CIÊNCIAS NÁUTICAS E CIÊNCIAS DA VIDA

(8/5/2010)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

O escritor romano Plutarco (106-48 AC), no livro “Vida de Pompeu”, atribuiu a esse general romano a frase: Navegar é preciso, viver não é preciso, em latim Navigare necesse est, vivere non necesse. Durante uma forte tempestade no Mediterrâneo, o general Pompeu (Cnaeus Pompeius Magnus) teria dito essa frase a seus temerosos marinheiros quando traziam alimentos da África para Roma, em plena guerra.

Ela foi retomada como lema da Liga Hanseática. Essa aliança de cidades mercantis estabeleceu e manteve um monopólio comercial sobre quase todo norte da Europa e Báltico , entre os séculos XIII e XVII . Bem mais tarde, a expressão retomou ares de convocação ao heroísmo na obra de Gabriele d’Annunzio (1863-1938), poeta e dramaturgo italiano , herói de guerra , de excêntrica carreira política . Suas idéias nacionalistas inspiraram Benito Mussolini, que retomou esse adágio romano em um famoso artigo no jornal Popolo d´Italia em 1920.

A frase “Navegar é preciso, viver não é preciso” está associada às descobertas marítimas dos portugueses, heróicos exploradores de mares nunca dantes navegados. Ela é o título de um conhecido poema de Fernando Pessoa em que ele exalta os ideais patrióticos, épicos e gloriosos. “Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.”

Com o advento e o aperfeiçoamento do astrolábio, do sextante, da cartografia e das técnicas de navegação, a ciência náutica portuguesa ganhou enorme precisão no século XVI. Ao dirigirem-se às Índias, os navegantes lusitanos ficavam cerca de noventa dias em pleno Atlântico sem ver terra alguma. Sempre sabendo, razoavelmente, onde estavam. Navegavam com precisão, graças aos instrumentos e às ciências náuticas. Navegar tornou algo preciso. Quanto mais hoje com todos os recursos tecnológicos, como o uso de satélites de posicionamento global. Faz tempo que navegar é preciso. Mas o viver dos homens nunca foi preciso. E nunca será.

Talvez por homonímia, esse adágio romano também possa ser entendido no sentido da humildade e não da prepotência diante da vida; da confiança e não do medo, apesar de todos os infortúnios, ameaças e fatalidades. Como no convite de Jesus a entregarmos nossa vida, tão imprecisa e imprevisível, tão frágil e passageira, nas mãos de Deus. “Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as alimenta. Ora, não valeis vós mais do que elas? Quem dentre vós, com as suas preocupações, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida? E com a roupa, por que andais preocupados? Aprendei dos lírios do campo, como crescem, e não trabalham e nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles” (Mt 6,26-30). Nessa confiança reside o verdadeiro heroísmo. Confiança filial também presente na frase de Jesus: “Até mesmo os vossos cabelos foram todos contados” (Mt 10,30).

A imprecisão das ciências da vida ensina: os fracos são poderosos. Os deficientes são eficientes. Os desnecessários são precisos. O clamor e a confiança de seus corações são capazes de abrir pessoas totalmente fechadas. São capazes de mudar vidas. Em cada pessoa, aceitar a própria fragilidade e a imprecisão da existência faz viver, livre das ambições ilusórias de controle. A imagem socialmente aceita do ser humano ideal é um mito: uma pessoa autônoma, eficaz e competente (se possível rica e bela). A sociedade deve levar em conta as diferenças e as necessidades de todos os seus membros, sem exceção, e reconhecer os dons de cada um. Esse é o sentido da civilidade e da civilização expresso nas palavras do papa João Paulo II: “A qualidade de uma sociedade ou de uma civilização não se mede pela sua riqueza, nem pela sua eficiência, mas pelo respeito que ela manifesta com relação aos mais pequeninos”. Aos mais imprecisos.

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Viver não é preciso. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3872, p. 15 – 15, 2010.

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