CÉU OU CÉUS?


(13/4/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

O hebraico é uma língua sagrada e o povo judeu é seu guardião. Havia deixado de ser falada durante séculos, salvo nas liturgias religiosas. Fenômeno único no mundo, há cerca de cem anos, essa língua voltou literalmente a reviver e hoje é falada por milhões de pessoas. Esse processo está fundamentado na concepção da unidade da língua hebraica e na continuidade dos seus diferentes períodos literários e históricos. Ele não é resultado de uma evolução orgânica, onde o velho é substituído pelo novo, como é usual no desenvolvimento natural das línguas faladas. No hebraico moderno, os diferentes estratos históricos dessa língua encontram-se lado a lado. As estruturas semânticas do hebraico, Verbo de Deus, revelam leis ontológicas e realidades escatológicas.

Várias palavras em hebraico só existem no plural, sem a forma singular. Vida, haim, por exemplo, é sempre grafada no plural: vidas. “Eu sou o caminho, a verdade e as vidas”. A palavra água também. Maim, águas, é sempre plural, como a multiplicidade das águas. A mesma coisa ocorre com a palavra céus, em hebraico shamaim. Em hebraico, ao falar das dimensões celestes, emprega-se sempre o plural. Não existe nessa língua, nem no texto bíblico, a palavra céu, no singular.

Por essa razão, o correto seria sempre dizer: “Pai Nosso que estás nos céus”. Essa expressão não pretende localizar Deus geograficamente, em algum lugar. Essa expressão semítica evoca a pluralidade absoluta dessa presença. Ou dizer ainda: “Seja feita a Vossa vontade, assim (aqui) na terra como (é feita) nos céus”. Nos céus, a vontade de Deus é. Aqui na terra, não. Por isso, pedimos para que essa vontade seja cumprida na terra, da mesma forma que é cumprida nos céus. Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como nos céus. Ninguém pede para que a vontade de Deus seja cumprida na terra e nos céus. Lá, ela já é cumprida de forma exemplar para os que vivem na terra. Esse é o sentido da frase do Pai Nosso, que pode levar a um erro de entendimento.

Em hebraico, a palavra céus, shamaim, pode ser decomposta em duas raízes: sham + maim. Textualmente, significa: lá (sham) tem águas (maim). Os céus são as águas superiores, conforme o relato do Gênesis 1,6-7. “Deus disse: ‘Que haja um firmamento (um teto) e que ele separe ás águas das águas!’ Deus fez o firmamento e separou as águas inferiores do firmamento das águas superiores”.

Um teto, um firmamento, raqia em hebraico, algo sólido, suporte. A palavra vem da raiz raqa que significa laminar. Esse teto luminoso represa as águas celestes e foi progressivamente sendo assimilado à abóbada celeste pelo latim eclesiástico. Mas, esse sentido inexistia na tradução de S. Jerônimo e, ainda menos, no hebraico bíblico.

Os cabalistas sempre viram nas “águas de cima” o princípio masculino da fecundidade: chuva, orvalho, esperma… em relação com as “águas de baixo”, o princípio receptivo e feminino: mares, rios, lagos e oceanos, as matrizes. Em inglês, os céus são chamados de heaven e não se confundem com o céu azul sobre nossas cabeças, o sky. Em português, quando se fala de céu, tudo pode confundir-se. Alguém poderá até imaginar que, ao viajar de avião ou numa nave espacial, ficaria mais perto de Deus.

Em nossa maior oração, a da filiação a Deus (Mt 6,9; Lc 11,2) utilizamos seis palavras: Pai Nosso que estás nos céus. Em hebraico, são duas: Avinu (Painosso) shebashamain (noscéus), textualmente. A palavra shamain também pode ser decomposta em shem + main. Shem significa o Nome, o Santo Nome. Baruh haShem!, dizem com freqüência os judeus. Bendito seja o Nome! Entre o Nome e Deus, não há distância. Eqüivalem-se. Por isso, dizemos na oração do Avinu: “Santificado seja o vosso Nome” É o mesmo que dizer: Deus seja santificado.

Os céus bíblicos, a casa do Pai, em sua multiplicidade de moradas (Jo 14,2), evocam a transcendência da existência divina, o infinito inimaginável de Sua absoluta e una Presença, para a qual somos poderosamente atraídos. Baruh haShem!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Céu ou Céus? A Tribuna, Campinas – SP, v. 94, p. 10 – 11, 2003.

2 comments for “CÉU OU CÉUS?

  1. 24 de agosto de 2016 at 01:20

    Pai Nosso que estais nos Céus (céus no plural)… assim na Terra como no Céu (a segunda palavra Céu é no singular), conforme se traduz do latim, a língua universal da Igreja!
    Inclusive, conjugar na segunda pessoa do plural é mais respeitoso do que na segunda do singular. Portanto, (vós) estais, ao invés de (tu) estás.
    Na segunda vez em que se diz a palavra Céu, diz-se no singular e não no plural, conforme apresentado na maioria dos idiomas, conforme a língua mater: “Pater noster qui es in caelis (céus!)… fiat voluntas tua sicut in caelo (céu).
    Teologicamente, o significado de Céus no plural é também para lucidar que há vários graus no Céu, conforme o lugar onde está disposto a hierarquia angelica; e Céu dito a segunda vez no singular, é para explicar o “unum” (unidade) (mútua) entre os bem-aventurados e os coros angélicos que há na visão beatifica.

  2. Michel Barcellos França
    4 de março de 2018 at 02:58

    Céus quer dizer então, lá tem água?

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