CIENTISMO AMEAÇA O PRINCÍPIO DE HUMANIDADE

(2/4/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Resumo do discurso do Prof. Dr. Evaristo Eduardo de Miranda

por ocasião da entrega do Prêmio Científico Prof. Dr. Newton Freire Maia – Piraquara – 28 de Abril de 2002

 

O Instituto Ciência e Fé é um espaço privilegiado para o diálogo entre pessoas de diversos horizontes, perspectivas religiosas e políticas. A cultura da diversidade e a valorização da alteridade têm sido a marca da atuação do Instituto, cada vez mais conhecido e respeitado nos meios acadêmicos, governamentais e não governamentais. Na ocasião em que sou honrado com a atribuição do Prêmio Científico Prof. Dr. Newton Freire Maia, sinto o dever de alertar sobre uma das ameaças que pairam sobre nossa humanidade: o cientismo.

É paradoxal: nunca se defendeu tanto os direitos humanos. Chega-se a ponto de sugerir a criação de um tribunal internacional julgar os crimes contra a humanidade. Nunca o Ocidente mobilizou-se tanto pelos direitos das minorias culturais e étnicas, propondo até a derrubada de governos para instauração da democracia.. Ao mesmo tempo, nunca os princípios de humanidade estiveram tão ameaçados. E o pior: não o são por um tirano isolado, mas também por alguns membros da comunidade científica e seus aliados. Hoje, um fantasma ronda laboratórios e centros de pesquisa: o cientismo. Para essa ideologia, a ciência daria a conhecer as coisas como são, resolveria todos problemas da humanidade, satisfazendo todas as necessidades legítimas da inteligência humana. Seus adeptos não admitem limites em suas pesquisas, nem orientação e, muito menos, oposição. Mesmo quando ameaçam princípios fundadores de nossa humanidade.

As utopias do cientismo acenam com o mito da sociedade reparadora. Afirmam, e a mídia propaga, que estudos genômicos vão eliminar todas doenças; manipulações de embriões garantirão seres eugenicamente sadios; transplantes de órgãos serão simples como compras em supermercado e até a morte, poderá ser um dia vencida. E não aceitam limitações às suas criações de embriões e manipulações de vidas humanas.

Na tradição grega, judaica e cristã, a razão é um princípio fundador da humanidade. A verdadeira razão é crítica. E, em primeiro lugar, de si mesma. Por isso é modesta. A razão livre é independente de Príncipes, interesses particulares, genodólares e poder. A razão impõe limites estruturantes. Um pai não faz sexo com sua filha. A proibição do incesto, por exemplo, é uma limitação estruturante, própria do humano e não dos animais. No último número do Jornal Ciência e Fé, abordamos esse assunto num artigo.

Para mesma tradição não existem graus de humanidade, como pretendiam nazistas urdindo raças inferiores e superiores, sub-homens e super-homens. Em Nuremberg, ao condenar-se os médicos nazistas e suas experiências “genéticas”, proclamou-se a irredutibilidade da pessoa humana. Como diz Guillebaud, um deficiente mental é tão humano quanto um Nobel de física. Um índio mendigo é tão humano quanto um presidente. Ninguém pode decidir qual vida vale a pena ou não de ser vivida. Seguridade e sanidade não podem eliminar a fraternidade.

Quando EUA, Europa e Brasil proíbem a clonagem humana estão definindo as pesquisas que desejam ou não. Não cabe à ciência definir nossa sociedade. Cabe à sociedade definir a ciência que precisa e deseja, impondo limites, orientações e objeções a tudo que ameace a humanidade.

Se o cientismo entra pela porta, o irracional vem junto e ameaça a verdadeira ciência. No século XIX, para alguns positivistas, a ciência ia resolver todos os problemas da humanidade. Enquanto isso, o irracional galopava em experiências sobre “magnetismo humano”, mesas e copos que giravam, espiritismo, ectoplasma etc. Agora, no século XXI, enquanto o cientismo proclama utopias enganadoras para justificar sua sede de dinheiro e poder, cresce o fascínio pelo irracional, pelos gentis Harry Potters holywoodianos.

Laboratórios de genética não podem ser assombrados por esses velhos fantasmas. Um geneticista judeu dizia: nosso problema não é ter descoberto a Árvore da Vida, mas tê-la vendido a Wall Street. Fundados nos princípios de humanidade, cabe a todos defender as conquistas científicas frente ao irracional e às desviações do cientismo, separando a ciência de sua ideologia. Nesse sentido, o Instituto Ciência e Fé é um dos raros espaços neste país onde essa reflexão iluminadora pode ser desenvolvida, debatida. Um espaço ecumênico que recusa qualquer forma de exclusão ou discriminação. Isso lembra uma parábola.

Durante a Idade Média, verdadeira primavera da humanidade, ouve um monge muito sábio. Era um místico, conselheiro do rei, famoso por sua sagacidade e respostas rápidas às questões mais difíceis. Certo dia, seu rei – que gostava de testá-lo – perguntou-lhe abruptamente: “- Qual dos dois é mais poderoso: eu ou Deus?” O monge sem hesitar respondeu: “- É Vossa Majestade! Não há a menor dúvida possível.” O rei ficou surpreso, notou um aparente descuido e disse-lhe que ele havia cometido um grande equívoco.

O monge reiterou: não havia a menor dúvida possível. Entre Deus e o rei, o mais poderoso era o monarca. O rei, beirando a indignação, quis saber no que ele – um mortal limitado, enfermo e envelhecido – era mais poderoso do que Deus. O monge respondeu serenamente: “- Quando alguém em seus domínios transgride uma lei, comete um crime, desrespeita sua autoridade e ofende sua coroa, Vossa Majestade pode expulsá-lo do seu reino… Pois bem, Deus, Deus não pode fazê-lo. Ninguém é excluído e não há exclusão no reino do Senhor.”

 

Publicado em:

http://www.cienciaefe.org.br/online/mai02/discurso.htm

 

 

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