criado pode tornar-se semelhança.

O Incriado não pode morrer

Criatura morta e amaldiçoada

Criatura imortal (cadeia de gerações, eile toldot, Eis as gerações) e abençoada.

Sábado: dia da incriação.

Sem invocação, sem vocação, sem contemplação = profanação.

O nome IHWH é revelado e começa a ser invocado, clamado. Consagração. Dia do Senhor.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Como agir simbolicamente sobre os filhos (parte 1). A Tribuna, Campinas – SP, v. 89, p. 6 – 7, 1998.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Como agir simbolicamente sobre os filhos (parte 2). A Tribuna, Campinas – SP, 1998.

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