CLONAGEM É INCESTO


(30/12/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Um fantasma assola este início de século. O fantasma da clonagem. O anúncio de uma suposta clonagem, por adeptos de uma seita esotérica, assustou a comunidade científica e as sociedades ocidentais. A clonagem reprodutiva está proibida nos Estados Unidos, na Europa e em breve no Brasil. E com razão. Por que? Por que o clone poderá nascer com defeitos? Por que para obter um caso de sucesso, sacrificam-se centenas de embriões? Todas essas razões são válidas, mas existem outras, mais fundamentais, e têm a ver com os princípios de nossa humanidade.

Duas dimensões, muito simplificadamente, fundam o humano: a noção de limite e de vínculo. O humano é capaz de autolimitar-se. Um pai não faz sexo com sua filha. O humano proíbe o incesto. As sociedades proíbem o incesto. Isso, por um exemplo, é um eixo estruturante da humanidade, face a animalidade. Essa limitação, como tantas outras próprias do humano, também tem a ver com a noção de vínculo. Não sou filho do nada. Tenho ascendentes e descendentes. Alguns psicanalistas chamam esse vínculo de inserção genealógica, sem a qual se perde a identidade humana. Herda-se das gerações passadas a vida individual, no sentido genético, e também a vida social. A linguagem é talvez um dos exemplos mais claros dessa vinculação relacional que nos faz humanos através do outro. Ao mesmo tempo, as ideologias e oportunismos do momento sempre podem e tentam subverter os princípios de nossa humanidade, visando poder e lucro.

Um exemplo dessa ameaça está na clonagem humana. O problema não está em gerar-se uma pessoa idêntica a outra. A humanidade já conhece muito bem os casos de duplicação genética nos gêmeos homozigóticos ou idênticos. A questão é outra. O clone de uma pessoa será seu irmão e simultaneamente seu filho. Uma ruptura do fluxo em cascata das gerações, como na bela expressão de Tertuliano, com conseqüências inimagináveis para nossa humanidade. A clonagem é um incesto consigo mesmo. Um incesto ao quadrado! Quando alguém pratica o incesto é condenado, no direito, por crime contra a genealogia. É igual na clonagem. Só que com muitos cúmplices a serem levados às barras da Justiça.

Ao proibir a clonagem humana, os países impõem limites necessários a pesquisas e desvarios de alguns cientistas e charlatões sedentos pelos chamados genodólares. Em nome de uma ideologia cientista ou religiosa, que lhes daria a liberdade de fazer o que quiser, eles reagem. Prometem utopias e, às vezes, têm boa mídia. O marxismo-leninismo também prometeu e cativou com uma utopia igualitária comunista, onde todos os problemas sociais estariam resolvidos. Sabem-se os trágicos resultados de sua aplicação, em tantos países. Alguns cientistas – manipuladores de embriões e opiniões – vendem uma utopia gênica, reparadora e sanitária anunciando que doenças serão curadas, bebes serão geneticamente perfeitos, acabará a dor e o sofrimento. Agora, por apenas 200.000 dólares, uma seita promete a ilusão imortalidade.

Os médicos nazistas foram condenados em Nuremberg por suas pesquisas genéticas. Muitas nações proíbem pesquisas sobre armas de destruição. Grupos, seitas e equipes que violam os princípios de humanidade, devem ser punidos com o rigor da lei. Quando a ciência deixa de ser descritiva e explicativa, para tornar-se normativa, a sociedade deve reagir. Não cabe à ciência dizer como deve ser nossa sociedade. Cabe à sociedade definir a ciência e as pesquisas que quer ter.

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