CIRCUNCISÃO


(1/1/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

O primeiro envelope em nossa vida é o do ventre materno: essencial e necessário por nove meses. Mas esse envelope material, no final da gravidez, torna-se prisão e limite. O desenvolvimento progressivo do embrião, do feto e do bebe levam ao abandono do envelope uterino e ao nascimento. No tempo certo, mas de forma inevitável, a criança nasce, irrompe, rompendo a matriz ventral materna. As condições do parto não são sem conseqüências sobre a psique e o destino do recém-nascido. Ao sair de um envelope, entra-se em outro: o organismo familiar, uma nova matriz abdominal, que vai alimentar e cuidar do nascituro.

No judaísmo tradicional o primogênito, textualmente rompedor de matriz, pertencia a Deus. “Javé falou a Moisés: Consagre a mim todos os primogênitos, todo aquele que por primeiro sai do útero materno entre os filhos de Israel, tanto dos homens como dos animais: ele pertencerá a mim” (Ex 13,1-2) e ainda “você reservará para Javé todos os primogênitos do útero materno; e a Javé pertencerá todo primogênito de sexo masculino, também dos animais que você possuir.” (Ex 13,12).

Se a criança não fosse deixada ao serviço de Deus no templo, devia ser resgatada pelos pais, através de um ritual envolvendo o sacrifício de um animal. “Os primogênitos humanos, porém, você os resgatará sempre. Amanhã quando seu filho lhe perguntar: “Que significa isso?” você lhe responderá: “Com a mão forte Javé nos tirou do Egito, da casa da servidão. O faraó se obstinou e não queria deixar-nos partir; por isso, Javé matou todos os primogênitos do Egito, desde o primogênito do homem até o primogênito dos animais. É por isso que eu sacrifico a Javé todo primogênito macho dos animais e resgato todo primogênito de meus filhos.” (Ex 13,14-15)

Nesses rituais ricos de simbolismos, os filhos machos são circuncizados. Na cerimônia da circun-cisão, um anel de carne é retirado do prepúcio do pênis. Eis que o sexo, sai também do envelope que o envolvia. Simbolicamente o prepúcio tem um caráter feminino; dentro dele o pênis se move. Presente em muitas outras culturas, além do judaísmo, a prática da circuncisão transforma, alegoricamente, o homem – mulher em homem. Torna-o carente de um anel, feminino. Esse pênis, agora descoberto, poderá ser recoberto pela mulher, pelo feminino que lhe falta. Deus escolheu, para marcar o homem, seu sexo, seu lugar de união íntima com a mulher.

Trata-se realmente de uma cisão e não somente de uma marca. Essa cisão é diferenciadora sexual (diferenciação terciária) e paradigmática da união sexual com a mulher, e não de uma circun-separação. As vestes de pele entregues ao homem e a mulher na expulsão do paraíso (hímen e prepúcio) cedem lugar a união. Essa cisão cria a marca da união, a busca da aliança, desse anel símbolo do casamento. A aliança, símbolo do matrimônio e da união de duas pessoas, ao ser colocada no dedo, o divide em dois. Assim, a aliança simboliza união e separação, a preservação das identidades. O tema da circuncisão uniu e dividiu os primeiros cristãos e foi objeto de várias reflexões do apóstolo Paulo. O fato é que o rito do batismo cristão recupera vários dos conteúdos simbólicos desse rito judaico. O batismo é também um rito de apresentação no templo, de consagração do filho a Deus e de reconhecimento de sua autonomia. Várias etapas do ritual do batismo católico retomam as alegorias da cisão e separação da criança com relação aos projetos fusionais e possessivos dos pais.

A Jesus correspondia plenamente a lei judaica: era macho e primogênito de Maria e José. Pertencia a Deus e seus pais têm que resgatá-lo no Templo. Lá Simeão o toma nos braços, louva a Deus, maravilha o pai e a mãe de Jesus com sua palavras mas diz a Maria: “Ele será um sinal de contradição. Quanto a você, uma espada há de atravessar-lhe a alma.” (Lc 2, 27-33). Na tradição islâmica, cristã e judaica, os pais têm a oportunidade de refletir e agir simbolicamente e espiritualmente sobre os filhos como algo que não lhes pertence. Esses conteúdos simbólicos são resgatados e harmonizados plenamente e com poesia durante a celebração do rito católico do batismo.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Circuncisão. A Tribuna, Campinas – SP, v. 92, p. 10 – 11, 2002.

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